Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

  Uma tarde como muitas, mas o sentimento que eu tinha em si já me dizia que algo iria ser diferente, nem que fosse apenas a minha percepção das coisas que mudaria. Foi com este sentimento que fiquei esperando na porta do quarto dos médicos a discussão acabar, observava atentamente mas não conseguia perceber o motivo que tinha originado, tentei ajudar mas ninguém, além de mim que afinal queria passar, parecia interessado em resolver a questão.

   Como disse, a tarde então começou com um sentimento inexplicável de que as coisas eram, e precisavam ser, diferentes de como eu as vinha percebendo e evoluiu para uma crítica à arrogância do jovem cirurgião (como se isto não fosse redundante) ele, ora, não tinha acolhido aquela senhora, que discutia com ele, em seu sofrimento. Eu não, eu sou diferente: repito diariamente a sugestão divina de "fazer aos outros o que gostaria que fizessem a mim", o que quer que aquela senhora quisesse que fosse feito, eu faria. Não sou como eles.

   Colocada a fantasia fui por as mãos na massa e ajudar o residente toda atrapalhada com uma paciente e sua família, especialmente sua família. Enquanto ela convencia um familiar a deixar a sala de trauma eu logo me prontifiquei a ajudá-la, afinal é isto que eu gostaria que fizessem por mim, não? O que se passou então talvez não merecesse mesmo uma descrição mais detalhada, mas eis que estava eu batendo boca com um indivíduo completamente desprovido de razão e eu, que deveria garantir a racionalidade da situação e a continuidade de um atendimento humanizado estava lá, em pé, perdendo o meu tempo e deixando que em mim florescesse o ódio que mandou às favas este papo de acolhimento e humanização hospitalar. Era eu que mandava ali e acabou.

   Mas não era. Infelizmente alguém lembrou-se de colocar em uma tal de constituição que ninguém seria obrigado a fazer ou deixar de fazer algo que não em virtude de lei, seja lá quais forem as leis certamente não incluem determinações, por mais coerentes que possam ser, formuladas por um interno. E onde estão os residentes uma hora destas? Não sei onde está escrito, mas é de muita sabedoria uma regrinha básica que muito já me repetiram e que não se deve dar ordens cujo cumprimento não possa ser garantido. Perde-se a moral e a paciência.

   A noite então veio e eu, arrasado, verifiquei que agora eu via as coisas de um modo diferente sim: sou mais igual do que eu queria admitir. Talvez a única diferença ainda seja a minha disposição para tentar ser diferente, vi que exigirá de mim mais do que disposição e que controlar-se é substancialmente mais difícil que controlar aos outros, manter o sangue frio para agir com precisão sob estresse é uma coisa, mas é algo muito, mas muito mais difícil, manter a serenidade, a empatia e a compaixão quando na verdade você quer trucidar o indivíduo. A partir do momento que você escolheu uma vida para servir, passa ser este seu único objetivo, em qualquer situação, mesmo porque não temos como saber o que cada um merece, como eles agiriam não estivessem sob tanto sofrimento.

   Não sei se foi como guerreiro ou como médico que ele chegou a esta conclusão mas depois de quase 2.000 que propuseram que deveríamos "fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós" ele nos deu uma pista de como conseguir isto: devemos endurecer, mas não sem perder a ternura.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Deuses e semi-deuses

Obrigado Mario Sérgio... Precisava de um estímulo para voltar... Ou dois...
Um foi o seu e o outro foi a observação de que para quem nunca errou, deve ser extremamente doloroso aguentar erros dos outros, por mais insignificante que eles sejam. ou pelo menos foi o que me pareceu quando assisti, como um expectador involuntário, o show que se dava em minha frente tão logo percebi que tinha entrado na enfermaria errada, ou melhor, como eu acabara de descobrir, aquilo era um ambulatório que cada vez ficava mais parecido com um picadeiro. Mas antes que ficasse exatamente igual vi que era hora de sair, pois já havia palhaços demais.

Eu já tinha ouvido berros assim antes, em outras situações que me pareceram cabíveis e inseridos em uma didática coerente: aprender a pensar rápido, certo e sem hesitar, sob qualquer estresse, aprender a ter certeza e segurança do que se faz. Considerando que didáticas semelhantes buscam resultados semelhantes, mesmo que inconscientemente, eu me perguntei a que interessa tal treinamento a médicos?

Tudo bem, existem os emergencistas, aqueles que precisam lidar com o nervosismo dos parentes, a falta de sono, tudo mais do que se poderia supor que fosse exigido de combatente e ainda seguir o protocolo. Talvez pudessem argumentar que ninguém sabe o futuro de ninguém, o professor não pode adivinhar quem estará na tranquilidade da clínica comunitária, quem estará na ansiedade da emergência cirúrgica. Mas eu acho que existem outras explicações mais interessantes.

Uma primeira poderia dizer a respeito da construção de uma mudança realmente substancial no comportamento dos aprendizes: a dificuldade em conseguir chegar à meta determina o valor da meta, e não o contrário, assim em um processo de dissonância cognitiva vamos construindo a nossa personalidade baseada no esforço, real e aparente, e em imagens e valores que assumimos como ideais pelo simples fato de que nos parecem como o único caminho possível à meta. Ou seja, depois destes seis longos anos, estamos cada vez mais parecidos com aquilo que o status quo dominante determina que é um "médico" do que com aquilo que éramos. Para alguns talvez isto seja bom, para outros não tenho certeza.

Uma outra explicação, que não nega mas apenas complementa a primeira, seria que as pessoas buscam profissões, e formas de agir, que melhor se adequam à sua personalidade, ou seja, só uma coisa é melhor que um título de "doutor" para quem não se acha lá grandes coisas, um título de "professor doutor", um palco e um aluno...

Assim, enquanto alguns se convencem que este é o único e possível método para garantir a hierarquia (entre alunos, residentes, enfermeiros etc) e assegurar o aprendizado, outros se encaixam nele como uma luva. Claro que alguns contestam, contestam até mesmo a necessidade de uma hierarquia, mas estes não estão na academia, não formam novos médicos.

Eu disse que já vi tudo isto, mais jovem e mais tolerante. Não que isto me assuste nem me revolte, ainda prefiro a paz que o reconhecimento da razão. Mas me decepciona. Decepciona não pela didática em si, mas porque até agora ninguém disse algo que me disseram na caserna: que eu não estava lá para provar nada, mas para ser um profissional.

Só falta isto. E descer a terra junto dos mortais.
Talvez tudo torne-se até mais divertido... (mas quem precisa de diversão?)

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Vazio por dentro

Chegou mais um PIMBA, foi o que disseram na sala dos médicos enquanto eu terminava, ainda meio sonolento, o meu sanduíche. Não bastasse o apelido nada carinhoso de Pobre, Imundo, Mulambo, Bêbado (e Atropelado que neste caso não se encaixava) que já lhe pôs longe de possibilidade de defesa ou mesmo justificativa, ainda foram capazes de comentar, às gargalhadas, “só que este é mais engraçado, fica fazendo umas caretas estranhas”, soterrando com máximo do desrespeito ao pouco de humano que ele ainda conseguia lutar para manter sob todo o fuzilamento moral que a nossa arrogância e soberba lhe impunha.
Quando cheguei perto para ver, o tal palhaço de quem todos riam, me deu vontade de gritar com ódio: “vocês não imaginam como isto deve doer?”, mas mas uma vez me calei, nunca consigo saber se é porque não sou forte o suficiente para enfrentar o grupo, o meu grupo, ou se eu sei que não faria nenhuma diferença. Ou mesmo porque eu também não consigo sequer imaginar como isto deve doer.
Acuado como um animal selvagem apanhado por caçadores estava ele amarrado em seu leito se debatendo. Enquanto as meninas fugiram com medo de sua violência eu me aproximei, nenhum grande ato de coragem, pois ele estava amarrado, apenas não tive nojo da situação. Quando cheguei bem perto dele, lhe olhei nos olhos e perguntei o que estava acontecendo e eis que o monstro tão assustador disse com uma voz carregada de sofrimento: “Por favor...”, Suavemente lhe perguntei o que queria, no que ele então como de imediato parou de se debater e se acalmou dizendo: “Por favor tire isto de minha cabeça...”
“Não vejo nada em sua cabeça”
“Estes pensamentos”
“Como eles foram parar aí?”
“São meus, mas não consigo controlá-los, eles vêm forte, cada vez mais forte... Por favor! Me dê qualquer coisa que me alivie... Qualquer coisa para dormir... Por favor... Qualquer coisa!”
Foi quando conseguimos pegar um acesso venoso e ministramos uma dose alta de benzodiazepínicos para que se acalmasse, quando todos foram dormir, exceto por mim que, apesar da ironia dos colegas insisti em ficar lá conversando com ele, se foi por humanidade ou curiosidade científica eu não sei, e talvez a ele nem importasse e, além do mais, as repostas a esta dúvida variam com minha auto-estima.
A ação dos benzodiazepínicos no comportamento é extremamente interessante pois leva o paciente (ou eventualmente uma vítima do “boa-noite Cinderela”) a um estágio que os que consideram a consciência profundamente relacionada à capacidade de reter memória implícita chamam de “inconsciente” onde todos os tipos de inibição são eliminados e o paciente fica sujeito a uma condição que fez estas drogas serem apelidadas de “soro da verdade” e sem a capacidade de lembrar-se de absolutamente nada do que ocorreu nos poucos minutes que se seguem à administração da dose.
Pensando nisto decidi aproveitar o momento para uma anamnese completa, era a minha chance de entender um pouco mais sobre o que estava acontecendo, apenas para aprender medicina, pois a minha opinião pouco valeria uma vez que o paciente já seria encaminhado à psiquiatria e não cabia a nós diagnosticar, nem mesmo emitir opiniões. Quanto ao dilema ético que citei, talvez eu pudesse justificar que aprendendo medicina eu poderia aliviar melhor os pacientes que encontrar depois de formado.
Mas voltando ao nosso paciente, quando eu já me encontrava sentado a uma cadeira na beira de seu leito ele me disse que tinha Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e para isto tomava 60mg de metilfenidato, uma dose um tanto quanto alta para um diagnóstico que para mim parecia um tanto quanto errado. Claro que mesmo que eu estivesse certo, e o psiquiatra dele errado, não cabia aqui discutir sua competência pois eu o diagnosticava no calor da sala de emergência e ele no aconchego de seu ambulatório, cabia sim discutir a falta de diálogo entre estes dois polos da medicina.
Para me explicar melhor os pensamentos: sabia que eram dele e que foi ele mesmo que os pôs em sua mente, mas a presença deles o incomodava tanto que precisava fazer algo para esquecê-los: beber, drogar-se, bater-se ou provocar situações que lhe causassem um sofrimento maior do que aqueles pensamentos, quando então ele teria um alívio temporário para eles. E era justamente o que não deixava ele prestar atenção em mais nada.
E o papel do metilfenidato nisto? Simplesmente fazia o que todo estimulante faz, alivia a queixa de desatenção servindo de doping intelectual, mas por outro lado aumentava a sua angústia e ansiedade o que culminou neste coquetel mortífero: metilfenidato, cocaína e álcool. Precisa de mais alguma coisa? Agora é só esperar ele dormir que não se lembrará de nada amanhã e eu aproveitei para continuar a anamnese perguntando-lhe o conteúdo dos pensamentos.
Nada mais desagradável possível: era sempre lembranças de coisa que tinha feito errado ou que podia ainda fazer errado então, buscando uma solução psicanalítica para o caso comecei a perguntar sobre sua infância e família. Seus pais tiveram uma rápida ascensão financeira porém às custas de excesso de trabalho e pouca atenção aos filhos o resumo disto foi que eles só lhe davam atenção quando fazia algo errado e sempre para brigar com ele, esta era a única fonte de atenção que tinha dos pais. Assim “fazer algo errado” tornou-se para ele uma fonte paradoxal de prazer: ao mesmo tempo que obtinha atenção dos pais era insuportável que esta atenção fosse desperdiçada com brigas ao invés de harmonia.
Na contramão das neurotendências serotominérgicas eu acabei de encontrar a peça psicanalítica do Transtorno Obsessivo Compulsivo: o conflito primitivo entre o desejo e a castração, sem, claro, esquecer o componente comportamental: tão logo começaram a aparecer as obsessões, juntaram-se a elas as compulsões em uma tentativa desesperada de aliviá-las e à realização de rituais compulsivos retroalimentou positivamente.
Tentei explicar a minha teoria enquanto ele me olhava com um certo olhar vago balançando a cabeça como se entendendo tudo, neste momento me senti um tanto quanto ridículo: eu, um interno sem grandes pretensões acadêmicas e ele bêbedo, drogado e sob efeito de benzodiazepínicos, nada melhor do que uma oportunidade de errar, pensei eu.
Ele então me disse que agora adulto o conflito parecia cada vez pior, seus pais, agora aposentados buscavam a reaproximação e ele resistia como pois a simples visão dos pais lembrava a ele que não pode recuperar o que nunca teve e sobre isto, mais culpa ainda pois agora a responsabilidade de atrapalhar a união era dele, pessoal e intransferível.
Pensei em minha vida enquanto ele me falava da dele, tentei reencadear as minhas lembranças e achar a fonte dos meus traumas e dificuldades e vi o quanto é estranho a nossa memória, talvez por falta de espaço nós não guardamos as memórias de forma contínua, mas pequenos saltos de imagens estanques: somos crianças em um momento e logo depois como em um passe de mágica nos tornamos adolescentes e parece que todo o resto foi ontem, enquanto rebobinava a minha fita fui vendo enquanto estranha é nossa evolução psicológica: o tempo vai passando as fases vão se sucedendo sem que tenhamos uma única oportunidade de reconsiderar e compreender o que está acontecendo, isto faz algo de perigoso: deixa o nosso corpo exclusivamente na mão de comportamentos condicionados, eis que é um mistério que “apenas” 20% da humanidade seja obsessiva-compulsiva.
Contei-lhe a minha teoria e o animei a buscar pela curo, possível e bem mais agradável do que estimulantes, aí ele me perguntou se parar o metilfenidato diminuiria a sua performance no trabalho e eu perguntei a ele quanto valia a sua paz interior, estaria ele disposto a sacrificá-la pela performance? Aparentemente sim, estranho este mundo tão competitivo o que para mim é tão óbvio outros sacrificam sem pestanejar, conforme discutíamos fui mostrando a ele que muita coisa do que fazia era na realidade reflexo de seu transtorno, quando me veio a pergunta pela qual agradeço até hoje a amnésia benzodiazepínica: se eu me livrar das minhas obsessões o que sobrará em mim?

Sábado, Agosto 23, 2008

Em busca da felicidade

Ele me disse que queria ser feliz. Rasgou-me o fundo da alma escutar isto. Pobre e doente: fraco e aprisionado em leito, embora tão jovem, fez-me envergonhar de cada "problema" meu, ou cada vez que sofri e chorei. Tão grande o meu sofrimento que ele mesmo me consolou: o que precisamos para ser feliz?, perguntou, já mesmo respondendo: fazer o quisermos. Basta então não querermos muito, disse com um sorriso.

Eu sempre tão arrogantemente filosofo tinha que estragar tudio dizendo que os orientais diziam algo parecido com isto há alguns milhares de anos atrás, mas afinal quem está interessado em orientalidades? Mas perto de nós, na Grécia, havia um sujeito que tinha dado outra opinião, disse a ele que ao ouvir a palavra Grécia começou a se interessar... Pois eis que Epicuro já tinha sugerido, assim como ele, que a força da felicidade está mais dentro do que for a de nós.

O tal grego, então, supôs que nós procuramos sempre a felicidade no lugar que ela não está, usando uma concepção sugerida alguns séculos depois por Schopenhauer de o mundo como vontade e representação, representamos vontades como desejos que pouco significam ao serem realizados, pois a vontade que os originou ficou mantida intacta, portanto não somos felizes se apenas realizarmos nossos desejos, seremos se descobrirmos a fundo quais são nossas vontades e concentrarmos-nos nelas. Assim Epicuro reduziu as necessidades básicas da felicidade como três: ter amigos por perto, ser (intelectualmente) livre e analisar-se.

Rindo ele me perguntou porque um médico leria filósofos gregos antigos, em uma época onde a medicina é tão dominada por máquinas e computadores. Disse a ele que era para ter assunto para conversar, assim como estava fazendo com ele: era o preço que eu pagava por tudo que os pacientes me davam, a forma que encontrei de agradecê-los.

Mas a ciência moderna, que tanto faz e tantos espetáculos produz, não tinha inventado ainda uma fórmula da felicidade porque? Sorrindo disse a ele que a sua pergunta me lembrou David que na Bíblia quando Deus lhe ofereceu o que quisesse ele nada pediu que não a sabedoria com a qual todo o resto ele poderia conseguir por mérito próprio. Não lhe disse e não sei se ele entendeu, mas aquele garoto não queria da ciência a cura de sua doença, mas a felicidade. Diante de tal simplicidade o que poderíamos querer de diferente?

Disse a ele que embora tivessem inventado drogas extremamente potentes contra dor, angústia, ansiedade e depressão, livrar-se de todos estes males não garantia a ninguém a felicidade, que é conseguida com enorme esforço, basicamente procurando-a nos lugares certos.

Há sim, um grupo de pessoas que diz fazer trabalhos científicos sobre a questão da felicidade e cujas conclusões auxilia muitos a encontrá-la, é a tal da "Psicologia Positiva". É um exercício interessante interpôr-la com as idéias de Epicuro, veja só, disse a ele, a Psicologia Positiva considera que existem seis virtudes e cada uma é constituída de algumas “forças pessoais”, a saber:

A primeira virtude é “saber e conhecimento” que é constituída pelas forças pessoais de “curiosidade e interesse pelo mundo”, “criatividade e originalidade”, “julgamento e pensamento crítico”, “perspectiva e sabedoria” que corresponde a uma visão global, distanciada e madura acerca dos fatos, mundo e pessoas e o “amor pelo conhecimento”. Esta virtude está de certa forma ligada tanto à auto-análise de Epicuro quanto à liberdade, pois só quem se sente livre o é para expandir seus conhecimentos, assim como aquele que realmente os busca de coração está sempre questionando-o e às suas certezas, assim como a si próprio no processo de auto-análise.

Mas questionar-se não é angustiante, não seria melhor ter só certezas? Realmente, tive que concordar, quem não se questiona, não tem dúvidas e pode ser extremamente feliz assim cercado de um mundo artificialmente perfeito, mas, perguntei eu, o que ocorre quando o mundo foge à regra que decidimos escolher, e o mais importante, como podemos prever o futuro se nos negamos a oportunidade de conhecer todas as variáveis? Disse eu que assim como é nossa escolha a satisfação das vontades, e não dos desejos, para a busca da real felicidade, é nossa escolha ter em cada dúvida, em cada descoberta o prazer de aprender por aprender e entender o mundo para usá-lo e prevê-lo.

Outra virtude é a “coragem”, diretamente ligada à noção de liberdade proposta pelo grego, uma vez que para assumir a liberdade é preciso coragem, pois só é verdadeiramente livre aquele que transcende a moral da sociedade e as imposições do senso comum, conforme observou Nietzsche com a noção do além-homem. Neste contexto a "coragem" ultrapassa as forças pessoais de “bravura e valentia” e revela-se também através da “diligência e perseverança”, da “integridade, honestidade e autenticidade”, do entusiasmo e da energia.

Coragem eu não tenho muita, aqui é sinistro, ontem a noite morreu o terceiro desde que eu cheguei: naquela cama ali em frente... Dei um sorriso que venceu a cara de medo dele para explicar que é importante perceber que a coragem deve-ser vista como todas as manifestações de individualidade e cada ato de sobrevivência, ou seja, diante do destino forte e inevitável não seria meia dúzia de lágrimas (d)e medo que iriam desmerecer todo o conjunto do que aquele garoto sofreu, ele era, com certeza, um belo exemplo de coragem se visto no conjunto da obra: mesmo diante do pior pesadelo que um homem poderia ter ele ainda busca sua individualidade e demonstra que o pouco que ainda tem de vida vale a pena ser vivido.

A virtude de “amor e humanidade” possui óbvias semelhanças com a idéia de que necessitamos de fortes laços de amizade para sermos felizes, tal virtude pode ser construída pela utilização das forças de “amar e aceitar ser amado” que busca valorizar os relacionamentos íntimos, nutrir sentimentos profundos e duradouros e ser capaz de recebê-lo prazerosamente das outras pessoas, assim a doença pode ser transformada em uma oportunidade para a valorização das relações interpessoais, o senso de pertencimento, reatando velhos laços e aproximando as pessoas em torno de uma atmosfera de união com o auxílio também da força de “bondade e generosidade”. A construção da força de “inteligência social e emocional” é feita a partir do conhecimento de si e dos outros, empatia e sociabilidade, capacidade para perceber o estado de espírito e o temperamento alheio usando estas informações para modelar o próprio comportamento.

Para aqueles que duvidam que isto pode ser construído em um leito de hospital, bastava ver tal menino e como ele se relaciona com a população de lá: a cada um que chega porta-se como velhos amigos, não apenas parceiro de brincadeiras, mas como uma pessoa que realmente se importa e demonstra através de um contato humano que ninguém está sozinho, tornam-se mais que vizinhos, mas companheiros de luta e sofrimento.

A quarta virtude é a justiça que é composta por “cidadania, trabalho em equipe e lealdade”, condições fundamentais para a manutenção do ambiente de amizade proposto por Epicuro e que poderia ser desenvolvida pelo doente através do envolvimento dele em grupos terapêuticos, inclusive estimulando-o a levar paz e tranqüilidade a outros doentes (que serve também como a mais potente força de reafirmação positiva do otimismo no próprio paciente). Deve ser estimulada também a imparcialidade, a liderança, a justiça e a eqüidade.

A quinta virtude é a temperança, composta pela “disciplina e autocontrole” que é construída apartir da (auto)análise minuciosa de cada emoção destrinchando-a aos seus mínimos componentes e recompreendendo-a de forma a a valorizar o presente reavaliar o presente ressaltando e recompreendendo os momentos a partir da reavaliação consciente das emoções e do humor do paciente com foco de prevalescer as características de satisfação, contentamento, realização, orgulho, gratidão e perdão. Mas a temperança não é só isto também é “prudência e cautela”, que consiste especialmente em esperar que todas as informações se completem antes de agir, “humildade e modéstia”, mas não excessivamente, e a “capacidade de perdoar”, fundamental nesta fase da vida.

A última virtude é a transcendência que consiste na “apreciação da beleza e da excelência”, na “gratidão”, na “esperança e otimismo”, no “humor e alegria” em a “espiritualidade e religiosidade” que consiste em ter crenças sólidas e coerentes a respeito do propósito maior e do significado do universo, que forneçam uma fonte de conforto e uma filosofia de vida articulada que o situe em um quadro maior de transcendência.

Depois de tudo

Quando fui passar a visita encontrei ele chorando no leito, meio que ainda inseguro e sem saber exatamente o que fazer, me sentei ao seu lado na cama e coloquei minha mão por sobre os seus ombros, seus olhos que antes fitavam a janela agora vagavam pelo chão como que em busca de alguma solução que eventualmente alguém haveria deixado cair, assim como os meus que buscavam por toda enfermaria alguma palavra, qualquer coisa, que eu pudesse dizer que não fosse as idiotices de sempre.

"Passei a minha vida inteira tentando ser forte", disse ele, "às vezes parecia que eu tinha conseguido, mas eu nunca fui. Tenho medo." Qual seria o meu papel agora? Afora todo o esforço da equipe médica em evitar a progressão da doença e buscar estratégias as mais curativas possível a melhor coisa que eu poderia fazer neste momento seria transformar este caminho o mais suave possível à aceitação fazendo que disto surgisse algum tipo de esperança, religiosa ou metafísica, qualquer coisa, enfim.

A questão era que para ele agora o problema não é a sua relação com a morte, mas a presença do fantasma da morte em si, ou seja, seria então totalmente inútil que eu desse conselhos sobre como mudar, se eu não mostrasse a ele antes que enquanto a morte é inevitável, os nossos sentimentos enquanto ainda vivos é que ainda podem ser de certa forma controlados.

