terça-feira, agosto 08, 2006

De que lado você samba?

Eu vi a viatura da Polícia Civil chegando junto comigo pela emergência. Deixaram o colega e foram. Um comportamento que me chamou a atenção. Parece que também chamou a atenção de uns soldados PMs que estavam aguardando notícia do companheiro ferido. Nem se interessaram muito e dar detalhes. Largaram o cara e foram. Deve ser bandido e não colega, pensei.
Subi ao centro cirurgico e enquanto eu me fantasiava de abacate entrou o anestesista e disse: temos um baleado: policial civil, dois tiros no peito. É... Se fosse vagabundo não chegaria vivo ao hospital. Não dei muita bola à primeira impressão... Fomos conversando amenidades até a sala.
Chegou o tal sujeito na sala. Havia um dreno saindo do pulmão e não parava de colher sangue. Já era a segunda bolsa. O anestesista perguntou as coisas de sempre: horário da última refeição, se ele era alérgico a alguma coisa, se ele já tinha feito alguma cirurgia antes e se ele havia se drogado. Respondeu não com a cabeça a todas as questões, mas na última arregalou os olhos.
Cocaína? Depois de alguns segundos imóvel fez que sim, timidamente, com a cabeça. Isto explicava muita coisa. Estava fazendo merda, foi reconhecido e ainda deu trabalho para a equipe de plantão. Não me admira que tenham largado ele lá e ido embora.
Cocaína é uma merda mesmo. A anestesia simplesmente não pegava. Enquanto isto a equipe corria com as bolsas. "Vai acabar o sangue do hospital", disse a cirurgiã staff. "Não vai não", me disse o anestesista baixo: "tiro de fuzil, é muita energia no impacto, quando perfura já está resolvida a lesão"
"Vai, entuba". Me disse o anestesista já me dando o laringoscópio, com a maior calma do mundo. "Eu nunca fiz isto antes". Era a minha chance de aprender. Acho que ninguém estava realmente preocupado com ele... Muito menos eu.
"O que vamos fazer?", "Ele vai acabar com o sangue do hospital..", discutiam os cirurgiões: dois staffs e uns três residentes, não lembro bem. O anestesista calmamente disse em tom irônico, era finalmente a sua vingança: "calma, vejam isto:" Pressão positiva no respirador e o pulmão colapsado se inflou. Tapou os furos de bala, ele parou de sangrar enquanto a equipe olhava atônita.
Diminui a pressão. Retirou o tubo. Mas nada dele voltar. Deu uns tapas na cara, provocou dor. Nada. Cocaína realmente é uma merda. Disse para a enfermeira: "Monitora ele que eu vou jantar", "Você vem comigo?", me perguntou. Afinal, quem se importa?
Saíndo, a vingança não poderia ser mais completa: "O que eu ponho na ficha?" Perguntou a residente em cirurgia. Afinal, tinha mobilizado a equipe, a sala e material. Precisava justificar alguma coisa. O anestesista nem olhou para trás, apenas disse com desdém: "Escreve qualquer coisa..."
Acho que esta futura cirurgiã, por incrível que pareça, viu que tem um colega em quem confiar na sala.
Sid

11 comentários:

greentea disse...

assim vai o mundo e a medicina que temos... evito médicos o mais possivel . Gosto das medicinas alternativas até onde é possivel, mas noto que muitos médicos estão fazendo um frete enquanto nos ouvem - nos tratam , pensando na hora de ir jantar ou na namorada... Beijos e parabéns pelo blog. Tens uma médica que escreve e tem um blog Impress´~oes e Intimidades linkado no meu blog. Voltarei mais vezes.

greentea disse...

deixei uma surpresa em meu blog...

Anônimo disse...

Gostei da história e da forma como ela foi escrita.
Acredito que toda a vida é valiosa mas cada um tem seu parâmetros e suas justificativas.

Eu não poderia ser médico, pq lido muito mal com a questão de se o mediador da vida. Talvez isso seja um problema com os médicos. Eles se acham os grandes sabedores e fiadores da vida.

Na verdade, bandido ou polícia, drogado ou careta, todo mundo um dia morre. Então... fica no ar.. o que importa mesmo na vida?

Anônimo disse...

Você odeia muita coisa...
Seria uma questão, a vida, algo que devia ser tratado com tanto desdém e frieza?
Ser médico é um exercíco, que deve ser feito com muito cuidado e atenção, pois ser for feito de forma errada, sem as atenções devidas, causa contusões sérissimas tão sérias que não ferem somente que se exercita, mas também quem está por perto.
Mais cuidado...

