sábado, abril 05, 2008

Violino na parede

Tudo que sabia até então era da glicemia de jejum bem elevada e uma leve obesidade abdominal, ao exame físico sem outros sinais que valessem maiores preocupações, o professor, então, me deu aquele paciente com instruções claras: iniciar o tratamento com metformina e uma sulfoniluréia. E claro, a parte mais importante do meu treinamento e do seu tratamento, prover-lhe educação sobre hábitos e dieta.

Se por um lado, em agitados plantões na madrugada, desejamos que as coisas fossem mais simples e mais óbvias, as surpresas e caminhos inesperados que se descortinam de uma simples pergunta nos lembram de nossa função e nos estimulam a ficar atentos a cada desvio de olhar, cada tremida de lábio, cada pausa na fala. Gestos que revelam, justo por tentar esconder, segredos íntimos e transformam a entrevista em uma seqüência de passo potencialmente perigosos, perigosos porém belos.

E foi justo aí, quando questionei sobre hábitos alimentares, que ele revelou o que tinha conseguido esconder na anamnese. Não sei o que foi, mas certamente não foi a resposta padrão "só socialmente", que me fez fazer a pergunta que mudou radicalmente o seu tratamento: "Isto te incomoda?"

Claro que incomodava. Mas claro também que não era só isto. Como em uma pescaria onde ao morderem nosso anzol, ao invés de puxarmos o peixe para fora somos sugados para dentro de um oceano que nos revela cardumes e recifes, nossa conversa demorou bem mais do que eu havia planejado.

A vida, segundo ele, não nos merece para vivê-la, nos devora sem nos dar a oportunidade de a decifrarmos. Concordamos com o médico alemão que apontou a civilização como fonte de um imenso mal-estar e aqueles que nos moldam para viver nela como símbolo máximo de uma tensão que tornará por toda a nossa vida a forma como vemos uma coisa indissociável da forma como vemos a outra.

Se a beleza dos passos está em descobrir os segredos, o perigo está em não poder omitir-se uma vez descobertos. Ou, o que talvez seja pior, identificar-se com eles, a tal da contra-transferência. Ocorre que processos semelhantes se repetem na vida de todos, médicos ou pacientes, e a transmissão verbal de experiências reflete em nossa escuta, ao nos esforcamos para interpretar como a forma como transmitimos as nossa, e, conseqüentemente como a sentimos.

Outro alemão, muito antes qpue o tal médico, sugeriu que aquilo que chamamos de "vida" quando a contamos aos outros, e que ele chamou de "mundo", seria a interpretação racionalizada das experiências de nossos sentidos bastante influenciada por uma estranha sensação de necessidade que nunca é suprida, pois ela é parte inerente do "ser" humano e constantemente mal-interpretada como a necessidade "de alguma coisa", necessidade que mesmo que satisfeita com a tal "coisa" não deixa de existir, simplesmente porque não corresponde à interpretação feita. Eis a candidata n. 1 ao posto de motor fundamental do mal-estar. O mundo, então, segundo ele, não passaria de "vontade e representação".

O processo de representação e a sua racionalização simbólica é, então, a nossa ferramenta essencial de relação com o mundo e a origem psicológica a interpretação de nossas emoções e vontades. Daí a importância fundamental dos símbolos em nossa vida e a necessidade do médico, preocupado com o paciente como um todo, de lidar com eles.

Foi para lidar com este universo simbólico, e para manter a mente ocupada que sugerimos a arte. E desta sugestão que veio a descoberta que em sua parede havia um violino, lá colocado em resposta a conflitos cuja capacidade de superar, ou mesmo compreender, ia além de todas as forcas do paciente e não surpreende que este assunto tenha vindo a tona na conversa sobre diabetes e álcool, modificando radicalmente a forma como víamos a doença e, conseqüentemente, como iríamos guiar o seu tratamento, inclusive farmacológico.

Eu também tenho vários violinos em minha parede, pregados durante o meu processo de adaptação à vida em comunidade, alguns colocados a partir de experiências com as pessoas que me guiaram nesta adaptação. Hoje percebo que alguns devo jogar fora, outros sou obrigado a pegar e ensaiar algumas notas, talvez a maioria eu jamais consiga retirá-los. Embora saiba que parede não é lugar para se guardar violino, eu hoje já evito buscar culpados, pois percebi que a responsabilidade e as conseqüências são minhas e intransferíveis.

Sid

4 comentários:

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