Enquanto eu devaneava por conceitos básicos de tanatologia que pudessem (pelo amor de Deus!) me dar uma luz sobre como agir agora, ele voltou a olhar a janela e me mostrou os urubus: “Porque andam sempre em círculos? Como prisioneiros tomando banho de sol no pátio, sempre em círculos, todos na mesma direção...”. “Mas eles são livres...”, retruquei eu, meio sem saber porque eu disse isto, que naquele momento me pareceu a coisa mais idiota possível, depois de tanto pensar. “Ao contrário de mim, preso aqui nesta cama.” Então eu perguntei se ele sentia inveja dos urubus ao que me respondeu com um “sim” melancólico com a cabeça baixa e o olhar vago quando perguntei: “Inveja de que? De ser urubu?”. Não, de ser livre. “Livre para ser urubu?”, insisti eu, que finalmente consegui um sorriso.

“O que pode o urubu que você não pode?”, “sair daqui, desta cama”, foi a resposta imediata. Era a deixa que eu precisava, então bastava ser o mais enfático possível para afirmar que os urubus não voam por prazer, voam para conseguir comida para continuar voando em busca da incerta subsistência diária, não, eles não são mais livres que você, ao contrário: estão condenados eternamente a uma prisão: a prisão de ser urubu. Não podem jamais mais do que sua condição de urubu lhes permitem, passam portanto ao largo de todos os benefícios e prazeres que a humanidade criou e são obrigados a um único objetivo: conseguir comida de forma desesperadamente ansiosa em um mundo cada vez mais modificado.

Ele não, possuía sua subsistência e segurança garantida e poderia se dedicar a inovação criativa muito além do que qualquer urubu pudesse jamais sonhar. Entretanto, a liberdade nunca é total assim como nunca é totalmente restringida: seja na cadeia ou em um leito de enfermaria, quaisquer que sejam as contingências, você será sempre livre para escolher uma entre infinitas possibilidades para cada ato seu e sem a necessidade de luta pelas coisas básicas então a mente poderia ganhar a amplidão do espaço criativo. Mas algumas vezes não ganha pois a dor de supor-se proibido de seja lá o que for cala o grito do novo e reduz o homem a meros repetidores de fatos e ações, aí sim, como os prisioneiros girando no pátio sempre na mesma direção.

Mostrar ao doente que existe uma criatividade possível para além da dolorosa restrição ao “poder fazer” e da paralisante suposição teórica de que a “vontade de poder”, verdadeira força vital de cada um, estaria silenciada pelo aprisionamento dos lugares onde o corpo poderia ir ou as responsabilidades que poderia assumir é realmente uma arte curativa em qualquer situação e quaisquer que sejam as contingências enfrentadas: seja a imobilidade da paralisia ou caquexia, seja as grades de uma prisão ou mesmo uma lesão neuronal.

Poder redirecionar esta vontade para outros “poder fazer”es é dar nova vida ao corpo: enquanto que a morte não é escolha, sofrer por ela é. E aproveitar o tempo que lhe resta da melhor, e mais criativa forma possível também é. O prisioneiro que só pensa em sua “liberdade” perdida, que se esquece das responsabilidades decorrentes dela, assim como o doente que sonha com uma cura milagrosa que lhe devolva a juventude e saúde que a muito já se foram, só encontrarão dor e sofrimento pelo caminho, enquanto que todo aquele que se dispuser a aproveitar o possível, a cada momento este sim, encontrará a felicidade. Diga-se de passagem que todos morreremos um dia, daí, portanto, a frase anterior vale para qualquer um.




Terça-feira, Agosto 12, 2008

O dia que não existiu

Talvez não fosse a hora de perguntar o que houve, na realidade eu já sabia a resposta: ele não lembra. Perguntei então o que havia levado ele a tentar o suicídio e a resposta surpreendeu: foi sentir-se preso, sozinho, no escuro, drogado. A cela era escura, com apenas algumas fatias de luz passando pelas grades no alto da porta, um cheiro intolerável de suor e sujeira e um banco onde não se podia nem sentar, quanto mais deitar, devido a barra de ferro onde prendiam as algemas. E estar lá sem saber exatamente porque, por causa de um ato que não foi ele quem cometeu. Seu corpo talvez, mas não a sua mente. Três dias, que nem foram tão longos quanto podia parecer...

A surpresa da resposta veio porque não foi isto que eu perguntei, eu queria saber antes: o que fez com que ele se matasse ingerindo aquela dose absurda de medicamentos e álcool? Não tinha sido suicídio, apenas queria um tempo, descansar, esquecer, ou seja, sumir: morrer. Revisando tudo que aconteceu ele compreendeu, aparentemente pela primeira vez, o quanto estava sofrendo antes de procurar ajuda médica.

Milhares de projetos simultâneos, reuniões, compromissos, tarefas, todos com data limite estourando. Brigava com todos, todos eram imbecis e arrogantes, ele não, sempre a vítima, perseguido por estar sempre certo. Não conseguia se concentrar em nada: havia sempre algo importante e inadiável esperando, além do mais “filmes” de suas falhas repetiam incessantemente. É ele tinha falhas, e muitas. Não tolerava as falhas dele, se elas o torturam tanto, porque iria perdoar a de outros?

Não tinha sido suicídio então, mas o que fez uma pessoa que já havia passado por isto antes, com uma gama tão grande de opções de drogas, escolher justo uma que lhe tira a memória? Como alguém que pensou cuidadosamente em como daria cada passo, alguém que fez tanto esforço para conseguir a medicação, simplesmente não pensasse em como a medicação iria agir, e quais conseqüências isto poderia ter.

É certo que algo dentro dele sabia exatamente o que iria acontecer tão logo tudo aquilo começasse a fazer efeito e é certo também que era justamente isto que este algo estava procurando, agora só restava a nós descobrir quem, ou o que, era este algo e até que ponto isto seria diferente, ou igual, a quem ele realmente era ou poderia ainda ser.

Ao que tudo indica poderíamos assumir este caso como o suprassumo do behaviorismo, visto que este homem avive diariamente uma angustiante luta contra pensamentos que, embora percebesse como próprios de si mesmo, são tão violentos e autodestrutivos como intoleráveis, e alguma explicação deve existir para a existência dos diversos rituais criados que ele vive repetindo que embora tenham esta finalidade são inúteis para aliviar tal dor. Mas não serie este o caso aqui, mas sim propor um convite ao existencialismo.

A idéia básica é que a existência precede a essência e, portanto, não devemos, buscar uma explicação a uma natureza humana dada e imutável, como faz o behaviorismo radical, mas o existencialismo radicaliza em uma outra direção, pressupõe a ausência total de determinismo: o homem é condenado a ser livre. Condenado porque não criou a si próprio e uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo aquilo que fizer.

Esta noção é fundamental para a compreensão dos mecanismos que regulam a nossa vida em sociedade: já nascemos condenados, e não adianta clamar por justiça ou a pressuposição da inocência ante a dúvida, sequer houve julgamento. Mas o nascimento, este momento exato, embora já lhe pese o fardo, ainda não será suficiente para definir o homem em sua essência pois marca-lhe primeiro a existência: o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define. O homem primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. O homem é , não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz.

Como que contradizendo o que eu a pouco disse a pesada mão da condenação imposta ao homem pela liberdade assume a forma das contingências que cercam o homem, indiferenciando ele próprio “daquilo” que, como em nossa paciente, tomou as atitudes que agora “ele próprio” esta condenado à perda da “liberdade” pela justiça não metafísica dos homens. Eis que ele, ao ser definido como aquilo que faz, é definido como a sua resposta frente as contingências que moldam seu comportamento, sejam as contingências externas a ele (o mundo, a sociedade) ou seja as internas (doença mental, disfunções), mas para aqueles que definem o homem pelo seus atos (todos, inclusive ele mesmo), isto não faz diferença. Não é portanto nossa culpa agir assim, talvez nem tenhamos tanta liberdade, afinal, mas esta é parte da condenação que nos impuseram quando nascemos: havia sim, bem no início de nossa existência, uma enorme semente de essência a qual devemos domá-la e compreendê-la pois responderemos por ela, mesmo que ela não seja parte do que definimos como “nós”.

Mas o que então somos (aquilo que definimos) como “nós”? Se somos o resultado de nossos atos, personagens cuja essência é construída pelas nossas ações ao longo da vida, qual impacto ações tão dramática como estas teriam em nossa vida? Conforme vimos é de muito pouca ajuda, e nenhum efeito prático, a noção de que existe algo em nós que não participe de nós mesmo, porém não vai ser um ato que fizemos, do qual não nos lembramos que vai definir por toda uma vida.

Como desastres que quase sempre são confundidos com os fatos atípicos que os revelam, sejam as chuvas de verão que revelam a ocupação desordenada do espaço levando a culpa que deveria ser dos permitiram tal desordem, assim é também com as pessoas: uma arma em sua mão, que não era dele e nem sequer foi utilizada leva a culpa por todos os fatos que o levaram a estar lá e que propiciaram o surgimento dela, ou como diria o escritor francês, o covarde se faz covarde e o herói se faz herói, existe sempre uma possibilidade do covarde deixar de sê-lo, assim como o herói também, o que conta, na realidade, é o compromisso total e não um caso particular.

Domingo, Junho 22, 2008

A questão no CTI

(Tradução minha)
O que será mais nobre para a alma: aguentar os ataques do destino ou lançar-se sobre seu tempestuoso mar dando-lhe fim, ao tentar resistir? Morrer é apenas dormir, dormir um sono que acaba com as dores do coração e os golpes que vêm da própria carne, esta é a solução que se deseja: morrer, dormir. Dormir e, quem sabe, sonhar. Eis aí todo o problema: que sonhos virão tão logo nos livrarmos das amarras que aqui nos prende? Pois é isto que nos faz parar, é este respeito que torna uma calamidade uma vida assim tão longa.
Quem afinal aguentaria os golpes e o desprezos do mundo, como se a paciência fosse um mérito que simplesmente não valesse a pena quando tudo poderia ser resolvido com uma faca desembainhada. Quem aguentaria tudo isto? Doando seu suor e sangue para suportar uma vida tão cansativa se não fosse pelo medo do que poderia haver depois dela, um país de onde ainda nenhum viajante voltou, terra que desafia a vontade de viajar dos males que conhecemos para aqueles que sequer imaginamos. Esta é a consciência que nos transforma nos covardes, transformando a força selvagem da resolução na pálida máscara dos pensamentos.

Talvez isto explique o que estou fazendo aqui agora.
Ou o que eles estão fazendo em minha frente.
Afinal qual a diferença entre nós?
Ao contrário deles, eu posso tirar minha própria vida, eles dependem de mim para isto.
Mas fora isto, nada do que a superioridade aparentemente tão óbvia, tem afinal, algum valor.
Viver, morrer.
As amarras que nos prendem são as mesmas, a covardia que nos angustia também.
Posso sair daqui andando, fingindo que isto não passou pela minha cabeça, fingindo que nunca estarei aqui, fingindo que quando estiver terei esperança.
Esperança de que?
De voltar tudo como era antes?
E que valor tem isto?
Não seria melhor poupar me de tudo isto, com uma faca de desembainhada?
O que me prende aqui, afinal?

Domingo, Junho 15, 2008

Herói

Eu o percebi quando ele se levantou, aquele homem enorme iria achatar a pobre mulher, preocupação que ninguém parecia ter, não obstante o trabalho que iria dar caso isto ocorresse. O gigante mal conseguia andar, as pernas, que um dia já devem ter se orgulhado de sua força, não sustentavam mais todo resto, mãos grossas, outrora tão poderosas, já não prestavam nem para apoio ou equilíbrio, de tudo, só lhe restava o amor da esposa.

No caminho do banheiro ele me disse quão ruim era ficar doente, especialmente quando a causa era desconhecida, mais preocupado com meu aprendizado do que com o sofrimento daquele homem, decidi examiná-lo. A história, que de inicio me pareceu fascinante, para ele certamente era dramática e, em segundos, encaixei seu florido quadro de sinais e sintomas em uma elaborada teoria de manifestações para-neoplásicas e como que se descortinassem a meus olhos uma velha história mal-contada logo percebi uma massa paupável no quadrante superior esquerdo do abdome e um linfonodo como o da velha freira, irmã Maria José.

Insisti com a equipe que deveríamos melhor avaliar o paciente, exigi uma ultrassonografia abdominal, bioquímica e hematologia. Ninguém parecia dar tanto valor ao doente como eu e, naquele momento me senti importantíssimo a ele, perigosamente importante, talvez, nunca iria imaginar que o perigo seria para mim, e não para ele, se o câncer o corroía, ele, afinal, estava no melhor lugar onde poderia estar, assim como eu, também estava no melhor lugar onde poderia deixar-me corroer pelo pecado que supostamente seria o preferido do diabo: a vaidade. Sentir-se importante para alguém e julgar ter feito uma descoberta "fundamental" é algo que desafia a nossa humildade e destrói a nossa capacidade de ver o mundo como ele é e nos cega com imagens de como gostaríamos que ele fosse.

Pois que a bioquímica revelou-se surpreendente e a hemato algo bem longe do para-neoplásico. O quadro, embora urgente, não era necessariamente crônico e, desafiado a provar os sinais que eu tinha visto, provei a mim mesmo incapaz de um exame físico confiável, na frente de uma pequena junta e de meus pares, o meu linfonodo era uma hérnia umbilical e não havia massa, mas apenas uma tensão em um paciente que fora examinado sentado. Não há exceções para o certo, disse, sem esconder um ar de reprovação, o professor.

Poucas vezes o caminho de casa me pareceu tão longo. Estava me acostumando a vitórias o que transformou a pesada lição em uma multifacetada conjunção de ensinamentos, quisera eu ter a sabedoria de aproveitá-los e nunca mais esquecer. Uma noite em claro e pesadelos de assassinato: teria eu, se pudesse, enviado aquele homem a quimioterapia?

Tudo bem... Não serei tão dramático, afinal nenhuma atitude seria tomada sem que antes eu solicitasse um parecer de um oncologística, mas quantas alucinações semióticas e delírios diagnósticos eu ainda sofrerei, o quanto eu preciso para ver somente a luz que entra nos meus olhos, escutar apenas o que é me dito? O que eu ainda preciso fazer para ter este dom, sua falta, certamente é bem pior do que uma incapacidade médica, para compensar isto, basta estudar, mas como compensar a esquizofrenia clínica.

Eu tinha dito a ele que o visitaria no dia seguinte. Não fui. Envergonhado de minha atitude, preferi esquecer, mas a culpa por ter abandonado sem esquecê-lo foi como vinagre sobre sobre a ferida ainda mal curada. No corredor da emergência, encontrei sua esposa, embora tenha tentado ignorar-la, ela me reconheceu e vei me falar.

Assumi minhas fraquezas e confessei minhas vergonhas, disse-lhe que preferia e que muito tinha desejado ver o marido dela com um triste diagnóstico de câncer, pois isto apaziguaria dor de minha alma, não me importando agora o sofrimento que ele mesmo pudesse ter. "Para nós você ainda é nosso herói", disse ela, "não fosse sua insistência em um diagnóstico de câncer, ele não estaria vivo agora".

Herói. Será que todos os heróis são estes covardes e inconseqüentes que eu fui? Será que tudo nos livros de história resume-se em coincidência e hipocrisia? Não quero que o elogia reacenda a chama da vaidade que estou e esforçando para apagar, nem quero nem imaginar o que teria acontecido caso a minha hipótese diagnóstica tivesse sido menos "espetaculosa" e, conseqüentemente, interessante.

Mas o que importa é que eu agora era um herói. Me lembrei do filme homônimo, cuja cena final muito me impressionou: o herói sendo alvejado por milhares de flechas, ele que poderia ter cumprido seu papel e saido ileso, preferiu ser morto, pois esta era a função do Estado que ele decidiu preservar com todas as injustiças inerentes, qualquer outra opção, pensou ele, seria pior, como narrou a voz de fundo: “morto como traidor, enterrado como herói”

Me sentiu igual, posso preferir o orgulho de ser herói, mas prefiro me concentrar nas setas que me apontam à realidade: falhei e falhei feio. Posso me enganar quanto a diagnósticos, posso errar quanto a fisiopatologia, mas jamais deveria ver outra coisa que não a luz que chega a meus olhos, jamais deveria deixar que interpretações modifiquem percepções, fatos deveriam ter mais peso que explicações. Que as flechas matem este louco.

Afinal que vaidade me levaria a importar-me com tão insignificante heroísmo, um paciente, dentre tantos naquele hospital, uma vida dentre tantas que lá já morreram, um hospital dentre tantos nesta cidade. Não quero ser herói, quero ser profissional. Salvar vidas não é mérito, é obrigação. Não quero nenhum agradecimento, nada que infle meu orgulho e rege a semente da soberba, eu quero é ser competente, salvar vidas com uma mão, sem que a outra saiba, e muito menos se orgulhe.

Vícios privados, virtudes públicas

O que afinal eu estava fazendo lá?

Esta é uma pergunta que sempre mereceu de minha parte respostas evasivas, mas afinal, o que me atrai ao feio,sujo, pobre e fedorento? Claro que eu poderia vir com um papo de Madre Tereza de Calcutá e dizer que estou lá apenas para ajudar e aliviar o sofrimento do mundo, mas esta conversa não convenceria nem a mim... Ou talvez eu esconda de mim mesmo uma causa secreta machadiana, um prazer sádico de ver e conhecer o sofrimento, talvez...

Isto me ocorreu em mais uma Visita Domiciliar, algo tão de rotina como simplesmente não poder fazer nada, tínhamos ido lá só para constar e para cumprir um papel burocrático e lá encontramos uma mãe pobre que ama os filhos como eles são, um irmão carinhoso como eu nunca tinha visto antes e uma família que eu não gostaria de marcá-la por simples detalhe, mas por todo um contexto e pela força de uma mulher que aguenta a vida de teimosa suportando com paciência o que não pode mudar, e com o amor a sobrecarga daqueles que só podem contar com ela.

Eu teria muito o que aprender com ela, talvez a VD tenha sido curta demais ou eu não tivesse a humildade de deixar que ela me ensinasse, mas algo me fez pensar muito naquela criança, o irmão mais novo. Sei que não é um fenômeno assim tão raro, e que está envolto em teorias que a esta altura do campeonato eu deveria conhecer de cór, mas o próprio desconhecimento de suas causas foi o que me fez pensar nas minhas.

O pequeno detalhe que me me originou as comparações foi o garoto mais novo insistir em automutilar-se, beliscava de forma repetida o ombro oposto e a coxa do mesmo lado, que já possuíam a pele calejada e diferenciada embora a mãe amarrasse um pano em seu punho para evitar este comportamento. Mas o que levava este menino a isto? Uma resposta, talvez nem tão possível e nem tão provável cujo valor pode estar restrito a este texto apenas, seja a presença da dor em si.

Eis que talvez se não for sádico, me concedo a desculpa de ser masoquista. Eis que a vida é um aprendizado, afirmação que vista de um enfoque mais prático do que filosófico nos leva a pensar na maneira como inseridos em um mundo que em muito independe de nossa vontade precisamos, a fim de justificarmos a nós mesmo a nossa presença e a necessidade de interagir com ele, sentí-lo, cada vez mais e cada vez mais intensamente.

Todo sofrimento deste mundo seria, como querem os budistas (eu não seria tão radical), criação do próprio sofredor, seja a partir de interpretações peculiares de fatos específicos da vida, seja através da busca por emoções cada vez mais intensas, entre elas, a dor. Teoria, exceções a parte, que não parece tão estranha a ninguém, ou não teria durado tanto tempo. Mas o que nos leva, então, a gerar todo este sofrimento?

Por mais contraditório que pareça, é a necessidade de me sentir vivo, seria o que me faz ir em busca do sofrimento, são as emoções que dão um sentido a nossa vida e, acreditem, a dor, por pior que seja, é muito melhor que o vazio. Em mim, talvez, uma incapacidade intrínseca à empatia, uma profunda anestesia emocional me fez aumentar, como um viciado, cada vez mais a minha dose, cada vez mais a minha necessidade de ver e sentir a dor.

Como um viciado. Quem afinal não tem vícios? E o que, afinal, melhor para a estética do nosso eternamente improvisado roteiro que expomos dos nossos personagens do que transformar estes vícios privados em virtudes públicas?

Sábado, Abril 05, 2008

Violino na parede

Tudo que sabia até então era da glicemia de jejum bem elevada e uma leve obesidade abdominal, ao exame físico sem outros sinais que valessem maiores preocupações, o professor, então, me deu aquele paciente com instruções claras: iniciar o tratamento com metformina e uma sulfoniluréia. E claro, a parte mais importante do meu treinamento e do seu tratamento, prover-lhe educação sobre hábitos e dieta.

Se por um lado, em agitados plantões na madrugada, desejamos que as coisas fossem mais simples e mais óbvias, as surpresas e caminhos inesperados que se descortinam de uma simples pergunta nos lembram de nossa função e nos estimulam a ficar atentos a cada desvio de olhar, cada tremida de lábio, cada pausa na fala. Gestos que revelam, justo por tentar esconder, segredos íntimos e transformam a entrevista em uma seqüência de passo potencialmente perigosos, perigosos porém belos.

E foi justo aí, quando questionei sobre hábitos alimentares, que ele revelou o que tinha conseguido esconder na anamnese. Não sei o que foi, mas certamente não foi a resposta padrão "só socialmente", que me fez fazer a pergunta que mudou radicalmente o seu tratamento: "Isto te incomoda?"

Claro que incomodava. Mas claro também que não era só isto. Como em uma pescaria onde ao morderem nosso anzol, ao invés de puxarmos o peixe para fora somos sugados para dentro de um oceano que nos revela cardumes e recifes, nossa conversa demorou bem mais do que eu havia planejado.

A vida, segundo ele, não nos merece para vivê-la, nos devora sem nos dar a oportunidade de a decifrarmos. Concordamos com o médico alemão que apontou a civilização como fonte de um imenso mal-estar e aqueles que nos moldam para viver nela como símbolo máximo de uma tensão que tornará por toda a nossa vida a forma como vemos uma coisa indissociável da forma como vemos a outra.

Se a beleza dos passos está em descobrir os segredos, o perigo está em não poder omitir-se uma vez descobertos. Ou, o que talvez seja pior, identificar-se com eles, a tal da contra-transferência. Ocorre que processos semelhantes se repetem na vida de todos, médicos ou pacientes, e a transmissão verbal de experiências reflete em nossa escuta, ao nos esforcamos para interpretar como a forma como transmitimos as nossa, e, conseqüentemente como a sentimos.

Outro alemão, muito antes qpue o tal médico, sugeriu que aquilo que chamamos de "vida" quando a contamos aos outros, e que ele chamou de "mundo", seria a interpretação racionalizada das experiências de nossos sentidos bastante influenciada por uma estranha sensação de necessidade que nunca é suprida, pois ela é parte inerente do "ser" humano e constantemente mal-interpretada como a necessidade "de alguma coisa", necessidade que mesmo que satisfeita com a tal "coisa" não deixa de existir, simplesmente porque não corresponde à interpretação feita. Eis a candidata n. 1 ao posto de motor fundamental do mal-estar. O mundo, então, segundo ele, não passaria de "vontade e representação".

O processo de representação e a sua racionalização simbólica é, então, a nossa ferramenta essencial de relação com o mundo e a origem psicológica a interpretação de nossas emoções e vontades. Daí a importância fundamental dos símbolos em nossa vida e a necessidade do médico, preocupado com o paciente como um todo, de lidar com eles.

Foi para lidar com este universo simbólico, e para manter a mente ocupada que sugerimos a arte. E desta sugestão que veio a descoberta que em sua parede havia um violino, lá colocado em resposta a conflitos cuja capacidade de superar, ou mesmo compreender, ia além de todas as forcas do paciente e não surpreende que este assunto tenha vindo a tona na conversa sobre diabetes e álcool, modificando radicalmente a forma como víamos a doença e, conseqüentemente, como iríamos guiar o seu tratamento, inclusive farmacológico.

Eu também tenho vários violinos em minha parede, pregados durante o meu processo de adaptação à vida em comunidade, alguns colocados a partir de experiências com as pessoas que me guiaram nesta adaptação. Hoje percebo que alguns devo jogar fora, outros sou obrigado a pegar e ensaiar algumas notas, talvez a maioria eu jamais consiga retirá-los. Embora saiba que parede não é lugar para se guardar violino, eu hoje já evito buscar culpados, pois percebi que a responsabilidade e as conseqüências são minhas e intransferíveis.