SIDEREUS NUNCIUS disse...

Desdém não é ódio.
Mas admito que não deveria ter uma coisa nem outra.
Nada disto invalida o seu comentário.
Cuidado... Cuidado com o quê?
Sid

Leila Silva disse...

Olá,

Recebi um e-mail e vim visitar. Achei muito interessante os seus relatos. Abraços

Jussara disse...

Meu amigo, sinto muito, não tenho a intenção de te magoar e nem de te ofender, lógico que não, alias nem te conheço, nem sei seu nome real.
Alias nem sei porque estou aqui escrevendo algumas coisas que é mais provável que achará baboseira, pois parece que tudo em sua vida se transforma em baboseiras.
Não sei sua idade, mais seu comportamento esta idêntico ao comportamento de um adolescente, “um revoltado sem causas”.
Você odeia tudo que te rodeia, talvez odeie até sua própria existência!
Quero te fazer um convite, espero que aceite.
Estou fazendo pós-graduação em holística, pela UNIPAZ, a sede está localizada na Rua Paulo Afonso, 146 – sala 605 - bairro Santo Antônio- BH/MG- (31) 3297-9026 // www.unipamg.org.br // unipazmg@unipazmg.org.br
Se conseguir algum final de semana disponível, poderia assistir alguma palestra comigo, creio que te faria muito bem.
“Precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo”
Espero que consiga entrar em sintonia com sua alma e que seja muito feliz.
Um ótimo final de semana.

Anônimo disse...

Sei que ódio e desdém são coisas diferentes!
No seu texto vc relatou ódio.E ficou claro o desdém com que vc lida com uma vida que está em suas mãos. Independente de ser bandido, policial, drogado ou não isso, pelo menos teoricamente, isso não deveria fazer daquele ser que precisa de socorro melhor ou pior atendido.
Cuidado...cuidado com o ódio, o desdém a frieza...eles, no final de contas, só fazem mal à vc.
Posso ter falado um montede bobeiras no seu ponto de vista, Cid, vc tem todo o direito de achar isso. Aqui só quis expor minhas humildes idéias.
Anna Gabriela

SIDEREUS NUNCIUS disse...

Não acho que você falou besteira.
Tanto que depois até mudei algumas coisas no texto, mas não o básico: depois de tanto tempo trabalhar e ver o sofrimento daqueles que morrem na mão de alguns incosequentes, quando você tem que atuar para salvar um dos inconsequentes, a sua reação vai ser diferente. Querendo ou não. Sei que está errado e lhe dou razão no comentário. Mas não posso dizer que não é assim. O mundo é cruel. Ás vezes tento mudá-lo, outras mudar-me mas outras estou confuso demais para decidir...
Sid

Anônimo disse...

-Colega, sou médico clínico geral e oncologista. Vi, acidentalmente seu blog e fiquei realmente perplexo com sua visão distorcida da medicina. Sou jovem também, não sou religioso, nem moralista, porém percebo que vc enxerga a vida, antes da medicina, como um joguete, um livro espúrio de crônicas, vis na sua maioria. Seus termos, sua parcialidade em relação à vida são dignas dos juízes ou dos carrascos. Possivelmente você não deve se sentir culpado, mas talvez, espero, desconfortável, o que já pode ser um bom começo. Vc não deveria ser médico para bancar o mocinho, não deveria fazer desta arte e ciência um mero instrumento para benefício próprio. Não "espere salvar vidas, nem curar pessoas...". Alivie o sofrimento delas, já é o bastante. Olhe dentro dos olhos, ouça com atenção e dê a assistência digna que vc gostaria de receber. Do contrário tornará sua vida e profissão um fardo, como tantos outros que não tiveram, não quiseram ou melhor, preferiram aceitar o caminho mais fácil: o da ironia, o da indiferença e do desdém. Desejo-lhe boa sorte.
Rodrigo

SIDEREUS NUNCIUS disse...

Muito obrigado pelo seu comentário. Li e reli várias vezes, e percebo uma profunda verdade que eu realmente precisava ouvir: aliviar o sofrimento já é muito. Paliative care, já ouvi isto antes, mas não me marcou tanto quanto quando você disse.
Não acho, entretanto, que veja a vida com um joguete. Talvez deixe isto transparecer, mas é um erro. Me sinto, no entanto, como você disse, incomodado. As vezes pareço cruel, mas estou sendo sarcástico. Dói, como diriam os hipócritas, muito mais em mim.
Sid