Sid

Segunda-feira, Março 10, 2008

Difícil

O professor me mandou ir chamar a próxima paciente, foi quando a vi pela primeira vez. Os olhos angustiados sobre mim me chamaram a atenção, o que me fez pensar que seria ela a próxima paciente. Tinha o nome nas mãos e perguntei a ela, não, não era ela, mas aproveitou para reclamar do atraso. Tentei confortá-la dizendo que não nos limitávamos ao tempo que o gestor disponibilizava para nós, íamos além, mesmo que perdendo dinheiro, era o nosso dever. Por isto alguns pacientes eram atendidos com atraso. A voz doce respondeu que não havia problemas, pois estava muito doente. Deste breve contato não pude jamais supor o desfeixo que teria poucos minutos depois.
Finalmente, chegou a vez dela.
Entrou nervosa no consultório e foi logo expondo a hipótese diagnóstica, mesmo antes da queixa principal. Percebi pela atitude raramente cordial do professor que ele estava farejando problemas. Tentávamos fazer a anamnese da paciente, mas ela queria ir logo aos finalmentes: a doença dela era tão grave que não poderia esperar nem mais um segundo, seja ela qual fosse. Afinal ela tinha lido tudo sobre os sintomas na internet e agora queria uma dosagem de todos os hormônios. TODOS? Perguntou o professor. Sim, todos. Foi o que ela leu na internet.
Olha, tentamos explicar, vamos antes excluir as causas mais simples? Deixa eu fazer um exame físico, colher a sua história e avaliar se precisamos algo mais simples. Mas ela queria que jurássemos que iriamos pedir TODOS os hormônios, não importa o quanto isto onerasse desnecessariamente o sistema. Desconversamos e conseguimos fazer alguma coisa, não sem antes perceber o seu sintoma mais marcante: estresse e ansiedade.
Algumas respostas eram evasivas, outras marcadas pelo uso de termos desnecessariamente técnicos, se queria nos impressionar, conseguiu fazer que duvidássemos do que dizia. O exame não revelou grandes coisas, a anamnese era pobre e ficou claro que precisávamos excluir outras causas. No final da consulta pedimos um Rx simples, uma US e um hemograma. O que se viu depois foi uma rápida explosão de nervosismo, angústia e raiva. Afinal ela sabia o que tinha e o que precisava, nós não. Tínhamos perdido um precioso tempo de nossa vida estudando e o professor, há muito sem paciência, sugeriu que a internet a tratasse, já que não confiava em sua experiência. Disse que iria arrumar um médico "decente", mas antes disso iria à ouvidoria do hospital.
Ela saiu, eu ainda pensei se não devíamos ter feito o jogo dela. Talvez não tivéssemos perdido a paciente, talvez tivéssemos criado um vínculo que depois poderíamos ter evoluído para a medicina verdadeira antes de nos perdermos em elocubrações internéticas, afinal, no caso de um tumor secretante todo aquele nervosismo, aquela raiva, poderiam se sintomas importantes. O professor respondeu que talvez, mas também todos aqueles sintomas poderiam ser causados pelo estresse. Paradigma do qual acho que jamais sairemos. Certamente seria melhor nos concentrarmos naqueles que queriam ser tratados, ou que aceitassem o nosso tratamento, ou, no mínimo que quisessem negociar.
O médico muitas vezes é exposto ao paciente que quer um determinado tratamento, uma determinada droga ou exame. Cirurgia bariátrica: quantas vezes na primeira consulta o paciente não chega logo pedindo a cirurgia, como se isto fosse resolver alguma coisa em sua vida. Às vezes pedem drogas tóxicas como a prednisona, inibidores de apetite ou mesmo psicotrópicos. Pior ainda quando saem dizendo à comunidade que você é um péssimo médico que nào aprendeu que estas drogas existem como os seus colegas. É difícil manter um mínimo de ética em um ambiente assim.
Logo depois de nossa paciente sair o professor foi chamado à direção, pediu que eu atendesse sozinho o próximo paciente. Entrou um homem de meia idade e dizendo que estava muito bem e que havia apenas uma suspeita de diabetes. Pedi para ver os exames: Hbglicada, 17%, Glicose, 564mg/dl, todos os outros exames compatíveis, inclusive uma hemoconcentração gigante. Na anamnese toda pergunta era respondida com um sonoro "não" e o nervosismo era intenso mas ele negava até o fim qualquer problema. Algumas coisas eram absurdas, como negar o emagrecimento súbito quando eu via marcas de estrias em seu braço e, quando confrontado com o fato disse que era "de nascença". Poderia acreditar na clínica, sempre soberana ao exame, mas o nervosismo e a insistente negação me incomodava. Havia algo nitidamente errado e eu não conseguia descobrir o que.
Insistiu que não queria nenhuma medicação, não prestou atenção ao aconselhamento de dieta e exercícios, nitidamente deixou claro que queria apenas fugir de lá o mais rápido possível e foi o que fez quando o professor voltou, bastante estressado, e sugeriu que apenas fosse repetido o exame. Ele foi e eu me senti sozinho no consultório. O paciente tem o direito de ser tratado ou não, não tem o direito de onerar desnecessáriamente o sistema como queria a nossa amiga, mas tem o direito de acreditar ou não no que dizemos. Mas é duro para nós não conseguirmos conquistar o paciente, fazer com que ele entenda que é para o seu bem, afinal, estudamos tanto e um dia acreditamos que isto bastaria para sermos idolatrados como deuses. Não basta, e precisamos nos acostumar com isto.
Ouvi dizer que São Pedro, o São Paulo, sei lá, o tal fundador da Igreja Católica, teria ido fundá-la na Grécia, então capital do conhecimento. Lá resolveu explicar aos gregos a doutrina pregada por Jesus. E começou a discursar apontando os aspectos racionais da doutrina e homem inteligente que era conseguia rebater críticas e, por fim, conseguiu com base em argumentos racionais convencer um grande número de gregos sobre a verdade da doutrina que apresentava. O resultado prático disto, no entanto foi quase nulo: acostumados com um grande número de Deuses, Jesus era apenas mais um, um bem interessante, admitiam, mas apenas mais um.
Paulo percebeu isto e, reza a lenda, e foi para Roma. Iluminado, iria agora conquistar o mundo: não pela mente, mas pelo coração. Os homens, ele tinha percebido, raramente fazem o que é lógico ou racional, em geral seguem seu coração e não o seu cérebro. Mil e novecentos anos depois Freud concorda e leva quase mais cem anos para Damasio estruturar uma elegante teoria neurocientífica para "provar".
Faz sentido. Mas tudo que eu disse até agora pode não ser verdade.
A função deste blog era então me desculpar, me auto-elogiar ou me expor e ser sincero?
Pensando bem, pela mente ou pelo coração eu tenha errado.
A primeira paciente, o estresse sendo sintoma ou sendo causa, mereceria uma atenção maior? Mereceria "entrar no jogo" dela para garantir sua colaboração? Talvez merecesse mais escuta, mais carinho, mais atenção do que os poucos minutos que reservamos. Talvez mais explicação sobre o que é a internet e menos orgulho ferido por ser substituído por um computador amorfo. Se uma vírgula ou uma palavra a menos fizesse diferença. Eu queria que ela tivesse ficado.
Ele também. Fui grosso. Estava estressado. (Não é desculpa) Assustei-o. Às vezes vemos nossos mestres agindo e atribuímos certas vitórias a certos comportamentos, mas talvez elas devessem ser atribuídas a outros. Até ser grosso, até assustar, é uma arte que não é fácil aprender e não está em livro nenhum, e é perigosa demais para se aprender por observação.
Melhor nunca mais tentar.
Errei.
Errei feio.
Logo na arte que me julgava bom.
Justo quando nos achamos bons demais, justo quando pensamos que sabemos, vem o real e nos dá uma bela lição de humildade.
Agradeço ao mundo por ser tão desafiante.

Sábado, Março 08, 2008

A causa secreta

Estávamos em visita domiciliar, a mãe, bem idosa, na cama o coração de tão fraco debatia-se agonizante para manter o pouco de útil que ainda lhe corria pelas veias ativo, e como que murmurando em desesperada agonia o sopro hipercinético conseguia ser mais audível do que as vagas reclamações, coisa da idade segundo Dr. Fortunato que a escutava com um gentil sorriso. Sim era ele mesmo, só que agora era médico, o enfermeiro de Machado de Assis reencarnado 147 anos depois, isto foi a um ano. Causas secretas nos levam a atitudes surpreendentes, causas estas que se expostas revelariam a lógica por trás da contradição e o absurdo.
Não havia dúvida que era ele, Dr. Fortunato, quem mais aguentaria tanta tristeza de modo de forma tão inabalável, não bastava o que era dito espontaneamente, ele ainda tinha que perguntar e insistir. Mas um problema lhe chamou a atenção: havia algo de errado com o filho da tal senhora, irmão da dona da casa. É claro que ele tinha que saber, precisava, agora mais que tudo, saber. Para tanto usou o argumento indiscutível: "Sou seu médico, eu TENHO que saber". E conseguiu o que queria. Eu não soube deste segredo, mas sei que este é apenas um dos muitos segredos que jamais saberei dos meus pacientes, agora o que saber deste segredo mudou na conduta médica do Dr. Fortunato é algo que eu também jamais saberei.
Esta história vai e volta em minha mente, e a cada sofrimento que vejo um paciente desnecessariamente submetido me vêem o enfermeiro de Machado de Assis e seu clone mais moderno. Algumas vezes a coisa não é tão óbvia, outras é mesmo discutível. O velho benzetacil na profilaxia da febre reumática, a discussão dos psicanalistas que falta aos médicos remoer as entranhas do sofrimento de seus pacientes, meramente questões profissionais, nada mais que isto. Talvez eles tenham razão só se aprende a andar andando e só se aprende a sofrer ressofrendo várias vezes.
Mas às vezes nem tudo é tão óbvio.
Entramos no quarto da paciente com uma missão explícita: fazer uma anamnese e voltar com um diagnóstico. Quer era infecto-parasitária era óbvio, afinal no alto da porta de entrada havia a sigla "DIP". E a pergunta clássica teve uma resposta trivial: "dor de cabeça", enquanto todos anotavam a resposta, poucos perceberam a ameaça da acompanhante: "Fale a verdade, não adianta mentir, depois eles vão ver em seu prontuário."
Porque a paciente mentiria? Talvez pelo mesmo motivo que desviava o olhar e buscava uma fuga, de sua acompanhante-irmã e dos desagradáveis internos. Um olhar atento à irmã poderia já dar bastante ajuda: o olhar de reprovação, a camisa da igreja evangélica, as ações de pena explícitas. E quanto mais vinham perguntas, mais a paciente se escondia, mais a irmã dava respostas evasivas até que veio o auge da tortura explícita: "a quanto tempo ela vem apresentando este comportamento?".
A irmã não conseguiu segurar mais o choro, apenas repetia: "Ela era tão forte... Porque ELA teve que agir assim?", eu também não consegui mais segurar a cena, em voz bem alta para que todos escutassem, pedi licença e fui. Quando eu saía, ainda escutei uma voz: "mas nós ainda não descobrimos a doença", "CID B23", respondi.
Muitas vezes não é culpa nossa, algumas é sim, realmente necessário. Mas será que para o paciente faz alguma diferença? Tortura é tortura seja qual for a face que damos a ela, seja qual for seus fins. E é claro que nenhuma tortura seria pior para a evangélica do que ter uma irmã que carrega em seu sangue a cólera divina aos males da modernidade e também não há tortura pior para tal pecadora ser lembrada o tempo todo que tudo que lhe acontece agora é uma punição por seu comportamento promíscuo.
De que adianta teorias científicas uma hora destas?

Domingo, Março 02, 2008

Assim a tranquilidade alimenta a minha escuridão

Lenore, não enfrente teus monstros sob pena de tornar-se um deles: aquele que contempla o abismo, pelo abismo é contemplado.
Sempre soube que não deixaria o filósofo romântico tão cedo, especialmente agora que todo este romantismo me enoja.
Os médicos estão irritantemente se polarizando entre os poderosos heróis, pedantes e arrogantes, mal sabem o triste fim que lhes aguarda enquanto os plantões, e às vezes as drogas da simples cafeína à irresistível dolantina, lhes drena o pouco que sobra de vida e humanidade, e os românticos derrotados, depressivos e solitários que foram atropelados pelo mundo antes mesmo de juntarem as forças necessárias para salvá-lo. 20mg de fluoxetina não vai te tirar desta. Você ainda não viu nada.
O sofrimento te consome e te obriga a escolher um caminho: ou se anestesia ou se destrói. A morte será sua companheira, a dor uma amiga inseparável, daquelas que adora detestar. O mal-estar da civilização a partir de agora é culpa sua, você foi incapaz de curá-la porque não estudou o suficiente. A resposta, o diagnóstico, o tratamento: tudo isto está depois daquela esquina, mas você é o imbecil, burro e incompetente que não conseguiu chegar lá.
Burnout: Será queimado vivo.
Escreva. Mantenha a sua sanidade. Você não criou o mundo, não pode salvá-lo. Síndromes, doenças, patologias só existem em livros e fora deles há o mundo cuja alegria e beleza é sua escolha ver, ou não. A morte não é culpa sua e o mundo depois de você será igual ao que era antes, mas o que acontece no meio é que é escolha sua.
Escute: cada paciente é uma vida, cada vida uma enorme oportunidade de aprender. Toque: sinta o humano, assuma o controle. Cure: ninguém disse que estudar não era importante, mas a cura é muito mais que conhecer, é saber, é crer, é viver. Sorria: muitas vezes só isto basta. Não espere o que não vem, não deseje o que não tem. Lute: mas não espere vencer e não se cansará nunca.
Escreva, não contemple o sofrimento, escrevendo você aprende, apreende, torna-o seu para o que você quiser. Refaz, revive, reconstrói a realidade, constrói a sua realidade, uma que corresponda ao seu anseio. Escreva, escreva muito e, um dia, esta realidade será a única que conhecerá.

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

Personagens

Eu ali não era eu, era um personagem. Contava a minha vida de personagem, de reunião do grupo de teatro, virou aula de teatro. Ridículo, simplesmente ridículo. Não passava pela cabeça dele que eu tivesse mais o que fazer do que ficar escutando um monte de pré-adolecentes em uma brincadeira imbecil? Mas a explicação dele chocou-me pela lógica e ficou a lição, do que disse e de que eu não sou sempre o único que "vê além" e que a minha existência como pessoa - e como aluno como outro qualquer - é parte de minha função na sociedade e, principalmente, nesta comunidade.
Somos todos personages: este que acabamos de inventar, aqueles que achamos que somos ou aqueles que os outros acham. Somos teatros, atores que encenam no palco do teatro cartesiano de cada um. Fácil de entender e fácil de aceitar, o difícil é lembrar disto sempre e agir de acordo. Mas não há como fugir.
A médica antes tinha reclamado: eles pensam que somos ricos. Não pensam, somos. Chorar miséria não criará um novo personagem, apenas tornará o antigo mais ridículo. E não importa de onde você veio, a cena da primeira reunião do grupo de teatro e a cena da médica dizendo que também vinha de uma comunidade carente misturaram-se em minha mente ao ver a primeira peça montada. Talvez não fosse a intenção de ninguém, mas eu me vi na peça. Claro que era eu, éramos nós, a diretora que queria doutrinar os alunos favelados, assim como ela na peça, nós também vínhamos nos aproveitar da miséria alheia para ganhar dinheiro do Estado com o sofrimento deles, e doutriná-los.
A quem queremos enganar? Sentimos orgulho de tornarmos santos e a raiva frente a ignomínia, tudo isto torna hipócrita qualquer tentativa de aproximação por igual. Isto não é possível e talvez só sirva para o nosso ego. Não somos superiores, mas ganhamos mais. Se o valor de um homem é medido pelo seu contra-cheque, é porque não foi-lhe mostrado outro valor e contra o fato por demais óbvio argumentos são inúteis. Aceite isto e cale-se.
Simplesmente não dá. O nosso personagem em nós mesmo também é julgado esteticamente como em qualquer peça, só talvez sejamos aqui mais cruéis. Aqui a estética traveste-se de ética e condena à uma vida de ódio e sofrimento aqueles que representam aos outros personagens que não condizentes com o mundo que construímos e nos satisfazemos em ter domínio sobre ele. Saber que somos sempre um personagem e que os padrões estéticos não foram criados por nós e, portanto, não precisamos aceitá-los cegamente ajuda a enfrentar a vida que independe de nossa vontade e compreender que nosso "imenso" salário não é para tentar impor uma forma de sermos visto, nem qualquer padrão seja ético ou estético, mas para cumprirmos o nosso dever como profissionais técnicos. Não estou lá para que o meu personagem tenha um roteiro bonito, mas para que os outros personagens tenham vida e saúde por toda a peça.
Bonito ou feio, rico ou pobre, eu quero ser um bom médico.

Domingo, Janeiro 13, 2008

O Grande Deus Asklepius Morreu

Peça aos médicos que lhe apresentem indicadores e eles levantarão o segundo quirodactilo, quem poderia supor o absurdo, que os médicos já não sabem nem mais o que fazem. Talvez Foucault diria que a maioria nunca soube, mas tudo bem, antes de eles se aperceberem como sustentação filosófica do Estado, quando os indicadores não faziam mais diferença que o quinto quirodactilo, já não serão mais: os indicadores que sustentam a nova religião.
A ignorância do exército estadunidense ao adotar o caduceu, símbolo de Hermes, deus do comércio, como insígnia de seu quadro médico talvez escondesse uma sinistra profecia: Asklepius perderia seu posto para o mensageiro. Como a águia da parábola de Esopo triste será o fim da medicina, que dá aos inimigos a própria arma com a qual é abatida.
Ao agir como mecanismo de controle social, a medicina precisou se universalizar, atingir a todos, evoluir de "humanitária" para obrigação do Estado e passou a ser exigida pelos controlados: de que vale um Deus se é só para os ricos? A massa precisava do Tanatos para ser controlada e Deus morto, Deus posto: a medicina que surge como nova fonte geradora de medos e pecados, a nova moral, a nova redenção, para ser Eros precisava de uma base que a sustentasse. A base que a sustenta, como o símbolo chinês Tai-Chi é a própria estrutura capitalista e como a cobra engole o próprio rabo a medicina precisou ser eficiente para ser universal.
Nem universal nem eficiente o ciclo quebrou, na melhor visão capitalista, o sistema faliu. Novos conceitos, novos valores, novos controles este agora, bem mais sutil mas avança com avançou a medicina: desmoralizando o antigo regime. Desumaniza a medicina e reclama da desumanização, mercantiliza a ciência, ridiculariza a arte, caricaturiza os médicos: sentem-se os semi-deuses, soberbos e vaidosos, bom tinham motivos para isto antigamente...
Tudo que é novo conspira a favor deste Deus sedento: não podemos fugir a ética e estética da "evolução", ou somos homens de nosso tempo ou simplesmente não somos. É preciso humanizar a medicina, dar humildade aos médicos, fazê-los escutar e usar o próprio paciente no processo de cura. O discurso do professor barbudo e de sandalhas é o mesmo do administrador engravatado: Só assim a medicina ficaria eficiente. A diferença é só a camisa de Che Guevara. Eficiente é o grito dos que acordarão do sonho romântico de revolução mas é também o mantra dos novos sacerdotes.
E nós médicos ainda sofreremos muito para perceber que já não somos tão especiais. A nós só nos resta o mal-do-século, como os românticos a dor de ser incompreendido, a depressão e a angústia, tínhamos a resposta para o mundo, acreditamos que salvaríamos, poderíamos, se deixassem. Por que ninguém nos ouve? Por que sou tão sozinho? Por que estão todos contra mim? Vivíamos em um planeta em que éramos ricos e respeitados? Mudamos de planeta e o poder nos enebriou tanto que nem percebemos...
Não choro a morte de nenhum Deus, mas de Foucault.

Sábado, Janeiro 20, 2007

Nem toda nudez será castigada

Um sujeitinho irritante. Esta é a melhor definição que eu poderia dar para ele. Chato, desagradável e arrogante. Do tipo que você imagina sendo criado pela avó e duas tias solteiras: jogando bolinha de gude no carpete e soltando pipa no ventilador. Mas me ensinou muito, devo admitir: uma ou outra manobra, cliques e estalidos e muita coisa sobre relação médico-paciente, esta última sempre pelo exemplo do que não fazer.

Especialmente na enfermaria feminina, um sujeito ridículo, expondo desnecessariamente o corpo daquelas senhoras e eu cobrindo por trás. Já nem sentiam mais vergonha, afinal somos médicos (assim elas pensam), mas eu ainda sinto. A nós o poder do jaleco branco e o estetoscópio nos confere a superioridade que esmaga a empatia, a elas desaparece o direito de ser sequer uma parte do que já foram, agora transformadas em meras pacientes-objeto.

E nós entramos como caçadores, exorcistas de um ser mais físico que qualquer um de nós: a doença. Sua eternidade – na nossa cultura médica – compensa de longe a falta de um corpo palpável, pois, afinal, possui um endereço: dona fulana, leito tal. Ah, sim! Humanizou-se a medicina e os hospitais! Chamamos agora pelo nome, de acordo com a boa prática da medicina: “Como é mesmo o nome da senhora? Ah, sei... Uhum...” E no fim das contas, são meras portadoras das doenças, sempre as mesmas... Foi para isto que você estudou tanto? Olha que eu nem me lembro de ter estudado tanto assim... E se afunde em vícios: médico, cura-te a ti mesmo!

Vejo estas senhoras me lembram um pasto ou me lembrariam o selvagem cão de guerra Jet Li? Me lembram meu cachorro. Eu não sei o que o meu cão pensa nem o que um boi pensa. Também não sei o que elas pensam, mas nós nos iludimos em saber. No filme Jet Li é criado como um cão, ninguém pode dizer que isto nunca aconteceu ou quais seriam os sentimentos dele, fingimos, simplesmente, que os animais não têm sentimentos e nós, seres humanos, temos, portanto não merecemos ser tratados assim. Haja dissonância cognitiva para sobreviver (e tentar ter um mínimo de empatia) a um Hospital!

Imagine enfurnado em uma cama, preso em uma jaula de fios e tubos, acorrentado a um soro e torturado por seres de jaleco. Você está preso por você mesmo, você não pode fugir porque não pode admitir: é loucura. É loucura mesmo. Você não quer ser louco, quer?

Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

Não morrerás

Subíamos a escada após um breve lanche na madrugada, o hospital em relativo silêncio nos permitia escutar nosso cansaço quando a paz relativa do saguão vazia foi interrompida por ele: “toda vez que passo por esta porta, eu desejo que ele morra.” Concordei em um gesto automático, eu sabia de quem ele estava falando.

A vida no hospital nos leva a emoções difíceis de relatar, algumas tão fortes que somos propositalmente esquecemos outras que levamos tempo demais para compreender o seu significado. A que me tomou conta naquele momento foi uma destas. Quem passasse no momento, talvez pensasse que estávamos falando de um estuprador, um assassino ou, quem sabe, até de nosso chefe ou um professor carrasco. Não, nada disto: era de um pai de família que, até onde sabíamos, era tão merecedor de viver quanto qualquer um de nós, uma pessoa boa e querida por seus familiares.

Uma doença pré-existente e um acidente automobilístico o deixaram imóvel, em Estado Vegetativo Persistente (EVP), respostas pífias ao eletroencefalograma porém com reflexos básicos preservados. A face da morte ainda viva.

Talvez alguns estejam esperando mais uma condenação sobre a crueldade médica, talvez estejam pensando que queríamos que ele morresse por preguiça, para puní-lo por ocupar um leito. Em defesa eu posso dizer que o leito não ficaria vazio e se quiséssemos paz e descanso, nada melhor do que um doente em EVP que não perturba, não enche o saco e nem é necessária nova anamnese ou exame – basta mantê-lo com a medicação já prescrita, não dá trabalho nenhum. Se ele morresse em nosso plantão teríamos sim, muitíssimo trabalho extra.

O que pouca gente entende é que somos jogados quase crus às formas mais explícitas de sofrimento humano e, em situações como esta, somos confrontados com a finitude de nossa própria vida. Ficar ao leito de um moribundo é sentir sua essência vital escapando aos poucos, não sei como descrever. Somos humanos e estamos lá, racionalizando a vida como uma máquina ou um tubo de ensaio, como se nossos sentimentos não existissem. De tanto fingir – dizem – eles somem mesmo.

Talvez fosse mais bonito se ele dissesse que queria um milagre, que o doente acordasse do EVP como que tocado por Deus, “levante e ande”. Mas a experiência nos lembra constantemente o quão pouco provável isto é. É melhor que ele morra, saia de nossas vistas e possamos ainda trabalhar na esperança.

Mas sentimentos, esperança, não servem só para atrapalhar o raciocínio?

Mas o raciocínio também incomoda. Pensar e ver esta situação nos mostra que mais do que mortais, somos também incompetentes frente às forças da natureza, nos retira assim o poder que fingimos ter, nós médicos. O que estamos fazendo ali, a não ser atrapalhando que a vida siga o seu curso? Somos como sacerdotes frustrados (e frustrantes) de uma nova moral, onde não só matar é pecado, como morrer também é.

Sid

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Faça amor, não faça merda


Não tive coragem.
Medroso assumido.
Gostaria de ser um herói, quem sabe eu ainda tento.
Pelo menos eu divulgo, pode não parecer nada, mas...
http://www.malvados .com.br/normalpr oject/

Sábado, Dezembro 02, 2006

Seis dedos

Sentada na mesa, a espera da cesariana, ela dava sua última entrevista como gestante, à pergunta sobre o nome do pai, a resposta em si já valeria a pena pensar e escrever, “assim de cabeça, eu não lembro não”. Isto nos coloca de frente a nossos preconceitos, como evitar julgamentos morais se fomos criados na mesma cultura que ela e ouvimos a vida toda, assim como ela, que as mulheres deveriam ser castas e as mães santas. E as crianças criadas sob a influência de um pai e de uma mãe.

Neste caso o que nos incomoda é o choque entre o que aprendemos, que o sofrimento humano é causado, na maioria das vezes, pela interpretação que damos dos fatos, e não pelos fatos em si. É pertubador, portanto, a nós juízes morais, a simples falta de sentimento ao anunciar isto, a pobre coitada, não dá a mesma importância que nós. Ignora os nossos valores, isto é imperdoável.
Mas isto, diria ela, é problema nosso.

E os nossos valores indicam que o nascimento tem que ser com hora marcada, anestesia e bisturi, sem gritos, sem choro, sem vida. A cesariana nunca foi a coisa mais emocionante do mundo, o ambiente asséptico, o silêncio da mãe, o automatismo do cirurgião, o sono do anestesista e a criança saindo, meio que com vontade de ficar, pelo lugar errado. E pensar que é assim, sujo e assustado que se começa uma vida, os braços desconjuntados crescerão e tentarão atingir o inalcançável, o coração que se debate desesperado ainda se espancará por emoções que ainda nem foram sonhadas e os olhos arregalados ainda chorarão muito mais. E que tudo isto, um dia, parará. Alegria e sofrimento, emoções a que aquela semente está condenada.

Curioso acadêmico, fiquei observando o bebê, segurado pela neonatologista que o examinava. Um susto me chamou a atenção, tão absurdo que tive que olhar para a minha própria mão: polidactia. Nas quatro extremidades ele tinha seis dedos perfeitos. Perguntei consternado à médica que respondeu gritando, entusiasmada, talvez pela oportunidade de eu ver algo tão raro em uma das minhas primeiras oportunidades de assistir uma cesária, talvez por quebrar a monotonia do plantão, sabe-se lá os motivos que levam a comportamentos absurdos...

Mas a felicidade dela não me contagiou. Talvez a tarde inteira assistindo a pacientes crônicos tenha me deixado soturno, talvez não só isto, mas imaginei aquela vida, começando em uma idade tão próxima a de sua mãe, com todas as dificuldades de se nascer em um hospital público em meio a miséria de um país virtual e uma comunidade perdida. E ainda por cima com seis dedos.

Sid

Domingo, Novembro 26, 2006

No Ceará não tem disto não.

Acho que nunca vai sair da minha memória, pelo menos assim espero, a imagem dela cantando Luiz Gonsaga. “Este tal de câncer...”, disse ela, “... vou me embora para a minha terra... lá não tem disto não...”

Na faculdade nos ensinam que os pacientes criam uma relação de dependência que às vezes torna difícil livrarmo-nos deles, o tal “desmame”. Não tenho visto isto. É duro admitir que é bem mais difícil para mim, vou sentir falta dela, de nossas conversas, do choro que nunca vi.

O choro que nunca vi. Um dia sua filha veio me dizer que estava preocupada com a depressão dela. Depressão? Sua mãe acabou de descobrir que tem câncer e você queria que ela estivesse sorrindo e cantando? Nunca vi uma mulher tão forte.

Foi pensando nisto que fui me despedir dela, como sempre agradeci com um sorriso o fato dela ter me ensinado a ouvir os tais dos “estertores crepitantes”, minha primeira paciente de pneumo. Ele estava linda, toda maquiada exibindo a foto do último neto à toda enfermaria, falava sem parar e repetia com orgulho a notícia da alta.

Consegui, com dificuldade, um segundo de exclusividade em sua atenção para perguntar o que ela iria fazer depois da alta. A resposta não poderia ser mais óbvia: “Vou voltar para a minha terra”. Mas como? E o resto do tratamento?

“Meu filho, a primeira coisa que aprendi nesta vida é que vou morrer. Vocês médicos querem nos enganar, fingindo que vamos viver para sempre... Ah! Mas a mim vocês não enrolam não! Eu vou é voltar para o meu Ceará! Vou morrer lá! Já fiz o que tinha que fazer, já criei minhas filhas e já vi os meus netos, já não sirvo mais para nada, só para morrer mesmo.”

Eu fiquei pasmo. Não esperava esta resposta. Cadê o medo da morte? Como alguém consegue dizer que “não serve mais para nada” com um sorriso no rosto? Tenho ainda muito que aprender por aqui, quando ela completou: “esta vida não tem significado nenhum, a não ser o que a gente dá para ela. Tudo acaba, tudo não é nada não. A gente pode ficar chorando pelo canto ou arrumar um jeitinho de ser feliz. Eu vou é voltar para minha terra e ir feliz...”

Quanto a mim, eu vou ficar aqui, pensei. Sempre andando pela enfermaria por entre sofrimentos, o coração apertado como uma criança perdida, sem entender, sem agir. Queria ser como ela. Mas ela me ensinou mais do que estertores crepitantes, me deixou com a impressão que a maioria dos problemas de nossa vida não valem a preocupação e que existe apenas um fio tênue de verdade que liga o que eles aparentam ser daquilo que realmente são, no final das contas, a pior coisa que poderia nos acontecer, a morte, é natural e inadiável.Vou sentir a sua falta.

Sid

Domingo, Novembro 19, 2006

Em paz

“Eu fecho os olhos e ela está sobre mim. Às vezes fica ali, me olhando, de pé, sozinha. Ou como uma sombra tenta me abraçar. Eu já a vi flutuando na janela sempre fechada, me aguardando. Eu posso correr, me esconder, mas não consigo fugir. Ela está sempre lá, me esperando.” Um paciente me disse isto uma vez, de vez em quando eu me lembro, como agora.

Esta paciente sim, tinha conseguido se esconder da morte. Há, pelo menos, dez anos. Agora estava quase completando cem. Ali, quieta, imóvel, na cama de sua casa. Os parentes, em busca da boa morte, haviam tirado ela do hospital, a desumanização e, por que não admitir, o custo do sistema de saúde tinha tornado impraticável. Uma decisão difícil, mas definitiva foi tomada: ela morreria onde sempre viveu, com dignidade e sem levar os que ficam à falência.

Não morreu, mantêm-se teimosamente viva em sua cama. Sem cuidados intensivos, sem equipamento. Não fala, não se mexe, não faz barulho. Acho que a morte simplesmente esqueceu dela. A família, que a trata com um carinho que raramente eu vejo dedicado aos idosos, é simpática com o médico, mas, talvez devido a minha presença, não poupou comentários incomodativamente irônicos em relação à medicina tecnológica, científica, asséptica e, em última análise, inútil.

E pensar que foram acusados de desrespeito, assassinato, eutanásia e sei lá mais o que... A medicina é mesmo como andar em pedras enlameadas: qualquer argumento pode voltar-se contra você. Qualquer palavra, qualquer certeza, qualquer atitude... É como que a vida insistisse em ensinar aos médicos humildade, pena que poucos deixam-se aprender.

Quando saímos, o médico me disse que a família o chamava sempre, preocupada com o conforto da paciente, queriam vê-la ir em paz. Agora ele sentia mais confortável pois ortotanásia, passou a ser a palavra da moda, com a chancela do Conselho. Mas buscar o conforto de um paciente que não fala, não expressa nada (nem dor) e talvez nem retenha memória, pode ser mais desafiante do que parece a primeira vista.

Decidiu retirar algumas medicações, argumentou aos familiares que não estavam mais fazendo efeito. Eu disse a ele que isto era eutanásia e não ortotanásia. Ele me explicou que não, a medicação nunca tinha feito efeito, receitara apenas porque não se sentia confortável em ser chamado e não tomar nenhuma “atitude”. Na hora concordei, aprendi. Mas agora eu penso que a atitude poderia ter sido explicar, conversar e, cuidar da família tanto quanto do doente. Por mais saudáveis que eles tenham me parecido, não deve ser fácil.

Sid

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

Erros e Acertos

Logo quando eu o vi sentado, suando, tremendo e balbociando palavras inteligíveis percebi que seria um tema de meu blog. Não imaginei de pronto que este seria o título, de tão acostumado que estou por apontar somente os erros, como se os acertos não existissem, esta palavra ainda me causa estranheza... Mas talvez seja o início da construção da maturidade clínica, o início da percepção de que a vida, e a medicina, não é tão simples quanto parece à primeira vista, ao começarmos a compreender os processos que levam a formação da decisão clínica começamos a entender – e a aceitar – os erros que eventualmente podem aparecer no caminho.

Erros, no entanto, não foram feitos para serem aceitos, especialmente se nascem da falta de respeito e de comprometimento com aqueles que justificam a nossa própria presença no hospital, com isto em mente, ao perceber o sofrimento do doente fui perguntar ao residente se não haveria algo para fazer para amenizar, "todos aqui sofrem, ou não estariam aqui". Ainda tentei iluminar aquela pobre alma, tentando ser mais direto: "Será que não dá, ao menos, para liberá-lo?".

Não, o paciente tinha uma febre nitidamente infecciosa, era precisa que ficasse pronto o hemograma para que se determinasse se a origem era um vírus ou uma bactéria, excluir as mais comuns e guiar o tratamento. Paguei com a língua, o residente estava certo, fazia sentido então mantê-lo lá. "Se você quer ajudar ao mundo, vá ao laboratório e pegue o exame dele, é um bom começo." Fui.

Quando cheguei ao laboratório os exames estavam prontos: um teste rápido para HIV e um hemograma. Bom, eu espera mais, algumas sorologias, mas o hemograma nitidamente representava uma infecção de origem bacteriana, o que então justificava a clarividência do residente em não pedir mais nada. O cara é bom mesmo. Infecção bacteriana, cujo foco ele já havia me dito que não havia encontrado, supondo eu uma anamnese e um exame clínico bem feito, fiquei curioso para saber quais seriam os próximos passos...

Nestes momentos as realidades vão se formando em nossa mente para construir uma representação realmente funcional do mundo. A verdade em si, jamais saberemos, uma vez que o que guardamos é sempre uma interpretação dela: o que é era absolutamente certo agora, pode ser o erro mais absurdo daqui a pouco, para pouco depois tornar-se obviamente correto. Ao retornar, entreguei-lhe o resultado do exame e, após mais alguns minutos de espera, chamou o paciente e disse-lhe: "O resultado do senhor mostrou uma infecção bacteriana, mas ela é oportunista, o mal do senhor é uma infecção viral escondida, a qual não podemos fazer nada, o senhor volte para casa, Tylenol de 6/6h e espere melhorar".

Quase caí para trás, não era possível aquele médico que eu estava começando a admirar tivesse feito o paciente esperar tanto tempo por um exame que ele simplesmente não iria dar o menor valor. Eu tive perguntar, afinal me parecia um absurdo. "Esperei o exame de sangue para ter uma noção do estado paciente. Embora eu não tenha medido a temperatura dele, os resultados, você pode ver, indicam uma pessoa saudável submetida uma infecção que ainda nem é tão grave ainda. Como eu não encontrei o foco da infecção bacteriana eu não posso tratar algo que eu desconheço, portanto, não nos resta outra chance além de dizer para o paciente voltar para casa e , ou esperar que o foco apareça para podermos tratá-lo, ou esperar que a infecção se resolva sozinha, graças ao sistema imune do paciente que é plenamente competente." Esta é uma explicação plausível. Certo, minha admiração voltou.

No almoço, fui gabar-me aos colegas do que eu tinha aprendido. Que alguns absurdos não eram tão absurdos quando analisados e que não devíamos sair criticando tudo que os médicos fazem, antes de no mínimo permitirmo-nos a experiência. Eu estaríamos comportando-nos igual aos "leigos", aquela racinha desprezível...

"Bela visão. Mas alguns absurdos ainda assim são absurdos". Disse ele, cuja opinião certamente não era só para ser levada em conta e sim, na maioria das vezes, seguidas à risca. Voltamos à velha questão do que é certo e o que é errado. Um paciente que vai e nunca mais volta, não sabemos o que houve com ele, se ele morreu atropelado ou se ainda vive, curado. Ou se foi a farmácia, comprou AMOXIL e curou-se no dia seguinte. Jamais saberemos. Mas existem algumas coisas que podemos saber, disse ele, entre elas que o foco da infecção não precisa ser visível, mas pode ser subentendido pela clínica ou pela anamnese, será que um exame físico de um paciente febril em que sequer a temperatura foi medida foi realmente completo?

Devemos imaginar também que nem sempre a febre resolve-se por si só, pode lesionar as valvas cardíacas antes disto. E ainda completou em tom trágico: "Ele quer um foco? Ele pode ter um foco daqui a três dias: o sangue todo de um paciente em sepse"
Mais uma vez vemos que o certo é certo e o errado é errado, dependendo de quem vê, analisa e do que esta pessoa quer acreditar. Qual atitude eu tomaria? O que eu faria? Uma coisa é certa: exame clínico completo e boa anamnese, assim como canja de galinha, nunca fez mal a ninguém. Muito menos bom senso.

Sid

Sexta-feira, Outubro 27, 2006

Tire a mão de mim

Quando vamos solicitar a algum paciente que nos deixe treinar o exame físico algo de estranho ocorre: o que era para ser um favor dele para nós, é encarado por eles como uma obrigação difícil de ser negada e com bastante sofrimento agregado.

Em um leito existe um sofrimento em forma de ser humano que se estivesse bem estaria em casa e não na enfermaria de um hospital público, agora vem um chato te cutucar, te bater com a ponta do dedo e haja "trinta e três"! Um paciente uma vez me disse, quando lhe perguntei se doía: "Até hoje de manhã não doía, mas tanto futucaram estes meninos que está doendo" Meu colega reclamou, como que aquilo fosse uma afronta e não uma justa reclamação. Não cabe aqui ter pena, e sim seriedade, empatia e respeito.

Este é o dia-a-dia de nós, estudantes, ocorre tanto que já nem mais me dou o trabalho de escrever, estarei em perdendo a empatia, anestesiando-me do sofrimento alheio? “Como todo médico”?

Mas esta noite, na sala de parto natural houve uma cena marcante demais para passar desapercebida, cuja raiz eu vejo no mesmo problema. Especialmente porque eu notei que alguns colegas sentiram orgulho, quando eu senti vergonha daquela mulher.

Grávida a termo, moça humilde, porém digna. Pai conhecido e amado, humilde também, esperava lá fora, preocupado e ansioso: era o primeiro filho do casal. A moça estava na sala de parto com a mãe segurando em sua mão.

Jamais saberei como dói a dor do parto, mas se a intenção de Deus era mesmo punir Eva pela tal maçã, aquele Deus do primeiro testamento não era mole: deve doer mesmo. Ela já não tinha mais lágrima, desnuda exposta como nunca estivera a tantos homens, a tanta gente. A dor a impedia de qualquer vergonha.

Será que alguém teria o direito de cobrar desta menina um vocabulário condizente com aquele que os professores doutores acham que seria apropriado?

"Mãe, pede para esta mulher tirar a mão de dentro de mim, porque está doendo muito", disse entre gemidos e soluços.

"Mulher não. Para você é 'Professora Doutora'"

Imediatamente me veio a dúvida: se para a paciente ela era "Professora Doutora" quem ela era para ela mesma? Não tenho dúvida que, ao tirar o jaleco branco, ela deveria ser alguém que não merecesse qualquer crédito, pois quem não aceita-se como ser humano ("mulher") e precisa de uma fantasia para "ser", não deve ter nada por dentro.

Deus me livre que a fantasia me marque suficiente para que não consiga tirá-la, que eu não seja nada além dela, por dentro e por fora. Vou precisar ser forte, mas não deixarei esta vaidade por as mãos em mim.

Sid

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Saco

"Que saco!" Ele disse. "Será que não dá para alguém mandar ela calar a boca?" Referiu-se para a equipe de enfermagem. Eu ao seu lado, deveria ter ido lá e falado com ela. Eu sabia o que dizer, estava fantasiado de Deus envolvido em símbolos de poder: o estetoscópio pendurado e a toca verde. Mas não fui. Fiquei vendo a monitorização da outra paciente, fiquei puxando o saco do professor.
Agora eu sei exatamente o que deveria ter dito: "eu sei exatamente o que senhora está sentido, já passei por uma cirurgia bem semelhante a esta. Foi feita uma medicação analgésica e em breve a senhora não vai mais sentir dor. Por favor, tente relaxar, existem outros pacientes na aqui na sala de recuperação pós anestesia geral que também precisam descançar..."
Será que ela teria calado a boca? Será que eu teria ganhado uns pontos com o professor?
Eu, com certeza, agora não estaria aqui relatando mais este erro. Poderia ter sido pior, poderia ter criado uma dependência que faria ela gritar ainda mais quando eu fosse embora, mas tudo poderia quando nada foi feito. Menos um sofrimento que tentei aliviar, escrevo para que da próxima vez eu não hesite.

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Onde menos se espera

Propor-se a trabalhar com pessoas é expor-se ao inesperado, ao incômodo, ao desconsertante e ao amedrontador. É estar preparado para enfrentar seus temores e desejos. É saber separar aquilo que você gostaria que fosse (ou que não fosse) daquilo que realmente é. É saber superar imposições e barreiras éticas, morais e religiosas. É saber ser e deixar que sejam.

É também um exercício diário. Aprender a se reconhecer e a aos seus sentimentos, pode não parecer tão simples, mas é fundamental para o exercício da profissão e só é possível quando se sabe exatamente quem é você e porque você está ali. O que você pode fazer e quais as implicações que seus atos podem ter.

Com estas coisas em mente vamos aprendendo a nos comportar. Primeiro o paciente que fede, o paciente que é sujo. O homossexual apaixonado, o hipocondríaco carente: erros nossos que vêem à tona. O doente teimoso, o que é arrogante, o que devia ser médico: estes nos ensinam que é mais difícil lidar conosco mesmo. Já o agressivo e o criminoso nos ensinam a ter firmeza e segurança no que dizemos. Tem também aquela cuja beleza é evidente demais para ignorarmos. Esta, talvez, seja a mais difícil.

Mas existem coisas que transcendem qualquer compreensão, que vão muito além do que podemos supor ou explicar. Um professor negro já é raro, outra lição anti-preconceito. Conversávamos no corredor, me falava sobre a sua religião: dizia que o unia com o seu ethos, assumia assim a sua cultura e uma dívida com seus ancestrais, como que se a fé necessitasse explicações. Narrava o que ocorria nos cultos e como isto levava a compreensão do comportamento humano fundamentais para a sua experiência como psiquiatra.

Foi quando eu perguntei a ele se ele já havia visto nos cultos algo que não conseguisse explicar à luz da ciência. Alguns poucos minutes de silêncio, os olhos nitidamente buscavam uma lembrança a que se apoiar, a mente buscava uma explicação racional para tudo enquanto pensava uma resposta. Disse o cientista: “não”. “No terreiro não, mas no consultório sim”, completou o médico.

Sábado, Outubro 07, 2006

Nada

Foi. Cansada ela olhava, simplesmente olhava: o rosto sem expressão era tudo que poderia significar no momento. Nem a residência, nem o mestrado, sequer o doutorado, nada disto ajudou a ele. Para que, afinal, tudo isto?
Olhando para ele eu me via. O que estou fazendo aqui? Para que ser doutor? Para que tentar, me esforçar, sentir, sofrer, perder, vencer? Por que não simplesmente ir? Por que insistir? Para tentar atravessar este caminho de forma mais agradável possível? O que é tudo isto se não o significado que damos as coisas? O que é o significado se não ilusões que criamos para esquecermos o nada?
Enquanto fechavam os olhos deles, eu fechei o meu, empatia ou reflexo, não sei. Eu vi o fio que nos liga, o antes igual a depois: o mesmo nada, exatamente igual. Por que então tememos o nada, se antes de sermos houve toda uma eternidade? E ainda haverá eternidade quando não formos mais.
Acabou, todos se foram. Senti um tapa no ombro, mas depois me vi sozinho. Afinal, é assim que se morre.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

Inconsciência ou morte

Eu saí da sala querendo uma história para contar no blog, mas, desta vez, eu não queria falar mal da medicina. Não de novo. Apesar de eles terem me dado motivo, estes cirurgiões... Mas falar mal da grosseria e arrogância dos cirurgiões é um lugar comum batido demais para eu me expor mais. Eu sei que deveria ter ficado em sala, eles já estavam abrindo o pericárdio: muito a aprender, muito a ver. Mas não paravam de brigar entre eles, com toda a equipe e até comigo, que nada fazia, apenas olhava passivo. E me deu pena da instrumentadora, coitada. Se o paciente pudesse ouvir...

Na realidade eu não tenho certeza que ele não pode ouvir, provavelmente, eu nunca saberei. Isto me lembra que Maria José Limeira, escritora e doce jornalista democrática da, para mim, distante João Pessoa, que sempre me estimulou a escrever tinha me pedido para falar sobre catalepsia, que é a suspensão parcial ou total da sensibilidade e dos movimentos do corpo, e sobre a consciência durante a anestesia. Esta é a minha chance de respondê-la.

O padrão fisiológico que leva as duas situações são semelhantes: por algum motivo, a ligação que existe entre os centros superiores de controle dos músculos no cérebro e os próprios músculos é bloqueada, fazendo com que, mesmo que você tenha a intenção de mover alguma coisa, você não consegue, simplesmente porque esta informação não chega às fibras musculares. No caso da anestesia isto é obtido através de drogas semelhantes ao velho veneno das zarabatanas: o curare.

A questão principal que direciona a sua pergunta é a inarrável angústia de não conseguir controlar o próprio corpo, e estar consciente disto. Acredite, sei porque já passei por isto. Consciente e curarizado na mesa de cirurgia escutando a conversa dos cirurgiões, sem saber se vivo ou morto. Naquele momento fiz uma promessa que não levaria muito a quebrar: daí para frente seria diesel sobre rodas ou combustível de aviação, nunca mais gasolina em (duas) rodas.

Eu me lembro do parachoque crescendo, de outro carro vindo, do vôo sem asas. Agora imagine-se abrindo os olhos - a sensação é exatamente esta: "abrir os olhos" - e eles não abrem. Você sente cada movimento e cada manipulação que fazem no seu corpo, mas não é capaz de reagir. Até a dor faz falta! Você não sente dor. Sente a pele sendo cortada, seus tendões e ossos tracionados, imagina que isto lhe faz mal. Só. Aquela sensação afetiva ao estímulo nocivo, a que chamamos de dor, foi embora com a morfina. Sem dor, sem movimento, sem luz. Onde você está afinal? A decepção não poderia ser maior: até do céu eu esperava mais que isto. Nada de túnel de luz, nada de São Pedro, nada de nada.

Aqui eu me lembro história narrada pelo Dr. Neil R. Carlson que uma vez perguntou ao seus alunos qual seria a função do sistema nervoso central supondo-o como morada de nossas funções cognitivas superiores, a resposta foi unânime: "pensar". Tivesse eu obtido esta resposta, teria perguntado qual seria a vantagem evolutiva do "pensar" e porque seres pensantes teriam sido selecionados sobre os não-pensantes, a resposta no entanto poderia vir como o "pensar" sendo simplesmente uma "calda de pavão" usada para impressionar as menininhas pré-históricas e assim conseguir mais descendentes que pensem. Dr. Carlson, no entanto, fugiu desta discução estéril e então continuou sua aula, conforme descreve em seu livro "Fisiologia do Comportamento", mostrando que a principal função do pensamento é controlar o nosso comportamento, ou seja: as funções motoras de nosso corpo. Para isto ele serve, para isto ele evoluiu.

Sendo o normal a ação funcional de algo sobre aquilo para o qual ele evoluiu e sendo a medicina a arte de sobreviver frente ao anormal, sou levado a indagar: Como reage o pensamento quando exposto a uma incapacidade de cumprir as sua função primordial, ou seja, controlar o corpo?

Na biologia, diz-se que algo que perde sua função com o tempo deixa de existir, isto parece ser, de alguma forma, claro para aqueles que já passaram pela sensação de não saber se vivo ou morto. Pois uma vez que desconheço alguém que se lembre de ter estado morto, nunca ninguém foi capaz de apontar as diferenças entre os dois estados e, por mais, que tentamos fingir que o nosso corpo é apenas um apêndice para uma parte mais elevada chamada "espírito", para todos os fins práticos ele é tudo que temos e, aparentemente, sede de nossa consciência, como bem disse Schopenhauer. A angústia de perder ambos - o corpo e o espírito - embrulhados neste pacote a que chamamos "vida" é o que mantém a nossa espécie neste planeta até hoje e a minha futura profissão (medicina) sempre entre as mais bem pagas.

Tal angustia, acredite, é horrível. Ficamos face a face com todos os maiores dilemas da filosofia enquanto a mente gira descontrolada. Leva um tempo para se superar da sensação cartesiana de não saber se é ilusão tudo que percebemos em nossos sentidos agora ou se eram ilusões os delírios do corpo aprisionado em grades de curare. A única certeza, bem disse Descartes, é que se eu sou capaz de imaginar que estou escrevendo algo, logo eu, de alguma forma, existo.

Sid

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

Meu Rei

Desta vez era a janela, ou o vento que saía dela. Sempre era alguma coisa e isto me deixa preocupado: as pessoas que gostam de odiá-lo estavam ficando mais numerosas do que as que odeiam gostar dele. Colhia a história do paciente no leito ao lado da janela quando o barulho da discussão ficou insuportável. Fui intervir, afinal ele tinha prometido para mim comportar-se.
As desculpas eram sempre muitas, das quais a poucas se dava atenção. Desta vez elas giravam sobre a residente, que tinha cometido o pecado de tratar-lhe mal. Queria ir embora, assim dizia. Tinha muito o que fazer em casa, uma família enorme para cuidar, negócios importantes para gerenciar, não podia ficar perdendo tempo no hospital. Enquanto falava, ia se acalmando. Era sempre assim. Em pouco tempo eu pude voltar ao meu trabalho.
Mas sua personalidade era marcante demais para ignorar e o resto da anamnese ficou contaminada por discussões sobre ele. "Meu Rei" é um senhor negro, alto, forte, voz rouca e penetrante, nascido em Vitória da Conquista, naturalidade que inspirou o apelido. Capoeira de nascença, agressivo por profissão, confuso, talvez, pela doença: crises hipertensivas haviam gerados pequenos acidentes vasculares cerebrais associados à raras convulsões. Mas nada disto pareceu assim quando colhi pela primeira vez a sua história clínica: A "Queixa Principal" insistia que era "excesso de mulher", na "História Patológica Pregressa" um improvável transplante cardíaco "curado com células-tronco", na "História Familiar" 67 filhos "contando só os que estão no Brasil" e por aí ia.
Informações cuja a minha imaturidade me impede de interpretar e me leva duvidar, existe, no entanto, uma parte de sua história clínica que eu nunca tive nenhuma dúvida: fora agente do extinto Serviço Especial de Saúde Pública.

"Meu Rei" escondia um pouco mais do que detalhes importantes sobre a sua patologia quando devaneava durante a anamnese: ele escondia um período negro de uma medicina em lua-de-mel com o poder político autoritário, o braço armado de uma Saúde Pública que enquanto discursava humanista, mostrava aos excluídos a sua face dura e cruel. Uma Saúde Pública que ainda hoje insiste em tatuar em nossa mente de estudantes de medicina sonhadores e bem intencionados a prepotência da ciência e a soberba do estetoscópio. Aqui aprendemos a idolatrar a arrogância ditatorial de Oswaldo Cruz, que usou o poder contra o povo e a varíola, e a ignorar Rodolfo Teófilo que lutou com o povo contra o poder e a varíola. Assim reproduzimos um comportamento e garantimos a sustentação filosófica e social do poder político vigente.
Meu Rei lutou contra a lepra. Cada marca em seu corpo conta a história de um prisioneiro, julgado, condenado, caçado e capturado para morrer em presídios camuflados de asilos, sem direito sequer à dignidade, cujo único crime foi ter contraído a hanseníase. Ele me confessou temer o hospital, sabia que era lá que os condenados eram "guardados" para morrer, sabia porque muitas vezes fora ele quem os condenou.
Mas os leprosos se vingaram: condenaram também Meu Rei ao seu pior pesadelo: a amar o seu inimigo como a seus súditos. Fora do hospital já não seria mais "Meu Rei", já não teria mais platéia para o teatro que transformou a sua vida. Fora do hospital já não seria mais.
Ele não sabe que eu sei o pecado da residente: a hipertensão está controlada e a epilepsia responde bem à medicação. Em breve Meu Rei terá alta.
Sid

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

Obrigado

Logo que entrei na enfermaria masculina eu percebi as cortinas em volta do leito de número 16: houve um óbito. É uma situação comovente, não obstante eu já tenha me acostumado, sempre me detenho para ver a reação das pessoas em volta, mas desta vez eu procurava uma pessoa específica, cujo leito ficava em frente ao do morto. Com isto fiquei observando a cena tempo suficiente para escutar uma voz, que não me preocupei em reconhecer, perguntar se era meu parente. Sem me virar, observando os enfermeiros fecharem o saco preto e o colocarem na maca, eu respondi que não. A voz, com a resignição usual aos longos habitantes dos hospitais e com um tom que queria dizer bem mais que isto, disse de forma seca: "aqui é onde as pessoas morrem." A depressão, aparentemente, cura-se espontaneamente em uma cicatriz de sarcasmo naqueles que vão perdendo a esperança da alta.
Insistia em procurar o meu paciente pois apesar de saber que tinha tido alta, sabia também que ele só iria embora do hospital depois da medicação no final da tarde. O saco de roupas e o rádio jogado sobre o colchão confirmaram a minha suspeita de que ele ainda estava por perto. Mas não na enfermaria. Encontrei-o sentado na escada e me sentei ao seu lado.
-Soube que você vai embora...
- É... ... ...porque não separam os pacientes muito graves dos que estão melhorando? Porque precisamos ser expostos a isto?
Enquanto eu explicava para ele que juntar todos os "condenados" em uma ala comum seria um ato de extrema arrogância daquele eventualmente responsável pela triagem que acaba por deixar marcas difíceis de serem apagadas naqueles que, eventualmente, conseguem sobreviver conforme demonstra a experiência em hospitais onde isto acontece. Por isto lá não era assim. Mas enquanto eu explicava a ele, eu ia me lembrando de como ele chegou, há quase um ano.
Fraco, contorcendo-se de dor e com os olhos profundos de tristeza e humildade. Me lembrei da primeira vez que o vi. O professor indo repassar as anamneses, e ensinar a avaliação dos sinais vitais. Tínhamos que sentir o pulso dele, primeiro o radial, no punho. A cada aluno, o professor pegava o punho dele que ele insistia em apoiar a cabeça, cada vez de forma mais agressiva, como se dissesse: "deixe o seu braço aqui, não vê que estou dando aula?". Furei a fila dos colegas, peguei o cobertor que estava enrolado ao lado de sua cabeça e, enquanto ele me olhava assustado, apoiei a sua cabeça, enquanto ele tentava se desculpar: "...é que eu estou sentindo um pouco de dor..."
Mas chegou a hora do pulso carotídeo, no pescoço, e o professor, para melhorar o acesso ao pulso, retirou bruscamente o cobertor o que fez com que o paciente se contorcesse de dor. E começou a mexer com a cabeça dele para lá e para cá. Quando eu disse: "Professor, o paciente está com dor." Óbvio que esta foi mais uma das minhas intervenções inconvenientes. E eu prendi a lição de que os pacientes de um hospital universitário servem exclusivamente para que estudantes aprendam medicina. Afinal, alguém tem que fazer o sacrifício para que seres tão especiais sejam formados. Ou você prefiria que não existissem médicos?
O tempo foi passando, e eu fui mantendo as visitas a ele, fui tentando mostrar que, apesar de ser o X do leito Y ele era um ser humano e como tal deveria ser tratado. Passava lá para rever as aulas de sinais vitais, nas quais eu sempre pedia para que ele me guiasse em seu próprio corpo: "Meu dedo está perto de onde pulsa? Me avise quando parar de 'sentir' o barulho..." Deixava claro que estava aprendendo e que nada daquilo contribuiria para a sua melhora, mas exclusivamente para a minha. A franquesa me fez conquistar a simpatia e ele sempre me perguntava o que eu tinha aprendido em aula. Que excelente exercício era explicar a ele!
Hoje ele estava lá. Ainda de aparência frágil, mas andava pelos corredores sem dor e era capaz de exigir um tratamento digno. Não éramos tão diferentes assim, um do outro, sentados na escada atrapalhando o fluxo de pessoas ocupadas...
Ficamos um tempo em silêncio, como se houvesse tanta coisa a dizer um para outro que simplesmente não valia a pena começar a tentar. Ele, afinal, tinha que ir para casa, levantou-se portanto. Ohei para ele e, mais como amigo, disse que agora ele tinha que se alimentar direito, fazer algum esporte e... ...procurar os Alcóolicos Anônimo. Abaixou os olhos concordando.
Quando ele se virou para ir embora (talvez tenha dito algo demais), estendi a minha mão a qual ele apertou com o olhar assustado do primeiro dia em que o vi. Alguns segundos sem dizer nada, tomei coragem e disse: "obrigado". Pela primeira vez senti dele um aperto forte, seus olhos mudaram para uma expressão de curiosidade que foi verbalizada com um "por que?".
- Por me ensinar medicina.
Nunca nenhum professor fez algo pelo qual ele não estivesse sendo pago para isto, ele não estivesse com a obrigação social e moral de fazer. Ele não. Fez por favor. Devemos ser eternamente gratos a nossos pacientes.
Sid

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Game Over

Vim dirigindo confuso. Não foi fuga, apenas consegui o que queria: até que enfim um morto. Não tinha mais nada para fazer no hospital. Enquanto não for por obrigação, eu mesmo faço o meu horário. Em casa, a mente teimava em desobedecer o corpo cansado e e lutava contra sentimentos que insistiam em buscar espaço. Tive que levantar e escrever.
Ele deu entrada no centro cirúrgico agora já fazem mais de 12 horas. Dor abdominal profunda. Diagnóstico óbvio: apendicite, assim trouxe o SAMU. Na emergência enviaram para uma cirurgia exploratória, que de tanto explorar encontrou o que não queria, nem sequer imaginava: um aneurisma de aorta. Roto.
Isto muda tudo: prótese, plaquetas, correria. Daí para frente, como que se ele decidisse me dar uma lição (como sou egocêntrico), segue-se a sequencia interminável de notícias ruins, do hematócrito que chegou a 13 à saturação que chegou 40%. A primeira parada e a mão do cirurgião vai direto ao coração, como em um poema mal feito, insistindo em uma rima sem nexo, de tanto apanhar o coração parecia desistir de bater.
Cedo demais para sair da sala, uma nova parada na porta do CTI. O intensivista fez menção de subir em cima, e o cirurgião quis abrir de novo. Mas nada, nada foi feito. Nada podia ser feito, todos sabiam disto.
Ele me olhava, esperendo que o branco dos meus olhos ficasse vermelho, percebi um prazer sarcástico nele, que foi-se, pois só agora mudaram de cor, vencidos pelo cansaço. Por um momento ele esqueceu que perdera o paciente, pelo menos alguma dor eu consegui aliviar. Eu que tanto tenho criticado os médicos, desta vez eu não posso deixar este meu último comentário ser mal interpretado: ele fez de tudo para salvar aquela vida, mas preocupava-se agora com as próximas vidas: as que viriam em minha mão, seu discípulo, pelo menos por uma noite.
Todos fizeram de tudo para salvá-lo. E quando ele morreu, eu não posso dizer o que sentiram, apenas o que eu senti. Como na visão de um de meus críticos, a vida, pelo menos a que está em cima da mesa, diz-ele, para mim não passa de um joguete. Talvez. Talvez eu racionalize a vida para evitar enfrentar a morte. Talvez sejamos doutrinados a isto. Hematócrito, saturação, pH, pressão, frequência... Números. Mas na mesa está alguém igual a mim, igual ao que eu fui, sou ou serei. Com pessoas iguais as que me amam esperando lá fora.
E nós jogando. Aumentando isto para diminuir aquilo. Desta vez perdemos o jogo. Esta foi a sensação que eu tive primeiro. Agora eu não sei mais. Por mais que eu deteste admitir, meu crítico está certo.
Mas aqui, neste centro cirúrgico, o que importa não é salvar vidas? Amenizar o sofrimento, paliative care, isto é para depois, se ele sobreviver à mesa.
Sid

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Assassinos

"Não sou melhor que ninguém. Sei que não posso julgar ninguém. In dubio pro societa. Apenas envio-os para uma instância superior que saberá julgá-los: Deus"
Doutor de terno e gravata. Suprime a necessidade de outros dois poderes: legisla em causa própria, julga como Deus e executa. "Apenas faço o meu trabalho, não vê?" Não vi nada mais que carne humana sobre ossos de hipocrisia. Esta minha mania de dar idéia aos pacientes, ainda pode me matar.
No quiosque, fora do hospital, às 2:25 ele falava de bandidos. Professor de epidemiologia ele sabia do que estava falando, afirmava sem titubear que não havia nada melhor que o tráfico para a saúde pública: mata jovens que não apresentam ainda as cronicidades da vida e mata em alta velocidade, não sobrecarregando o sistema. Queria apenas falar da frieza da medicina quando se pensa em números. Criticam a ideologia por trás de usar a verba da Saúde para a Bolsa Família, mas poucos têm a coragem de criticar crueldade de se gastar com alta complexidade em um país que ainda se morre da doença mais curável do mundo: a fome.
Queríamos discutir política, queria ter a oportunidade de dizer que a vaidade científica e o orgulho técnico influenciava mais as decisões do Ministério da Saúde do que a busca pela justiça social. Mas a acadêmica queria ouvir histórias de heróis, fardados ou não, defendendo donselas. Eu também um dia quis heróis críticos e conscientes, quis fazer estas histórias, mas eu só vi assassinos. Tão cruéis quanto os que sustentam palácios de "excelência médica", delírios milionários da Bélgica dos sonhos em plena Bangladesh em guerra civil.
Um destes assassinos, no entanto, eu até aprendi a admirar: com orgulho de ter construído tal admiração com o sacrifício de meu próprio corpo. Pai zeloso que me entregou seu próprio filho com a recomendação: "Mostre a ele o inferno". Este é um ser superior, que cumpriu tudo aquilo que pregou, que construi valores acima do reino de hipocrisia, que lutou por tudo que acreditou, que foi libertário quando era para ser carrasco, que foi assassino quando era para ser medroso. Que de Deus só quis aquilo que ninguém Lhe pede, e recebeu a sua parte para sempre: ódio e medo de fora da caserna e desprezo de quem lhe deu a reserva; a luta e a tormenta.
Eu vi tal super-homem chorar duas vezes: a primeira quando eu perguntei "porque?", a segunda quando leu o título do meu presente: "Além do Bem e do Mal". O único comentário que fez até hoje, foi perguntar-me se o livro foi escrito há muito tempo...
Ainda tentei mais um vez: sedento de sangue, atormentado pela doença, e além do bem e do mal, eu lhe dei "Ecce Homo". Apenas para ouvir que "este tal de Nietzsche era um herege", como se matar não fosse pecado.
Mas daí eu tirei uma grande lição: pecado não é ir contra a "lei", mas criticá-la. Herege é aquele que ousa. Que desvenda a capa de ilusão que abre os olhos e vê. É preciso ser forte e bravo. Não inveje a coragem daqueles que matam, pois você não sabe a sua atitude quando não tiver outra coisa a fazer. Não é coragem fazer o que esperam que você faça.
A capa da "lei" é forte demais para ser vencida por qualquer um: é contruída sobre dor. Na faculdade viramos noite, sofremos com os professores, estudamos e decoramos sob o nome de "aprender". Como recompensa ganhamos migalhas de notas suficientes. Isto tem que ser importante! Assim é contruída a "lei", aquele que disse que isto não é importante, não é o certo, não é assim é um herege cujo destino é a fogueira, a Santa Inquisição.
No quartel, as coisas são menos sutis, mas eles te dizem o que vão fazer, como será e porque. Dão luz aqueles que podem ver, mas quase ninguém pode. Só não chamam de "dissonância cognitiva" porque militar é tudo burro, tem um nome menos pomposo: "síndrome de Estocolmo": é o que você deve fazer com o seu prisioneiro de guerra.
Quando meu pai quis que eu virasse "homem", me levou para onde os homens estão. Aos quinze anos de idade eu não pude compreender mas entendi o olhar do prisioneiro que me dizia ser mais livre que o "filho do doutor", pois era livre da sociedade que ainda me oprime, tanto tempo depois, chocava a hipocrisia reinante admitindo em tatuagem no braço: "mato porque gosto".
Coisa que o sargento do Batalhão da Caatinga não teve coragem de admitir, enquanto me mostrava toda a tecnologia do sertão: fuzil M-16 com mira telescópica, óculos de visão noturna e a caçamba do 4x4. Falava com orgulho de quem reproduz uma antiga história: "Quando o seu dotô governador pediu ao coronel que prendesse os bandidos e acabasse com os assaltos por cá do São Francisco, seu coroné foi Macho: 'Ou eu prendo os bandidos, ou eu acabo com os assaltos'"
Os urubus que sobrevoam a estrada entre Cabrobó e Nova Floresta, entretanto, sinalizam os corpos largados à beira da estrada, mas esquecem de dizer que nem ninguém foi preso nem se acabaram os assaltos. Mas a velha ordem das coisas se manteve e isto, afinal, é o que importa.
Mas para cá do rio, em Euclides da Cunha, o outro lado da guerra, o lado que sempre sofreu, não teve a mesma sorte dos Macacos High-Tech: "Eu conheci para mais de 20 irmãos meus, enterrei eu mesmo quinze. Perdi uns cinco de doença, os outro foi na ponta da faca. Eu nunca vi polícia aqui no sertão brabo. Homem que não mata aqui, morre". Reclamava, lamentando a única vez que viu a polícia: levaram sua namorada de 15 anos, que tinha matado a pedradas a ex-esposa. Me mostrando que o valor de nossas certezas pode mudar conforme a geografia.
Estas são as grades que nos prendem: o valor que damos as coisas, pelo simples fato de termos sofrido para conseguirmos.
Quando eu entrei para vê-lo, escutei o seu guardião reclamar de tédio. Na custódia não se bate em ninguém, não se mata ninguém. Eu vi o medo em seu olhar, disfarçado de ódio à medicina, como se a morte fosse, necessariamente, erro médico. Longe do fuzil fálico que sempre representou a sua vontade de poder, enfrentava agora o vazio. E hoje já não desejo mais o medo do assassino, mas a coragem do suicida. É nesta coragem que espero liderar meus pacientes.
Sid

Domingo, Agosto 13, 2006

O dragão de Poliana

Fechei os olhos e vi o dragão de Poliana. Imaginei como seria e por onde andava. Solto a cabeça e sinto o seu fogo. O que me liga a ela, me lembra mais tatuagens. No peito escrito "GOTHIC", mais abaixo, sangue. Também havia dragões, mas não o dela. Tinha uma facada no flanco direito. Entrou preocupado no centro cirurgico. Tinha que fazer uma ligação, talvez fosse para avisar a Poliana que tinha sido ferido em uma briga. Eu dei meu celular sem cartão, mas não podia ser a cobrar. Uma pena. O anestesista percebeu o diálogo e riu com um carinho que provavelmente o moicano não via há muito tempo e disse: "Você agora tem outras coisas para se preocupar... Relaxe... Daqui a pouco você vai dormir." Obediente, ele fechou os olhos.
Entra o senhor doutor cirurgião. Rindo e comprimentando a todos. Olha para os residentes e diz em tom obviamente irônico: "Não me venham com perguntas imbecis, eu odeio estudante, já nasci staff." Tenho que admitir que teve paciência em todas as perguntas que foram feitas.
Ao olhar o paciente, enquando a enfermeira retirava os brincos e piercings (com bisturi elétrico não se brinca), viu as tatuagens, o corpo sarado nu e exposto, deixou transparecer uma contra-transferência inconveniente para o momento: "Um sujeito desces que se fura todo, só pode ser vontade de dar o cu."
Teoria interessante. A primeira coisa que me veio a cabeça foi esperar o sujeito melhorar e ir se oferecer gentilmente ao cirurgião para colaborar em pesquisas que relacionassem metal perfurando a pele com tendências homossexuais. Mas não vou mudar o mundo, é melhor deixar para lá. Homossexual ou não, afinal de conta, isto não era algo para ser discutido na cirurgia, até porque não faria a menor diferença.
Mas reflete nitidamente o que aprendemos: o paciente é um pedaço de carne, um modelo para nossas teorias, um apêndice desagradável da doença. Poliana me disse que no hospital é onde nascem, adoecem, tratam-se e morrem os valores morais de nossa alma. Ela me diz tanta coisa, me disse também para ler Foucault, já tinham me dito antes, mas nela eu acredito.
Ele ainda insistia: disse que odiava parto natural. Nada mais desagradável do que ficar convencendo estas desesperadas a parir, "faz força de cocô, mãe", isto é coisa que um médico diga? Claro que não, ele tem que poupar saliva para chamar os outros de viado. A cesariana é muito melhor: o cirurgião chega, a mãe está apagada, vai, corta, e entrega "aquela porra estridente" para o pediatra. Lava as mãos e vai embora.
Eu já tinha visto uma cesária. Quando o meu amigo me perguntou, eu disse que senti nojo. Não dos fluidos corporais, mas justo da assepsia. Tudo muito quieto e muito limpo. Não é como na ambulância da FUNASA, quando me senti "médico" pela primeira vez. 3h da manhã e a índia gritava, disse o motorista, só estamos nós dois, é contigo, doutor... Ele já tinha feito vários partos, eu, nenhum. Ficou o tempo todo do meu lado, me ajudando e dizendo o que fazer, sem a arrogância do staff. Retribuí o favor ajudando a lavar a Toyota...
Voltava a mim e via todos concordando com o doutor, enquanto ele buscava mais lesões no paciente. Técnica e responsabilidade ele tinha. É um ótimo cirurgião. Agora eu me lembro o verso de Nietzsche: "A seis pés acima da terra, à aurora, e abaixo de mim: o mundo, os homens e a morte." O cirurgião estava realmente acima de tudo, acima inclusive da moral que morrera ali mesmo naquele hospital.
Ética e moral. São diferentes. Moral é a ética escrita, ética é a teoria e cultura que determina. O problema destrinchado em sua essência é de ética. A moral dele está de acordo com a ética que se espera de sua posição, se minha ética não está de acordo, problema meu, o errado sou eu.
Pela minha cabeça passam os comentários sobre meus sentimentos no Blog, vejo que sou, assim como ela, um correspondente de guerra. Talvez escute as baterias anti-aéreas que sempre quis. Me vejo tocaiado, em território inimigo, selvagem cão de guerra em ação de comandos lançado na selva com a faca afiada e uma pedra de amolar, me vejo aguardando para matar aquilo que estou prestes a me tornar. Serei esfolado vivo. O progresso, Mársias, não pode ser detido. Fui delatado, me encontraram. Charlie-charlie, o campo de concentração, sem a menor esperança da Rede de Apoio à Fuga e Evasão...
Quando a moral e confrontada, agoniza e morre, resurge das cinzas uma nova ética que alivia a dor da imoralidade. Ética médica, máfia de branco, eu vou lutar até o final.
Sid

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Virtudes Públicas, Vícios Privados

Já se faz quase um ano que tenho o Blog. Nesta longa existência muito pouca gente entrou nele. Resolvi então divulgá-lo. Não sei se foi por vaidade, acho que foi, mas pode ter sido também para me testar, para ver se estou conseguindo passar para as pessoas o que eu sinto. Ter um feedback.
Alguns comentários me chamaram muito a atenção. Bom, os elogiosos a gente agradece mas esquece. Mas as críticas são fundamentais.
Eu percebi especialmente que falar mal de si mesmo não é sinal de virtude, como eu esperava, confessar fraquezas e incapacidades, mediocridades e egoísmos, é um pecado maior que tê-los. Se no meu Blog eu ficasse falando mal de tudo e todos e dizendo o tempo todo que senti compaixão e pena, eu seria um santo. Eu não quero isto: eu quer ser humano, mesmo que demasiadamente humano para ser compreendido.
Eu quero ter a liberdade de gritar meus preconceitos, falhas, medos e incapacidades!
Não quero rebater a minha crítica como alguém ofendido. Teria toda a liberdade para dizer-me vaidoso e magoado. Mas não é o caso. Estou realmente agradecido. Pois me mostraram uma coisa interessante, que eu não tinha percebido.
Fosse o meu Blog dedicado a literatura, eu estaria indo por um caminho totalmente errado: vícios privados chocam as pessoas. Mesmo quando se demonstra que eles incomodam a quem os tem o suficiente para tentar excomungá-los em um Blog, escrevendo.
Virtudes públicas fazem mais sucesso. Realmente, eu juro, imaginei o contrário.
Poderia dizer que o interesse do meu Blog não é literatura, mas exatamente excomungar os meus defeitos. Mas talvez realmente a crítica seja bem-vinda. Não me escondo a possibilidade de um dia querer abraçar uma maior quantidade de leitores, tenho que, portanto, ficar atento ao desejos, medos e vontades deles. Assim como dos meus pacientes. Não seria isto, portanto, um bom exercício?
Sid

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

A inteligência no abismo

Escutei duas senhoras conversando no ônibus: aparentemente alguém teria recusado um filho com síndrome de Down, alegando que seria um "estorvo". Aparentemente uma médica teria dado um discurso "lindo" sobre a vida e sobre a importância de aceitar-se um presente de Deus, seja o que for. Isto parece fácil demais com a vida dos outros. Mas é certo que as pessoas precisam aprender a assumir responsabilidades, mas cabe à equipe de saúde auxiliar neste caminho, compreendendo o quanto é difícil, às vezes por razões mais práticas que emocionais: falta de dinheiro e tempo, real.
Mas isto é óbvio demais para ser comentado aqui.
Eu fiquei pensando na minha atitude. Em todas as crianças excepcionais que eu vi. Fiquei pensando o quanto eu odeio crianças. Acho lindo o bebê rosadinho no colo da mãe ou um pequeno ser aprendendo a correr. Nada mais bonito que um sorriso inocente.
Mas o choro faz a minha alma doer de uma forma que eu não consigo controlar, ou sequer entender. O sofrimento infantil me faz perder qualquer resquício de racionalidade. Isto simplesmente não pode acontecer. Odeio crianças. Mais ainda as excepcionais.
Mas mesmo assim eu me vi, Médico de Família e Comunidade me deparando com o problema. Abraçando um excepcional e chamando de "meu amigo". Pura hipocrisia. Não, não posso ser hipócrita. Tenho que ser sincero em meus sentimentos. Este é o meu conflito.
Enquanto eu vejo o abismo eu temo aquilo em que posso me transformar: frio, calculista, cruel, hipócrita - médico. Mas talvez haja uma opção que não seja absorver o abismo, nem desistir de enfrentá-lo: é jogar-se nele. Encarar o sofrimento humano com a coragem que um suicída encara a morte.
Talvez se eu compreendesse o que torna alguém "meu amigo" eu poderia ser menos hipócrita. Talvez eu também compreendesse que não é o processo que me fará médico que me tornará hipócrita e calculista, talvez eu visse assustado que eu sempre fui assim. Só arrumei uma justificativa para deixar isto transparecer.
Gostaria de recuperar a referência, mas foi-se. Eu li um comentário que dizia que desprezar os textes de QI era como jogar o bebê junto com a água que o lavou (uma expressão que os americanos adoram). O problema não é o texto, não é fazê-lo, não é considerá-lo importante e não é nem o fato de usá-lo como uma determinação objetiva da inteligência. O problema é o valor que damos subjetivamente a inteligência. A nossa dificuldade de definí-la e compreendê-la (argumenta) vêm do fato que a consideramos um padrão-ouro do valor do ser-humano. E não simplesmente uma característica própria do indivíduo, como o é a beleza, a honestidade e a coragem.
A inteligência pode ter vantagens para um candidato a amigo. Um discurso interessante e idéias novas que nos fazem pensar podem ser divertidas. Mas a beleza de um comentário inocente também. Se eu procurar o que deve ser importante nas pessoas encontrarei onde eu menos esperaria. Durante este processo que ainda vai durar alguns poucos anos, espero mudar a ponto de ser sincero em meus sentimentos com o feio, o sujo, o pobre e o burro.
O amor me fará aliviar o seu sentimento.
Sid

Terça-feira, Agosto 08, 2006

De que lado você samba?

Eu vi a viatura da Polícia Civil chegando junto comigo pela emergência. Deixaram o colega e foram. Um comportamento que me chamou a atenção. Parece que também chamou a atenção de uns soldados PMs que estavam aguardando notícia do companheiro ferido. Nem se interessaram muito e dar detalhes. Largaram o cara e foram. Deve ser bandido e não colega, pensei.
Subi ao centro cirurgico e enquanto eu me fantasiava de abacate entrou o anestesista e disse: temos um baleado: policial civil, dois tiros no peito. É... Se fosse vagabundo não chegaria vivo ao hospital. Não dei muita bola à primeira impressão... Fomos conversando amenidades até a sala.
Chegou o tal sujeito na sala. Havia um dreno saindo do pulmão e não parava de colher sangue. Já era a segunda bolsa. O anestesista perguntou as coisas de sempre: horário da última refeição, se ele era alérgico a alguma coisa, se ele já tinha feito alguma cirurgia antes e se ele havia se drogado. Respondeu não com a cabeça a todas as questões, mas na última arregalou os olhos.
Cocaína? Depois de alguns segundos imóvel fez que sim, timidamente, com a cabeça. Isto explicava muita coisa. Estava fazendo merda, foi reconhecido e ainda deu trabalho para a equipe de plantão. Não me admira que tenham largado ele lá e ido embora.
Cocaína é uma merda mesmo. A anestesia simplesmente não pegava. Enquanto isto a equipe corria com as bolsas. "Vai acabar o sangue do hospital", disse a cirurgiã staff. "Não vai não", me disse o anestesista baixo: "tiro de fuzil, é muita energia no impacto, quando perfura já está resolvida a lesão"
"Vai, entuba". Me disse o anestesista já me dando o laringoscópio, com a maior calma do mundo. "Eu nunca fiz isto antes". Era a minha chance de aprender. Acho que ninguém estava realmente preocupado com ele... Muito menos eu.
"O que vamos fazer?", "Ele vai acabar com o sangue do hospital..", discutiam os cirurgiões: dois staffs e uns três residentes, não lembro bem. O anestesista calmamente disse em tom irônico, era finalmente a sua vingança: "calma, vejam isto:" Pressão positiva no respirador e o pulmão colapsado se inflou. Tapou os furos de bala, ele parou de sangrar enquanto a equipe olhava atônita.
Diminui a pressão. Retirou o tubo. Mas nada dele voltar. Deu uns tapas na cara, provocou dor. Nada. Cocaína realmente é uma merda. Disse para a enfermeira: "Monitora ele que eu vou jantar", "Você vem comigo?", me perguntou. Afinal, quem se importa?
Saíndo, a vingança não poderia ser mais completa: "O que eu ponho na ficha?" Perguntou a residente em cirurgia. Afinal, tinha mobilizado a equipe, a sala e material. Precisava justificar alguma coisa. O anestesista nem olhou para trás, apenas disse com desdém: "Escreve qualquer coisa..."
Acho que esta futura cirurgiã, por incrível que pareça, viu que tem um colega em quem confiar na sala.
Sid

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

A bruma das provas

Cada vez que faço uma prova, penso em abandonar a medicina.
Não me aceito tão dislexico. Eu acho que estudo tanto... Não sei se mais nem menos que ninguém, mas o meu dia só tem 24h. Porque as minhas notas estão sempre entre as piores?
Enquanto eu procurava razões neuro-quimico-anatômicas que pelo menos me fizessem me sentir melhor, achei um comentário sobre um filme chamado "Fog of War". Parece que sobre a história de um general americano.
Parece que em algum momento alguém comentava que era impossível dominar, nem ao menos conhecer, todas as variáveis da guerra. Taí uma coisa que fez me sentir melhor, mesmo que não valesse como argumento para me tirar das infindáveis provas-finais...
A consciência do fato de eu não consigo acumular o conhecimento de forma explícita dói menos quando justificamos pela impossibilidade estatística de se avaliar todas as variações possíveis. Não importa o que Damásio diga, não me interesse os seus "marcadores-somáticos", eu prefiro a confiança serena na psicossomática do que a arrogância dos cirurgiões.
Morreremos todos, um dia. Que pelo menos morramos felizes.
Sid

Sábado, Agosto 05, 2006

Deus

"O médico é como Deus"
Andava de ônibus quando escutei isto.
E depois querem nos cobrar humildade...
Sid

Sombra e a escuridão

- Só vemos as sombras. Não há como mudar isto.
Concordei com a cabeça. Sem ao menos prestar atenção. Eu falava mal da administração do hospital e ele queria conversar. Agora já não pode mais falar nada.
Hoje, segundo uma enfermeira, ele tinha acordado assustado: já não via mais nada. Das sombras, agora só lhe restava a escuridão, nem mais a escuridão que não viu pela manhã.
Eu sempre quiz saber qual o trajeto que os corpos dos pacientes mortos faziam pelo hospital, por onde passavam e para onde iam, mas ia ficar para a próxima vez. Não porque estava envolvido demais emocionalmente, mas porque me incomodava mais não estar. Acho que estou pronto para ser um médico.
Sedento por experiências, por algo o que escrever aqui, eu me vasculhava em torno de emoções. Nada. Por mais que eu forçasse era como uma peça de anatomia, era simplesmente "algo" no leito. Uma sombra que se ia. "Não sangra, não suja a mesa. Esta é a grande vantagem do cadáver." Não saia da minha cabeça as palavras do professor.
Às sombras que percebíamos da vida, tentava dar cor e relevo para as dele. De quando eu o vi pela primeira vez: mais um paciente, mais uma alma inferior. Agora eu queria valorizar, tarde demais. Ele fora muito mais inteligente que eu. Aproveitou a oportunidade enquanto eu, mais esperto, não tive a capacidade de aprender com ele o tanto que ele aprendeu comigo: como fala besteira um estudante.
Gostaria de escrever mais. Mas não tenho mais o que dizer.
Sid

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

Ferrugem azul

Uma das poucas coisas que ainda me lembro dos primeiros anos de escola é da estória de um garoto que toda vez que deixava de fazer algo que ele sentia que tinha a obrigação, lhe surgia uma misteriosa ferrugem azul. A estória destinava-se a passar uma mensagem clara: devemos sempre fazer aquilo que deve ser feito. O certo, o justo. Esta estória nunca saiu da minha cabeça, apesar de grande parte da minha vida eu quase que pude sentir a tal ferrugem azul escorrendo por praticamente toda as minhas articulações.
Com esta estória na mente, eu pude perceber que nem sempre fazemos o que é para ser feito. Na maioria das vezes, pelo menos comigo, sem razão aparente. Não fiz e é isto. Acho que eu merecia a tal ferrugem. Noutras vezes tive medo, o que talvez, pelo menos para mim justifique a inação. Com o tempo pude perceber também que agir poderia ser pior, mas para isto precisei de uma grande dose de maturidade, maturidade que ainda faz falta hoje em dia.
Aqui eu sinto isto. Sinto minhas engrenagens emperrando e minha pele ficando azul. Sinto a falta de maturidade que deveria me levar a, no mínimo, me conformar em aceitar as coisas que não podem ser mudadas, me levar a amargar a covardia de nem sequer tentar. Algo como a música do Skank: uma indignação que nem sequer ultrapassa as janelas de minha casa, como uma mosca sem asas. É só um estágio. Desculpa suficiente que deveria agir como desengripante spray para a ferrugem azul, mas não age pois o medo, de também não agir quando não houver mais desculpa, impede.
Por este ângulo a sociedade me parece como um paciente. Pede ajuda, mas é preciso um diagnóstico eficiente e, por que não, responder a, e apenas a, demanda. Caso contrário é como tratar de algo que o paciente não considera um problema: simplesmente estaremos fadados ao insucesso e seremos tentados a seguir a desculpa clássica dos tratamentos que não deram certo: a culpa é do paciente. Mas não é. Não podemos querer que o paciente tenha o comportamento, e a doença, que queremos: se curar é nosso único objetivo cabe a nós responder a demandae agir com convencimento.
Perto daqui apareceu uma ONG. Eles queriam dar aulas de informática para as crianças daqui. Crianças que não sabem ler e têm vergonha de admitir que só contam até 10 (como observei). Ninguém apareceu. Este vale não tem futuro. O povo daqui já nasce indolente, ninguém quer nada.
Isto me lembra o que escrevi sobre o sofrimento. Por um lado vejo em mim a crescer o sofrimento em forma de ferrugem azul: um sofrimento que só está em mim, que vem de EU não agir como EU acho que deveria. Um sofrimento que não vêm, necessariamente, do sofrimento do vale, mas sim da minha decepção frente a realidade que não é a que eu gostaria. Um sofrimento que vêm da impossibilidade de transformar esta realidade de forma a encaixá-la nos meus conceitos de certo e errado, pelo simples fato que tais conceitos são meus, particulares e não da comunidade. Este sofrimento eu preciso destrinchá-lo, eliminar as suas causas e atrofiá-lo até que suma, para que possa assim ver a realidade e perceber o que realmente se passa a minha volta.
Eu quero o outro sofrimento. A empatia. O sofrimento que vêm de perceber o sofrimento real dos outros, ver o que eles realmente querem e precisam, o sofrimento que me levará a agir eficazmente em resposta a tudo isto.

Dor que anda

"Tratar dor que anda é foda..." Me disse com pausa para as tragadas. Médico da família e comunidade, era a terceira ou quarta paciente com a tal da síndrome de Munchausen, doença em que o paciente inventa sintomas. Enquanto andávamos entre as casas nas visitas domiciliares, ele sempre me perguntava: "Como é mesmo o nome do tal alemão?"
Isto me veio a cabeça enquanto ele falava no refeitório. "Minha profissão é curar, e aturar, os traumas psíquicos e sexuais dos outros. É isto que eu faço, curo traumas. Quase nada é físico, e mesmo quando é, o trabalho é sempre de amenizar os problemas mentais. Está tudo na cabeça."
O outro cortou o assunto, para amenizar o ton sarcástico, dizendo que doutor fulano de tal, tinha verificado que na grande maioria dos seus pacientes a raiz dos problemas era psicosomática, esta observação o fizera abandonar a clínica e especializar-se em psiquiatria, hoje tinha grande sucesso na psicanálise. A ironia tomou ainda mais forma quando não me segurei e perguntei a especilidade: "ortodontia".
Risos à parte, hoje penso que não deveria ser tão engraçado. Vejo que certo mesmo era o tal doutor fulano de tal, pois se nos propomos a amenizar o sofrimento dos pacientes, não nos cabe nenhum juízo de valor sobre a origem do sofrimento, nos cabe apenas cumprir a função que nos propomos, e que os médicos juraram cumprir: curar. Qualquer sofrimento é psicológico, uma vez que sua origem, somática ou psicossomática, precisa ser avaliada pela psique antes de ser considerada sofrimento, e o que o paciente nos traz, é simplesmente a sua interpretação particular do que ele percebeu. O que interpretamos com a nossa visão e enquadramos em uma doença patologicamente definida. Este é o ponto em que forçamos para que se encaixe no que queremos o que nem sempre coincide com o que realmente é. Assim fulano de tal é que demostrou sabedoria e humildade: teve a rara coragem entre os médicos de dar valor ao tão desprezado sofrimento psíquico, tirando a necessidade de ser somatizado para que seja valorizado e recebe a devida atenção. Mas porque é tão difícil ter esta coragem?
É por isto que qualquer curandeiro quese preze tem um histórico de cura acima da arrogância médica. Por que nos é tão difícil admitir que as substâncias ultra-científicas que idolatramos podem ter efeitos placebo como qualquer reza? E por ser menos tóxica talvez a reza ainda seja melhor. Por que veneramos os "anos de estudo" que tivemos, quando eles nos obscurecem a nossa visão de que grande parte dos sintomas podem er origem psicossomática? Por que insistimos a tentar adaptar os pacientes aos livros ao invés de permitir que sejam quem realmente são? Assim talvez seja mais fácil o diagnóstico e a cura.
Quando teremos a humildade de aprender com os curandeiros? Eu quero curar, seja o que for.

Culpa

"Eu tenho que pelo menos ir em casa pegar umas roupas."
"Você não vai a lugar nenhum."
"Você não vai sair deste hospital enquanto não estiver curado. Você tem leucemia, de forma que eu nunca vi antes, em quase 20 anos de prática médica."
Ele não pode aguentar o choro, acho que ninguém nesta situação poderia.
"É culpa minha... Eu não deveria ter tomado aquele remédio... Não deveria ter pintado a casa... Minha esposa também ficou insistindo..."
"Pare aí. Ninguém tem culpa de ter leucemia."
"Ninguém tem culpa de ter leucemia"
Uma frase de efeito que me pareceu extremamente poderosa na situação, e que não saiu da minha cabeça.
A nossa relação com a culpa é curiosamente poderosa, acho que deriva da crença de que se algo vem antes de outra coisa, deve ser sua causa, dependendo para isto apenas que façamos uma correlação. Acho que já disse isto quando comentei o behaviorismo, mas o que me interessa aqui é o processo pelo qual racionalizamos a doença. Me parece óbvio que para a doença "existir", ou seja, nos incomodar, precisamos racionalizá-la. Precisamos "inserí-la" no mundo, no mundo que construímos. Isto é poderoso, e importante para o médico conhecer, ou pelo menos ter ciência destes fenômenos, pois, se racionalizamos a doença, também racionalizaremos a cura e, voilá: temos o efeito placebo. Que deve ser nosso aliado, um importante aliado.
Isto parece ser uma vantagem dos curandeiros, pagés etc... Eles estão totalmente integrados ao paciente, a sua cultura e suas crenças. Penso que a sociedade em que vivemos não pode ser separada da forma como enxergamos a doença, como a doença se manifesta e como a expressamos, este último fator não pode ser negliqenciado, pois, às vezes parecemos esquecer que é a única, ou quase única, ferramente para o diagnóstico, é o sustentáculo da anamnese. Cabe aqui o porém, que um "curador" de outra cultura pode carregar uma áurea de magia ou poder que pode gerar um eficiente efeito placebo também, mas isto já é outra questão.
Assim temos a medicina holística: ela deve envolver o paciente como um todo, ou como querem nas provas da faculdade: biopsicosocial. Mas isto não é considerado, a não ser pelos curandeiros tradicionais, que não vêem a doença que não integrada na sociedade. Eu busco ser um médico holístico, este é o meu ideal. Mas os médicos "holíticos" que eu vejo por aí não são (necessarimente) bons (ou maus) médicos, são mentirosos.

O sutra do sofrimento

Um título bastante presunçoso, mas uma das grandes vantagens do anonimato é justamente me permitir ser arrogante sem me importar com a "minha imagem" frente a patrulha da falsa modéstia. Mas a arrogânci aqui neste caso mostra a sua face mais incoveniente, pois não sei mais sobre a filosofia oriental do que aprendi em manuais de auto-ajuda e do consegui obter na base do "ouvi dizer", entretanto este título me pareceu conveniente uma vez que o que pretendo comentar é justamente um comentário sobre uma situação ocorrida e não a filosofia indiana (?) em si. Poderia se chamar "chiquinho" também, pois esta é a história de sua curta vida, mais precisamente a única demonstração que teve de carinho e atenção, fato pelo qual os envolvidos deveriam estar felizes por terem deixado esta pobre alma (?) ir com sentimentos menos ruins deste mundo.
Ela quase atropelou a pequena bolinha de pelo que saltava em seu caminho. Como recusava-se a sair da frente, foi obrigada a parar. Como parou, sentiu-se obrigada a socorrer. Desde então foram três dias de cuidados intensivos, corridas a veterinários e preocupações constantes. E também brigas. Realmente não era conveniente mais um cachorro na casa. Não e não.
As brigas perderam o sentido na manhã do quarto dia. Chiquinho, nome dado em homenagem a São Francisco, a quem foi atribuída a culpa por toda a situação, não resistiu mais uma noite e parou de respirar justo no colo dela, embrulhado em um cobertor que já assistira uma morte anterior, uma parente distante que não resistiu ao câncer. Isto ocorreu em Um dia frio e chuvoso, talvez para que parecesse que todo o universo chorava pela morte de Chiquinho.
Enquanto todos tentavam consolá-la, demonstrando que a vinda e a ida de Chiquinho representava um caminho necessário de percorrer por ambos e que disto deveria ser retirado grandes lições para a vida, ela chorava. Obviamente sofria.
Alguém então lembrou as quatro verdades do budismo:
1- O sofrimento existe.
2- O sofrimento possui causas identificáveis
3- Identificando as podemos eliminá-las
4- Eliminando as causas, eliminamos o sofrimento.
Este mesmo alguém lembrou que o caminho para a iluminação passaria pelo conhecimento e aplicação destas verdades, livrando o homem assim do sofrimento. Não deveria haver sofrimento no Nirvana.
Simplesmente não adiantou. O sofrimento continuou e, aparentemente, não havia nem o interesse em eliminá-lo. Uma recusa formal a se atingir a iluminação? E isto seria essencialmente ruim? Seríamos obrigados a seguir os caminhos dos grandes mestres?
Pode ser. Mas recapitulando a históia eu me lembrei de um mestre budista que, ele mesmo, disse que não queria ir ao Nirvana, simplesmente por que lá não haveria limões. Limões, por serem amargos não deveriam ter espaço no reino da perfeição. Ele gostava de limões. Assim como achava que tornaria-se um homem, e um budista, mais feliz e realizado se, em vez de buscar a auto-realização egoísta, ficasse neste mundo lutando pela salvação de todos.
Acho que no fim de tudo ela, e seu sofrimento, estavam com a razão. Pois, no fim de tudo, acho que posso concluir, ciente das limitações da linguagem, que existem (pelo menos) dois tipos de sofrimento: um que deve ser evitado, pois nos impede de agir e de seguir nossa principal meta na vida: a felicidade, nossa e daqueles que nos cercam, que me parecem interdependentes. Mas a outro, que contribui para a evolução, que ao invés de impedí-la de agir, motivou-a, inclusive a pensar sobre a sua própria vida e a construir uma bela sepultura a Chiquinho, carregada de desejos (expressos) de que todos os seres vivos sejam respeitados e protegidos. Talvez a grande parte deste sentimento deveríamos chamar de empatia. Algo que eu sinto falta em muitos médicos e talvez até em mim mesmo. Algo que eu deveria lutar para ter. Isto talvez porque insistimos em confundir os dois tipos de sentimento. Chiquinho portanto deixou esta lição e levou a ela a seguir à risca o conselho de um médico muito famoso: endureceu, mas não perdeu a ternura. Nem a empatia.

Domingo, Dezembro 25, 2005

Abusado

Mársias foi esfolado vivo. Fiquei surpreso de tamanha crueldade, por mais que metafórica, ter sobrevivido tanto tempo na mitologia apenas para representar uma idéia. Seu crime deve ter sido, de todos, o mais hediondo.
Mársias foi esfolado por ter desafiado Apolo. Representaria a petulância do irracional ao desafiar o progresseo inexorável da racionalidade.
Mais o que isto tem a ver com o tema central do meu blog? Como toda boa e clássica metáfora, a metáfora de Mársias é quase que universal, se não, não teria durado tanto tempo.
Aparentemente, todos aqueles que desafiam o progresso inexorável ou a racionalidade (cuja melhor definição seria a "visão de mundo do poder estabelecido") seriam condenados imediatamente ao esfolamento vivo. A boa notícia é que algumas vezes este esfolamento também é metafórico e só pode ser visto com os olhos da história, o que pode significar muito pouco aos olhos do esfolado. A má notícia é que este esfolamento pode perder o seu caráter metafórico e tornar-se progressivamente real.
Uma imagem que logo me veio à cabeça foi daquele velho em surrado terno com um sorrizo monalísico sacudindo o chocalho e olhando para a câmera. A foto foi tirada mas o velho paracia não entender a curiosidade de queme stava atrás das lentes. Eu também não entendi. Não posso negar a minha decepção com o encontro com o pagé. Espera um feiticeiro cujo poder emanasse naturalmente por seus poros. E não aquela caricatura. Agora eu penso: era o próprio Márseas. Toda atribo, seus rituais e o que sobrou de sua cultura haviam sido esfolados vivos e sentiam este terror entre a carne que sobrara em volta de seus ossos. Aquela carne que agora servia para representar apenas a dificuldade de se adaptar a uma nova cultura carregando como cicatriz uma cultura anterior que ainda não tinha sido digerida o sufiiente para ser substituída. A falta de luta, a privação da próprio confrontamento sugerido pelo esfolado, apenas teria deixado como herança crual a reprodução caricatural do que um dia eles foram.
Nada me tira da cabeça que o que destruiu a cultura deles foi a medicina. nada seria mais perigoso. Nada. O próprio Béria citou todo o processo em seu Psicopolítica. Por que um povo iria acreditar em seu pagé, quando lhe dão de graça aspirina? Quando o pagé de branco chega em um carro barulhento e fumegante. Quando o poder emana daqueles que agora chegaram para "ajudar"?
Talvez alguns não concordem, mas isto foi o que me pareceu.
Era um Mársias esfolado vivo, talvez não na sua opinião, o paciente que eu vi confrontar o psiquiatra. "Doutor, eu não quero mais tomar o remédio."
"Você é quem sabe. Você deve assumir as responsabilidades de sua decisão, e todos os riscos. Mas quem define o tratamento é você mesmo. A vida é sua" etc, etc, etc...
O paciente simplesmente respondeu: "Mas o sr. não disse tudo isto quando me receitou... A responsabilidade, então, não era minha?" Foi suficiente petulância para o esfolamento. Ora, quem era ele para responder assim ao doutor? Um ignorante! Afinal a única preocupação do médico era com a própria saúde e bem estar do paciente, e agora esta!!! Esses pacientes! Quem eles acham que são?
Eu vi isto quando tive que optar pelo tratamento conservador ou cirurgia na perna. As opções: tratamento conservador: três meses de gesso.
cirurgia: em um mês eu estaria jogando futebol.
Dois meses depois da cirurgia, eu ainda não ando. Daqui há um mês me disseram que eu tiraria a muleta.
Mas parece que Apolo ganhou a disputa por meios poucos leais. Isto nos levaria a um juízo de valor. Ou não. Talvez isto nos leve a conclusão que a vitória da "racionalidade" (dominante) seria inexorável, o que excluiria (para todos os fins práticos) qualquer juízo de valor. Assim, alguns são esfolados, mortos e torturados - alguns literalmente - mas a humanidade segue seu curso. Tem que ser assim.
Será? Muito em breve, eu serei - de fato e de direito - o próprio guardião desta racionalidade: um médico. Mas eu acho que tem outra forma de se ver o mundo e de se relacionar com ele. A mesma racionalidade que impõe o esfolamento aos que a negam confere o poder soberano aqueles que possuem o conhecimento esotérico do mundo apartir da divisão deste em partes estáticas, cuja mudança implicaria necessariamente na transformação daquilo que "é" em qualquer outra coisa.
Tal poder é político, no sentido que ele só existe quando existem aqueles que acreditam e se submetem. Assim, não é único. E não é o que eu quero. Eu quero é entender o paciente, em sua própria racionalidade, consciente que é ele, e não eu, o maior especialista e verdadeiro conhecedor do seu sofrimento, assim como o único verdadeiramente capaz - e poderoso - para combatê-lo. Quero entender o paciente como um processo dinâmico em constante transformação, cuja fronteira entre o que ele é e o que está em sua volta nem sempre é tão bem delimitada. Quero ser, no máximo, um estímulo a cura. Não quero curar, quero despertar o poder de cura e a autonomia.
Eu acho que é possível. Será?
Sid

Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

Promessa

Agora sou paciente.
Um tanto quanto impaciente.
Eu fiz tudo que ele disse, e ele disse que estaria consolidado em um mês.
Um mês depois ele disse mais um mês.
Revolta. Não vou mais obedecê-lo.
A revolta passou. Acho que ser estudante de medicina me deu a "responsabilidade" de agir certo, pelo menos aos olhos dos outros. Talvez eu esteja apenas sendo sensato, já era hora mesmo.
Tenho que me lembrar sempre: quando eu estiver com o jaleco branco, não devo fazer promessas.
Sid

Paciente

Fui atropelado.
A cena fica indo e voltando na mente.
No local do acidente, fiz o que me disseram: tateei toda a perna e testei os ossos. Apenas dor, sem barulho.
Cheguei no hospital, eu disse dói, mas a perna não quebrou. O médico confiou em mim, analgésico e volta para casa. Mas eu quero um Raio-X. Perna quebrada.
Mudo de hospital. Vem a médica: "você não vai entender o que eu vou falar, mas..." Eu entendi mais do que ela pode imaginar, só não entendi a cara amarrada ao pedir uma segunda opinião.
Emergência talvez não seja o lugar para relação médico-paciente.
Ortopedistas eu acho que nunca quebraram a perna.
Mais uma lição extra-classe.
Sid

Homeopatia

Hoemopatia não é melhor que placebo, anuncia a "ciência", como parecem querer alguns.
Mas o estranho é que a prática clínica está recheada de curas advindas da homeopatia em pacientes desenganados pela medicina científica alopática.
Estranho, mas eu chego a conclusão que isto que estamos aprendendo na faculdade é pior que o placebo. Perdendo meu tempo à toa.
Acho que eu tenho que aprender muito com a homeopatia, mesmo que queira me tornar alopata.
Sid

Segunda-feira, Setembro 05, 2005

Amor de mãe

Férias.
Resolvi fazer um estágio com Médico de Família.
Mas primeiro foi preciso chegar lá.
Cheguei tarde em uma cidade no caminho. Vim de carona em um caminhão de boi. Arrumei uma pousada para ficar, mas estava sem sono. resolvi dar uma volta.
Na cidade só tinha um lugar onde me serviriam algo àquela hora: lá nas primas.
Tão logo cheguei na casa delas começou a chover, e com a chuva veio o frio.
Sentei e pedi uma cerveja. Ganhei grátis uma compania. Me disse que seu nome era Dayse. Tinha um casaco grosso e resolveu me abraçar. Por que não, estava frio mesmo.
Conversamos sobre tudo: já tinha sido casada, mas largou o marido, casou sem gostar dele, para fugir de casa, em outra cidade. Disse também que lá na cidade só havia uma profissão que ganhava mais que puta: eles pagavam R$ 5.000,00 para lavar e arrumar defunto no cimetério da cidade, mas ela tinha medo. Até hoje não sei se acredito.
No pequeno e apertado bar além de nós ainda tinha mais 4 meninas e uma senhora, a dona, acho. Uma das meninas parecia ser bem nova, mas não me arrisquei a perguntar a idade, também não sei se acreditaria na resposta. Além do que, hipocrisias à parte, certamente tirar ela de lá não resolveria nada para ninguém.
Ainda tinha dois bêbados e um outro rapaz. Este só olhava. Não expressava nenhuma emoção. Durante todo o tempo que fiquei lá não disse uma palavra ou manifestou qualquer reação. Segurança? Cafetão? Gigolô? Não perguntei também... A aparente calma do lugar escondia certamente a verve violenta de quem é acostumado a trabalhar duro para conseguir o pouco que tem. Manchas de sangue na parede e no chão, me lembravam isto.
"Tinta vermelha" disse minha amiga tentando mudar de assunto. Não era. Não havia um canto sequer pintado de vermelho. Não perguntei mais. O bêbado mais chato riu e disse que lá eles costumavam a sortear "um Escort", ou foi isto que eu entendi. A piada não agradou e eu entendi o que eles sorteavam eram "uns cortes".
Este era chato mesmo. Toda hora tomava um esporro. Oferecia valores bem acima da miédia para o programa R$ 50,00, ela disse que em geral fazia por R$ 15,00. Mas elas recusavam e xingavam ele. Ele exibia a nota, mas não adiantava. Parecia que a brincadeira divertia ambos os lados...
Já o outro, a minha amiga disse que tinha pena dele. Não saía de lá desde que a esposa o abandonou, e ela o abandonou justamente porque ele vivia bêbado. Algo tinha que ser feito, pensei. A vida é dura demais para se viver, acho que uma das funções do médico é ajudar as pessoas a ficarem neste planeta.
Pensava sobre isto quando chegou um monza "tubarão", com aspecto de novo, bem cuidado. Dele desceu uma senhora que entrou no bar sem olhar para os seus frequentadores e foi direto na moça mais velha.
Perguntou quanto o rapaz devia, pagou, pediu que tratassem ele bem - como vinham fazendo até então - agradeceu por tudo e disse que se responsabilizaria por qualquer despesa dele.
"É duro ser mãe" disse ela. "A sua mãe se preocupa muito contigo?", me perguntou. Eu ri, e disse que a tinha feito sofrer muito, mas que achava que ela agora tinha um certo orgulho de mim. Aí eu perguntei "e a sua?", tão logo eu disse isto, antes de esperar pela resposta eu já estava arrependido. Ela simplesmente disse: "muito..."
Enquanto isto, levaram o garoto lá para dentro e lá ele deitou um pouco. Continuei conversando com as meninas. A maioria nada falava. Só a minha amiga que comentava sobre tudo: política, a cidade, tudo...
Perguntou o que eu fazia. Se eu dissesse "estudante de medicina" certamente ela criaria um falsa impressão da minha disponibilidade financeira, daí eu disse "enfermeiro". Quiz saber o que eu fazia, como, onde e porque... Inventei estórias fantasiosas sobre resgate e emergência.
Fomos interrompidos por um grande barulho vindo lá de dentro. O tal rapaz havia caído. Ela sugeriu que eu fosse dar uma olhada.
Entrei pela primeira vez em um quarto de bordel. Não posse negar que fiquei impressionado. Fora o sangue nas paredes e no chão com o qual eu já havia me acostumado eu fiquei surpreso com as camas espalhadas separadas por panos velhos e rasgados.
Ainda tinha mais uma menina que eu não tinha visto, estava atendendo um cliente, o som alto do bar não tinha deixado eu perceber, mas agora eu via e ouvia, por entre os panos. Eu imaginei quando duas ou mais camas estivessem ocupadas... Deve ser difícil se concentrar assim.
Passei por cima de engradados de cerveja pelo chão e cheguei até a cama onde ele estava. Deitado perto de um armário com a porta quebrada, onde havia um urso de pelúcia rosa e vidros de perfume. Na parede fotos de artistas da TV. O lugar fedia a suor, mofo, poeira e perfume.
Cheguei perto dele, olhei seu rosto inchado e vi um grande hematoma acima do olho, manchas de "sangue pisado" iam desde a têmpora até a fronte, além disto ele tinha um pequeno corte um pouco acima do nariz, de onde escorria algum sangue. Pedi uma gaze e fiz um rápido curativo. Quanto ao hematoma eu sugeri um Rx. Sua amiga disse que era de uma queda anterior e que ele já havia tirado uma chapa. Estava tudo bem, disse ela.
"O que você vai fazer por mim?" ele me perguntou enquanto eu fazia o curativo. Pensei na função do médico de aliviar o sofrimento. Pensei em antidepressivos, psicoterapia, CAPS... Eu sabia que algo precisa ser feito. Sabia também que podia ser feito. Pensei no que eu poderia fazer. "NADA", disse. "Só quem pode fazer alguma coisa por você é você mesmo"
Acho que fiz o melhor que eu poderia. Pelo menos o olhar de aprovação da moça que estava cuidando dele me animou. A vida é dura e o mundo é cruel, preciso sempre me lembrar disto.
Sid

Quarta-feira, Agosto 03, 2005

Playstation

Como se não tivesse nada melhor para fazer, resolvi brincar um pouco - e ir jogar Playstation.
Tomei um susto quando reparei que o brinquedo não estava ao lado da cama, ao invés disto ele estava olhando pela janela. Chorando.
"A Juma morreu" "..." "Quando eu estava no CTI. Minha irmã só me disse agora."
Ele tinha sido um homem forte. Mestre de obras. Imaginei um gigante aos berros com a peãozada. "Filho da puta! Tu não sabe nem virar cimento? Tem merda na cabeça!?" Mas ao invés disto, eu tinha na minha frente um ser magro e frágil, apesar de alto, que chorava até vendo novela. Gostava de conversar comigo, mas só sobre o que tinha lhe acontecido, fisiologicamente. Quando eu tentava mudar de assunto, falar sobre outra coisa que não o seu deteriorado corpo ele mudava de assunto. "Aqui no hospital a gente não sabe o que está se passando lá fora."
Percebi rápido que o erro era meu. Só se pode falar - e pensar - sobre o que está em nossa mente. A vida dele se resumia ao hospital. A minha não. É preciso que se compreenda isto, mas é tão difícil! O único referencial que possuo é a minha própria mente, que eu vejo recriando as mentes do paciente mas baseada na única coisa que ela se pode basear: a nossa própria mente. Acho que tenho que procurar sentir mais e analisar menos. Não por razões esotéricas, mas por que a análise só pode ser feita sobre conhecimento prévio. Sentir eu não sei. Não custa nada tentar.
Tento também, às vezes, imaginar a minha imagem na mente dos outros, construída a partir do pouco que eles percebem de mim. Faço então o jogo inverso: lembro de quando briguei e quando chorei. Quem só viu uma parte acharia a outra contraditória. Assim compreendo melhor ele. Frágil. Mas que sempre cultivou nos outros a imagem de forte, mas nem isto agora consegue. Se já não é mais o mestre, só lhe restou agora o papel de doente. Sobrando-lhe como única forma que se relacionar com o mundo - e até mesmo de ver o mundo - o papel de paciente. A espera da morte. Juma foi mais rápida. O próximo seria ele.
Me lembrei do meu avô cujo único sorriso à beira da morte foi ao ver o Leão. Filhote, com o rabo abanando e querendo morrer. Quem não sorri para um filhote? Por que Juma não pode ir lhe visitar como toda a família pode?
Sid

Sexta-feira, Julho 29, 2005

MEMENTO MORI

Mandaram que fizéssemos uma campanha de prevenção da hipertensão arterial. Vinham os pacientes, as fichas médicas, tirávamos a pressão e aconselhávamos. Se persebêssemos que o caso seria de terapia medicamentosa, era só chamar a preceptora.
Já tinha-se, e muito, deixado de ser novidade, quando peguei a ficha de um sargento da polícia militar. Terceiro sargento, cabelos brancos. O rosto mostrava anos de soldado. Na ficha estava que estes anos marcaram mais que o rosto: 23 perfurações de bala. Perdeu rim, parte do intestino e toda a felicidade de viver.
"O senhor deveria controlar a pressão arterial?"
"Por que?"
"É uma das doenças que mais mata no país."
"E daí?"
Sid

Fantasmas

"Eu quero ir morrer em casa."
Sempre imaginei que eu ia, mais dia, menos dia, me deparar com esta frase. Imaginava também que seria no CTI. Admito, entretanto, que não me comoveu tanto quanto eu imaginei que ia. Ou a banalização da frase já me anestesiou ou entendi o raciocínio do paciente. E, a partir daí tirei minhas próprias conclusões.
"Aqui todo dia morre um, estou aqui há quase uma semana e já foram 5."
"O próximo vai ser você." Disse olhando o paciente ao lado, que esboçou um sorriso. Se eu fosse tentar me botar no lugar destas pessoas, acho que nada disto me pareceria tão surreal.
Olhei para as "janelas" fechadas com papel opaco, e as luzes fosforecentes, frias, eram 2 da tarde, mas se fossem duas da manhã não seria muito diferente.
"Quando a velha daquele leito se foi, eu vi os médicos e enfermeiros em volta, tentando fazer alguma coisa, e ela tentando entender o que estava acontecendo. Só que ela estava no teto, olhando para baixo. Sem entender nada."
"Acho que os mortos daqui são muito assustados. São estes médicos que enganam a gente o tempo todo. Você sabe, eles mentem para a gente. Falam baixo quando lêem os exames, para a gente não escutar mesmo."
"Olha: desde que eu vim para o CTI eu não posso mais me mover. Tem enfermeira para tudo. Quando eu estava na enfermearia eu ia até ao banheiro sozinho. Aqui tem um mulher até para lavar o meu cu."
"Eu tenho um sobrinho que é fisioterapeuta. Ele disse que eu não posso ficar assim. Ele se propôs a vir aqui, mas o doutor disse que o Hospital me enviaria um fisioterapeuta e até agora, nada."
"Aqui a gente tem a enganação de que vai ficar bom. A gente tem esta ilusão de saúde, mas estamos morrendo. Enganados. Esquecidos. Infelizes."
"Minha casa é cheia de gente. Cachorro. Gato. Tem um monte de vagabundo lá que eu sustento, toda hora sai uma porradaria. Faz a gente se sentir vivo."
"Aqui eu fico nesta cama. Tiraram o seu celular e a minha TV, disseram que o barulho incomodava os outros. Tudo bem... Acho que encomoda mesmo. Você sabe qual o horário que pode vir alguém? Só das 4 às 5. Uma hora. Todo dia, só aquele horário... E quem vem? Quem se dispõe a vir até aqui?"
"Acho que fecharam as janelas para a gente não pular. Olha: não faço questão de mais alguns meses assim. Já vi muita gente morrendo aqui, e eles me disseram que estão mais felizes agora. Eles disseram para eu não ficar enrolando não. Ir para casa me despedir de todos e ir encontrar com eles."
Saí do CTI estranhando minha reação. Eu queria estar comovido. Chorando, quem sabe? Grandes e fortes emoções. Nada. Estava calmo. Apenas tinha entendido o recado, entendi a lógica da conclusão. Entendi até que o stress fizesse o paciente delirar. Afinal, espíritos, não existem. Não em um hospital.
Fiquei pensando também em quanto é difícil entendermos o que se passa na cabeça do paciente. Conhecemos muito pouco deles, em todos os aspectos. Nos iludimos que temos uma noção do que ocorre quando na realidade apenas reproduzimos de forma fractal o pouco que sabemos até formar uma imagem verossímel da realidade. Mas não sabemos nada.
Fui procurar o médico responsável. Sugeri a baixa do paciente. Impossível, disse ele. Quanto estava saíndo, perguntei: "Doutor, existe algum impedimento para que ele faça fisioterapia?".
"Ele está fazendo."
"Ele disse que não"
"..."
"Merda... Por cadê a porra do fisioterapeuta?"
("Cadê a porra do pedido?")
Fiquei pensando. Quanto custa um fisioterapeuta? Quanto custa toda aquela parafernalha no paciente? O que importa mais: mantê-lo vivo ou mantê-lo confortável? Uma janela aberta... Vento... Sol... Tudo isto é de graça.
Por que nos iludimos que somos imortais?
Sid

Segunda-feira, Julho 25, 2005

Contra-transferência

Fui conversar com o paciente. Um senhor idoso e alegre. Tinha trabalhado na indústria naval, trabalho este que o deixou surdo. Como eu. Não escutava nada do lado esquerdo. Como eu. No meu caso tinha sido o estande de tiro no quartel, no caso dele as chapas de aço que se chocavam.
Tinha acabado de sofrer uma cirurgia no estômago. Coisa normal. Fui perguntar o que houve, mas não imaginei que a resposta me chocaria tanto.
Tinha um vizinho que o perseguia. E o xingava insistentemente. O ofendia e o observava. De início imaginei que ele tinha se metido em uma briga. Um tiro ou uma facada. Teve sorte, imaginei.
Mas ele continuou a narrativa, contou-me que o tal vizinho colocava escutas e câmeras escondidas por toda a sua casa. Desmontara a TV, mas o tal vizinho fora mais esperto, abriu-a antes e retirou a câmera antes que pudesse provar a família que estava certo. Mas ele o perseguia insistentemente. Aí ele me disse que tomou um vidro de cola. Precisava punir o vizinho.
Acabou me escapando uma pergunta talvez não tão óbvia quanto pareça: porque ele tomou cola se queria punir era o vizinho? A resposta me fez tremer: O vizinho tinha chegado ao limite do tolerável: disse que ia atacar sua netinha com quem ele morava.
Não aguentei a resposta. Era "óbvio", pelo menos para mim, que não havia vizinho nenhum, mas provavelmente uma esquizofrenia. Se ele tomou veneno para punir o "vizinho" que iria atacar a sua neta, minha dedução imediata é que a garato estaria correndo perigo, tão logo ele saísse do hospital. Pensei em matá-lo.
Quatro anos servindo no Operações Especiais, e nunca veio a oportunidade de uma missão real. Enquanto eu estudava para o vestibular, meus colegas estudavam para a polícia. Passaram, alguns, e vieram com aquelas histórias de como salvaram o mundo, e eu?
Agora eu tinha a minha oportunidade: um estrupador pedófilo em potencial.
Matá-lo certamente envolveria um planejamento que não seria viável na ocasião. Assim procurei o responsável do andar, que, como todo cirurgião, atendeu-me com o desdém que um acadêmico assustado merece. "Você ainda tem muito que aprender. Vou te dizer uma coisa: o tal paciente é esquizofrêncio, ele não segue a nossa lógica. Estamos em final de semestre. Você não tem nenhuma prova? Vá para casa estudar que você ganha mais."
Saindo do hospital vi dois pacientes conversando. Reclamavam dos médicos e do sistema de sáude, claro, como é comum aos pacientes. Um deles disse: "Queria ver se este doutorzinho faria isto comigo se eu fosse bandido." Aquilo foi como uma facada.
Será que eu iria ter a mesma vontade de matar, não um velho, mas um traficante e conhecido estrupador? Sei que certamente teria, mas agiria da mesma forma? Teria a mesma coragem?
Talvez como uma desculpa hipócrita imaginei que eu o correto não seria eliminar uma vida, mas sim o sofrimento nela. Talvez buscar a cura para os ímpetos de violência sexual. Mas isto é hipocrisia e covardia. Pode até ser verdade e ser o correto, mas o que me levou a esta conclusão não foi nada mais que a covardia.
Fui para casa estudar, era realmente a melhor coisa a fazer.
Sid

Terça-feira, Junho 14, 2005

CAVEIRA

Eu tenho uma caveira pendurada na parede do meu quarto. Duas, aliás. Uma em tecido emborraxado outra em metal. Já usei elas no peito. Me disseram que marcaria o meu coração. Já acreditei nisto.
De certa forma marcou. Por tudo aquilo que decidi estudar medicina. Sonhava em estabilizar um paciente animado pelo som de baterias anti-aéreas e a equipe de enfermagem em conduta de patrulha. A dificuldade em passar para uma universidade federal foi aos poucos mudando os meus interesses. Talvez tenha ficado mais maduro.
Quando ele entrou na sala, na sua ficha estava lá. Perguntei. Ele respondeu: paraquedista em 1983, comando anfíbio em 1984. Estranhei o meu comportamento, me empolguei mais do que acho que deveria, e do que acho que me empolgaria. Achei que devia ter vergonha disto.
Na realidade eu disse a ele que tínhamos aprendido a "deixar o corpo" e contar com a "moral" para sobreviver. Não tínhamos. Ele deixou isto claro com o desdém da resposta.
Polimiosite. Já começava a sentir o pulmão. Me lembrei de um refrão: "Eu já estive no inferno/E lá não tem fogo não/ Tem é muita água e enche o meu pulmão". A pior sensação que eu já tive foi tentar puxar o ar e só vir água. Não disse isto. Já tinha entendido a mensagem: o pior que fosse o charlie-charlie você sabe que tem um fim. Polimiosite não. Não perguntei, mas ele disse: era melhor morrer com uma bala.
Aquilo me marcou pois às vezes você acha que pode mudar com uma palavra, que tem uma idéia brilhante que ninguém pensou, mas não é assim. Dependemos da nossa interpretação dos nossos sentidos para reconstruir o mundo em nossas mentes e podermos trabalhar com ele. Esta reconstrução, para sair algo de útil, é então comparada com o nosso único padrão possível: nós mesmo. Acho que temos que trabalhar com a incerteza, pois não somos um padrão uniformemente confiável. Tão pouco confiável que, às vezes, este padrão falha até para nós mesmos.
Saímos de lá, conversamos sobre o paciente. Ele é forte, vimos isto, é louvável como consegue atravessar pelo que está passando com a impassibilidade que demonstra. Vimos ele saído do consultório, indo para casa e agindo como agiu na nossa frente: forte, impassível.
Agora eu penso: temos que lidar com a incerteza. Talvez ele tenha chegado em casa, onde ele é tão fuzileiro naval como um dia foi criança, bebê, frágil e indefeso. E chorou. Nunca saberei. Eu nunca estive no inferno.
Sid

Terça-feira, Junho 07, 2005

Como ser um campeão do mundo

Hoje fiquei acompanhando a equipe de enfermagem na pré-consulta pediátrica.
Não sabia que havia este tipo de coisa.
Ao contrário da consulta médica, e bem diferente de um hospital de grande porte, a porta fica aberta. Isto para mim soou estranho. Mais estranho tem soado o meu estranhamento. Por que fechar a porta? Por acaso alguém que estaria lá fora é alguma ameaça? Tudo bem que em certas consultas, a privacidade é essencial. Mas em outras não.
A relação entre as mães e a enfermeira pareciam ser as melhores possíveis, o que me fez lembrar a importancia deste profissional. E o valor que devemos dar a eles. Os pacientes dizem ao enfermeiro (ou ao agente de saúde) coisas que não diriam ao médico. Algumas vezes porque o médico não lhes dá entrada. Talvez os médicos os temam. Gente pobre e feia dá medo.
Um exemplo foi dígno de nota: estávamos pesando e medindo um garoto, quero dizer: a enfermeira o pesava, eu apenas brincava com ele, quando me entra uma médica. A mãe do garoto fala para a tal doutora: "Você, por acaso, se chama Luiza?". Sem resposta. Pacientes, muitas vezes são invisíveis. Outra tentativa, desta vez mais enérgica. A resposta veio em um tímido "sim" que mal pode esperar para ser emitido ainda enquanto a doutora estava na sala. Gente pobre e feia dá medo. Espero aprender a lidar com este meu medo.
Depois veio a mãe do garoto hiper-ativo. Me pareceu narcoleptico. O neurologista receitara neuleptil. A mãe estava preocupada, o garoto antes não prestava atenção as aulas pois era hiperativo, agora ele simplesmente não conseguia ficar acordado. Isto deu motivo sufiente para o psicólogo condenar o médico. Não acho que vá haver vencedor nesta briga. Também não me pareceu que a melhor estratégia farmacológica seja esta. Mas, lembre-se que estou no SUS. Nada aqui é o melhor. Mas havia algo de errado. O garoto, de 7 anos, acusava os pais de o espancarem e o drogarem. Drogar, bom, davam o neuleptil para ele. Quanto a espancar eu pedi para ver as marcas. Não havia. Ele disse que foi há muito tempo. A enfermeira disse que sempre ele dizia a mesma coisa, mas nunca percebera marcas. O garoto deve estar sofrendo muito, ninguém inventa uma história destas à toa. Perguntei se foi investigado desde o problema da moda, abuso sexual, até outros tipos de sofrimento, como morte ou traumas na família. Não, era mais um. Neuleptil nele e ele não pertuba mais. Embrulha e manda.
Havia um armário de medicamentos com a enfermeira. Alguns deles controlados. Perguntei para que serviam. Pergunta imbecil. Para dispensar, ora. Para pacientes? também. Uma faxineira entrou na sala. Disse que tinha dor de cabeça, estava brigando com o marido e não dormia. Novalgina e Dalmadorm. Para que se apurrinhar indo ao médico. Afinal, quem você acha que ganha amostras grátis, disponibiliza em um armário de vidro aos cuidados da enfermeira? é claro que diagnosticar e receitar são atos médicos. Alguém duvida? Ou por que você acha que a faxineira do posto de saúde não procura o médico?
Pacientes são invisíveis e dispensáveis. Especialmente os do SUS. Neuleptil, benzetacil, quadriderm... Rápido e simples. Para que um diagnóstico apurado?
Doutora Plata eu ainda não tive oportunidade de conhecer. Ainda não faltei nenhum dia ao posto. Eu vi a enfermeira remarcando seus pacientes. Era o quarto plantão que não aparecia. Desta vez era asma. Coitada. Doutora Sônia, chega sempre sorridente, brincando. Atende todos os seus pacientes e eles a adoram. É uma das únicas que cumpre o seu horário de maneira razoável. Trabalha das 13:00 às 18:00. Chegou no posto 16:20. Quando eu saí às 17:00 ela atendia o seu último paciente. Médica exemplar.
A enfermeira esta revoltada. Acabara de ter uma reunião. Será instalado um cartão de ponto (para a equipe de enfermagem, claro) e o horário deles, que antes era até as 16:30 quando não são mais aceitos pacientes, salvo emergência, será extendido até as 18:00. A médica, chefe o posto, disse que "quem não quizer trabalhar" pode colocar-se à disposição. Ainda bem que tem gente que não precisa.
Médicos são tratados diferente. Quem não se sentiria diferente?
Acho que um dia terei que administrar um PSF. Pelo menos assim espero. Sonho em liderar um. No quartel o sargento me ensinou a diferença entre liderar e administrar (na minha opinião o Sgt Dorneles não fazia uma coisa nem outra, mas tudo bem). Eu pensei no Flamengo. Sou muito novo para saber se esta história é verdade ou não. Mas me disseram que o Flamengo só foi campeão do mundo por que o Zico, que era o melhor jogador, era o primeiro a chegar nos treinos e quem mais se esforçava. Talvez o time tenha ganho pois tinha um líder.
Sid

Domingo, Maio 29, 2005

Já me acharam eu aqui... (clínica, preenchimento e behaviorismo)

Querido diário, hoje descobri que tenho (ou pelo menos, tinha) um leitor.
Pelo menos um leitor! Não posso negar que tenha ficado lisongeado, apesar de achar que não fui capaz de demonstrar isto. Mas de certa forma duvido que o referido leitor mereça.
Isto por que achei, no mínimo, estranha a forma como ele se aproximou. Criticou a forma como me apresento, e fez ataques diretos a minha pessoa, pois, segundo seu particular juízo, ele acha que meu anonimato é errado, em si. Pois considerou isto como covardia. Devo estar errado, pois não sou professor da UFRJ. Se fosse teria, assim como ele, a capacidade de julgamento universal. Lamentei o fato que comentários ad homini não eram exatamente o que esperava com este blog.
Chamou-me de doente. Disse que ele era a cura.
Acho que já ouvi isto em algum dos filmes que preferia não ter visto. Mas não posso negar que é uma excelente sugestão de cantada para a próxima chopada.
Mas ele, conscientemente ou não, me fez imaginar uma questão importante para a clínica, que, afinal de contas, é o tema deste blog. Além do julgamento do mérito de um indivíduo considerar-se capaz de estipular que outro é essencialmente ou está em um estado, ou possui condutas que deveriam ser mudadas, a questão que penso em discutir agora é como se dá este processo.
Vou tentar expor o que eu considero clínica:
1 - Um indivíduo detecta conscientemente algo que ele julga capaz (e necessário) de ser mudado.
2 - Este indivíduo racionaliza este "algo" que o transforma em um discurso mais ou menos inteligível.
3 - O mesmo indivíduo transmite este discurso a outro que ele considera capaz de ajudá-lo em seu objetivo, chamemos este último indivíduo de "médico".
4 - O médico, ao escutar o discurso preparado pelo primeiro indivíduo, o racionaliza, e tenta incluí-lo em uma categoria pré-definada, uma, digamos, doença anteriormente patologicamente definida como entidade estanque e abstrata.
5 - Isto feito, constrói meltamente um mecanismo de cura, uma estratégia de ação.
6 - Racionaliza esta estratégia e formula um discurso que visa "convencer" o primeiro indivíduo de sua estratégia, e, assim, transmite a ele.
7 - O primeiro indivíduo, escuta o discurso do médico e o, digamos, re-racionaliza dentro de suas crenças e valores, reconstruindo inconscientemente a estratégia proposta pelo médico.
Talvez tenha esquicido de algo, mas acho que podemos considerar isto suficiente para prosseguir.
Se a clínica se dá realmente por este processo, podemos admitir que passa por processos de racionalização de duas pessoas diferentes, que os fazem de acordo com sua visão de mundo própria. Isto já seria complicado o suficiente se eu ainda não levantasse uma questão que o e-mail recebido pelo tal "Professor da UFRJ" me levantou.
Dr Ramachandram (eu acho que é assim que se escreve), um neurologista indiano radicado nos EUA (admito que se não fosse esta minha fascinação pela saúde pública pensaria em seguir a carreira de neurologia) propôs que "vemos" realmente muito pouco do mundo que se mostra a nós. A grande maioria das coisas "preenchemos" como preenchemos o vazia que deveria se formar em nosso ponto cego da visão.
Ora, o nosso herói desta postagem, o tal "Professor da UFRJ", sugeriu que eu seria doente apenas baseado nas três ou quatro postagens que viu aqui. Isto me chamou a atenção para o fenômeno demonstrado pelo tal indiano. Acho que temos a tendência de "preencher" tudo que conseguimos absorver do mundo, e este preenchimento é a base do processo de racionalização.
Ramachandram sugere que este mecanismo de preenchimento é eficiente para nossa sobrevivência imediata, mas pode nos levar a erros significativos quando exposto a formas mais elaboradas de exposição do mundo aos nossos processos cognitivos. Aí surgem as tais ilusões de óptica.
Eu imaginei, frente ao pouco que conheço do Behaviorismo, que a formação de ligações entre as coisas que ocorrem, tendo elas ligações ou não (como salivar ao tocar a campainha, que não possui nenhuma ligação "natural" à chegada da comida), é um processo básico, natural e instintívo, visto que foi conservado ao longo da evolução das espécies. Este processo estaria diretamente ligado ao preenchimento sugerido por nosso médico indiano (cujo nome não me arrisco a errar de novo).
Ora: eu diria que o mecanismo básico do behaviorismo, é uma tentativa geral de racionalização. A campainha toca, logo vem a comida. Racionalizado: a campainha traz a comida. Preenchido: construo toda uma teoria na qual a base empírica é que a campainha traz a comida e passo a ver o mundo a partir daí. Assim, a toda campainha que ouvir preencho com a certeza que me trará comida, e a todo barulho que ouvir semelhante a uma campainha (especialmente se estiver com fome) também.
O que isto tem a ver com a clínica?
O cérebro, segundo o mesmo indiano, detesta o vácuo.
Ao racionalizar o discurso do paciente, o médico, através do processo de preenchimento, segundo a sua visão de mundo construída pela interpretação de sua experiência ("interpretação" aí eu considerei frente ao mecanismo inconsciênte proposto pelo behaviorismo), "preenche" o que o paciente não disse (e o que ele não conseguiu prestar atenção ao que o paciente disse, pois captamos muito pouco do que o mundo nos mostra) com uma construção mental que é semelhante, mas não igual, ao que fora percebido pelo paciente de seu próprio sofrimento. Assim como o discurso do médico sofrerá o mesmo processo pelo paciente.
Qual a solução para isto? Eu não sei. Alguém tem alguma sugestão? Acho que somos humanos e imperfeitos. Talvez devêssemos escutar a mesma anamnese várias vezes, assim evitamos erros de nossa (natural) desatenção.
E quanto ao "Professor da UFRJ"? Acho que também houve um erro no preenchimento... Ele certamente racionalizou a meu respeito preenchendo todas as lacunas provocadas por mim ao valorizar a minha privacidade, mas, cometeu erros de "ilusão de ótica" e julgou que eu tivesse alguma "doença", propôs, na maior das boas vontades a tratá-la. Eu preenchi de forma antagônica, julguei como um ataque pessoal, e respondi com a única arma que merecem estes atques: o silêncio.
Sid

Sábado, Maio 28, 2005

Sem dormir

Hoje cheguei no alojamento dos médicos, enquanto me preparava eu escutava a conversa. "Tem é que agradar fulano". "Eu trouxe um monte de canetinhas do congresso e dei para ele". "Eu costumo a distribuir as amostras-grátis que eu ganho no consultório". Prestando mais atenção eu entendi. Trabalham em trezentos lugares diferentes para um salário que julgam justo, precisam agradar a algumas pessoas para poderem se manter na correria. Fiquei preocupado com o meu futuro. No vestibular eles pintavam de outro jeito.
Um dia normal no plantão. Em geral a gente dispensa um monte de gente pois "não é caso de internação". Acho que há algo de errado com tudo isto, afinal eu custo a acreditar que as pessoas busquem o pronto-socorro porque não têm nada melhor para fazer em suas casas.
Uma senhora veio trazida pela família. Não dormia. Insônia não é caso de emergência. Eles, entretanto, tinham certeza que era. Estranho. A paciente ia ser dispensada. O filho ameçaou registrar o caso na delegacia e abrir um processo judicial. "Interna esta velha para esta gente parar de encher o saco", disse a responsável pelo plantão.
Era uma doente crônica. Tentamos explicá-la o porque não era caso de internação: ela deveria procurar o seu médico para que lhe desse uma medicação para dormir. Ele deu. Não surtia efeito. A anamnese parou aí. Foi medicada: o mesmo bensodizepínico que lhe fora receitada por seu médico.
O filho insistia que a paciente tinha falta de ar. A médica examinou. Não tinha. Ora, quem era ele para dizer que tinha, não tinha. O filho disse que só levou a mãe dele lá para que durmisse pelo menos um dia, e, para isto, precisaria de oxigênio. O filho aparentemente não entendia nada de medicina, uma vez que a sua mãe não tinha falta de ar e, consequentemente, não precisava de oxigênio.
Esquecida na enfermaria, fui perguntá-lhe há quanto tempo não dormia: "três meses". Acho que isto justifica o desespero. Quiz saber o porquê. Fui perguntá-la: a medicação a fazia dormir, mas parava de respirar durante a noite. Acordava assustada, e grogue. Era melhor ficar sem a medicação, pelo menos respiraria, ela me disse, mas, afinal tinha ido lá apenas para dormir, pelo menos por uma noite. Tomou a medicação, não conseguiu respirar à noite. Nem teve suporte de oxigênio. Também não dormiu. Passou a noite conversando com a acompanhante da paciente ao lado, e me descreveu, pela manhã, todo o entra-e-sai da enfermaria.
Assim, quando perguntamos como ela estava, a resposta foi clara: "Estou ótima doutora, só quero ir embora para casa". Não tenho dúvida que é melhor ficar insône em casa. Perguntei ao seu filho se ela já tinha tido uma avaliação respiratória, se algum fisioterapeuta lhe havia sugerido exercícios para a respiração. "Fisioterapeuta?".
Voltei, questionei a doutora se por acaso o bensodizepínico não causaria uma depressão respiratória. "É claro que não. Você não estudou farmacologia? É a droga mais segura que existe." A dúvida ficou. Em casa descobri que nem o Goodman nem o Gilman estudaram farmacologia.
Disse que tinha observado que a paciente não tinha dormido. A resposta foi simples, como era de se esperar: "mas aí eu já não posso fazer nada". Esperava ao mínimo de tanta arrogância uma onipotência. Acho que estou errado.
Aprendi em aula que nunca deveria dizer: "eu não sei", pois quebra a confiança do paciente. Aprendi na prática a toda hora dizer: "eu não posso fazer nada". Não quero ser um aluno rebelde, pois se for nunca mais me chamarão para acompanhar clínicas nem cirurgias, quero estar junto dos grandes, quem sabe me farão enxergar mais longe, para além destas dúvidas que insistem em me perseguir? Não quero nunca mais pensar que deveria ser o contrário.
Sid

Domingo, Maio 22, 2005

Assim se desfazem as ilusões

Perguntaram se eu não queria ir acompanhar a clínica de um médico famoso. Quem não iria querer?
Esta cidade, bem maior do que eu gostaria, obriga ao aluno responsável adiantar-se aos eventuais atrasos e chegar cedo. Cedo demais. Sentei-me no ambulatório e, achando que havia perdido precioso tempo, iniciei a leitura de um livro. A vida falou mais alto. á muita coisa acontecendo na espera, coisas que poucos médicos um dia viram. Eu mesmo, devo ao acaso a descoberta.
Logo chega alguém para conversar. Qual o seu problema? Sem querer mesmo saber. E começa: vou morrer. Todos vamos. Mas estou mal. O médico não dá atenção. O médico é grosso. Nem mesmo me mede a pressão. Eu moro longe. Não posso ficar vindo aqui. O bom mesmo seria se morresse logo. Pacientes... Sempre reclamando...
Seu doutor, PhDeus chega. Me levanto, e vou falar com ele. Logo a doutora, sua aluna, se adianta: "Não chamei ninguém, aguarde lá fora." Ele apenas sorri e diz: "É um futuro colega." Ela sorri e se desculpa: "É que tem sempre um chato." E derrepente começo a dar razão aos chatos lá de fora.
Entra o primeiro paciente. 39 anos. Parecia 59. Pelo visto era conhecido. Fraqueza. Reclamava da falta de atenção pela equipe de médicos. Os médicos imediatamente retrucaram que o paciente não segue as orientações. Não segue o tratamento. Há quanto tempo não aparecia na fisioterapia? Como ousava ele reclamar de alguma coisa?
Tomei coragem e perguntei por que ele não fazia fisioterapia. A resposta foi imediata: morava a quase 100km dali, não tinha condições de pegar ônibus e nem pagar um tratamento fisioterápico. Será que seu doutor não poderia indicar um médico ou qualquer tipo de tratamento mais perto? A resposta foi imediata: ele que procurasse, "afinal eu não posso resolver tudo".
Na segunda paciente as reclamações se repetiram. Entrou a filha revoltada. Gritava pelo consultório que havia pelo menos 5 anos de tratamento e nenhuma melhora, ainda por cima agora esta insônia. A resposta foi imediata, afinal a paciente se recusava a tomar a medicação. Assim não havia condições de se tratar de ninguém. Rebeldes, estes pacientes. Será que gostam da condição de doentes , por que recusam a ajudar os médicos. Pronto, um resultado foi atingido: a paciente não melhorou, mas a filha agora estava do nosso lado. Coitada de sua mãe.
No quinto paciente enquanto ele (e eu) se emocionava ao dizer seus problemas e dificuldades entra uns orientandos de pós-graduação. Começaram a discutir a data da defesa da tese. Agosto não podia, Junho era muito cedo. Um contou uma piada, todos riram. Afinal não se viam há algum tempo. Eles foram embora. O desagradável, estraga-prazeres, apêndice insistentemente irritante da doença, a que alguns chamam de paciente, ainda estava lá. Seu doutor perguntou: "Onde estávamos mesmo?" O paciente apenas balançou a cabeça, como que dissesse que já tinha dito tudo. Eu me segurei para não dizer: "discutíamos a relação médico-paciente". Mas a consulta já tinha acabado.
Acho que não preciso ficar chovendo no molhado, tentando me lembrar de cada paciente. Voltei para casa deprimido. Alguém tentou me consolar: "quando você se formar o seu discurso vai mudar e você verá que fará uma diferença maior. Você tentou fazer o que pode". Fiquei com medo. Será que o meu discurso não vai mudar tanto quanto eu me formar que ficará igual ao deles?

Sábado, Maio 07, 2005

Sem novidades no front

Passaram-se uns três meses desde que começou o semestre, e, cheio de experança e vontade de brincar de médico, iniciei este blog. Característica usual de universidades públicas Brasil afora, ainda não começamos o tão esperado encontro com a clínica. O semestre letivo, assim como as outras matérias já começaram, mas como em tudo aquilo que certa classe de seres humanos podem enrolar, só tivemos até agora um encontro com a nossa professora, doravante chamada "preceptora".
Mas não posso dizer que não aprendi nada até agora. Aprendi a tirar a pressão. Admito que tive bastante dificuldade em achar o ponto certo em que pudesse ouvir o pulso do paciente. Cheguei a questionar a minha escolha referente ao futuro profissional. Mas não conseguir tirar a pressão de um paciente talvez não seja motivo suficiente...
Também aprendi que não posso dizer "não sei". Mas eu só sou um aluno, não sou médico ainda, para ser onisciente. Pelo visto, não vou aprender a ser feiticeiro, como sugero o título deste blog, mas Deus...
Achei que tivesse aprendido, até então, que o tratamento deveria ser construído junto com o paciente em um processo de escuta e avaliação onde o conhecimento do paciente deveria ser utilizado para se construir uma lógica de doença e cura e que isto por si só já seria parte da cura.
Mas aprendi que a construção de um efeito placebo deve vir de uma imagem do médico como semi-deus. Especialmente nos serviços de saúde pública de uma grande cidade, afinal é disto que estamos falando: saúde vista como política de massa. Saúde construída sob uma ótica industrial, saúde neo-liberal. É isto que estamos aprendendo, a inserir-se perfeitamente no sistema político que escolhemos (?).
É isto?
Sid

Quarta-feira, Março 23, 2005

Ainda não começou...

Mas vai começar em breve.
A idéia inicial de criar este blog foi seguir a sugestão de um amigo pára que eu fizesse um diário das minhas experiências clínicas como estudante de medicina. O diário, segundo ele, me ajudaria a "fixar" as experiências permitindo futuras referências auxiliando no estudo, isto além de, ao repassar as experiencias escrevendo-as, me ajudaria a rever o cenário me colocando no lugar dos pacientes aumentando a minha compreensão destes.
As tais experiências clínicas ainda não vieram, mas virão em breve e o blog vai ficar em estado latente até lá (uma ou duas semanas no máximo - sei que existe uma multidão de fãs esperando pelas minhas palavras ...)
Bom... Multidão de fãs, talvez não, mas pode ser que no futuro alguém passe por aqui e leia "estas mal traçadas linhas", por isto escolhi um pseudônimo (ou alguém achou que meu nome é "SIDEREUS NUNCIUS" - o mensageiro do espaço estrelar?) , pois assim posso relaixar quanto ao temor de um eventual deslize da esposição de meus pacientes a notoriedade. Para tal, além do pseudônimo a que serão referidos também, pretendo confundir dados geográficos. O leitor atento (caso haja algum leitor) talvez descubra de que cidade escrevo ou a qual universidade estou filiado devido às particularidades de ambas, mas acho que minha parte estou fazendo... Se não, que me avisem.
Aliás, talvez por isto que escolhi fazer um diário em forma de blog e não trancá-lo em um caderninho escondido como as moças de outrora. Gostaria que os eventuais nevagentes que parassem por esta página tempo suficiente para tal deixassem um comentário, seja na parte clínica ou seja na parte estilística. Aos amantes de nossa lingua materna deixo claro que às vezes busco um vocabulário e um estilo, digamos, alternativo, mas não se iludam: é puro pedantismo mesmo. É inútil lembrar-me disto. E quanto a ortografia, eu apenas peço que aturem meus erros e me perdoem.
Faltou apenas comentar o título "aprendiz de feiticeiro"... Mas acho que talvez seja melhor deixar em aberto. Talvez eu o tenha escolhido por ironia. Talvez pela força da expressão consagrada. Talvez por me ver como um atrapalhado ajudante de sábios doutores, com boa vontade mas sem a verdadeira noção dos limites de meus "poderes". Talvez eu ainda pense que as "artes médicas" ainda possuam algo de feitiçaria... Nem eu mesmo sei. Mas como a minha experiência clínica, como eu disse ainda não começou, espero ter tempo para descobrir...
Sid