sábado, dezembro 02, 2006

Seis dedos

Sentada na mesa, a espera da cesariana, ela dava sua última entrevista como gestante, à pergunta sobre o nome do pai, a resposta em si já valeria a pena pensar e escrever, “assim de cabeça, eu não lembro não”. Isto nos coloca de frente a nossos preconceitos, como evitar julgamentos morais se fomos criados na mesma cultura que ela e ouvimos a vida toda, assim como ela, que as mulheres deveriam ser castas e as mães santas. E as crianças criadas sob a influência de um pai e de uma mãe.

Neste caso o que nos incomoda é o choque entre o que aprendemos, que o sofrimento humano é causado, na maioria das vezes, pela interpretação que damos dos fatos, e não pelos fatos em si. É pertubador, portanto, a nós juízes morais, a simples falta de sentimento ao anunciar isto, a pobre coitada, não dá a mesma importância que nós. Ignora os nossos valores, isto é imperdoável.
Mas isto, diria ela, é problema nosso.

E os nossos valores indicam que o nascimento tem que ser com hora marcada, anestesia e bisturi, sem gritos, sem choro, sem vida. A cesariana nunca foi a coisa mais emocionante do mundo, o ambiente asséptico, o silêncio da mãe, o automatismo do cirurgião, o sono do anestesista e a criança saindo, meio que com vontade de ficar, pelo lugar errado. E pensar que é assim, sujo e assustado que se começa uma vida, os braços desconjuntados crescerão e tentarão atingir o inalcançável, o coração que se debate desesperado ainda se espancará por emoções que ainda nem foram sonhadas e os olhos arregalados ainda chorarão muito mais. E que tudo isto, um dia, parará. Alegria e sofrimento, emoções a que aquela semente está condenada.

Curioso acadêmico, fiquei observando o bebê, segurado pela neonatologista que o examinava. Um susto me chamou a atenção, tão absurdo que tive que olhar para a minha própria mão: polidactia. Nas quatro extremidades ele tinha seis dedos perfeitos. Perguntei consternado à médica que respondeu gritando, entusiasmada, talvez pela oportunidade de eu ver algo tão raro em uma das minhas primeiras oportunidades de assistir uma cesária, talvez por quebrar a monotonia do plantão, sabe-se lá os motivos que levam a comportamentos absurdos...

Mas a felicidade dela não me contagiou. Talvez a tarde inteira assistindo a pacientes crônicos tenha me deixado soturno, talvez não só isto, mas imaginei aquela vida, começando em uma idade tão próxima a de sua mãe, com todas as dificuldades de se nascer em um hospital público em meio a miséria de um país virtual e uma comunidade perdida. E ainda por cima com seis dedos.

Sid

2 comentários:

Dr. Maluf disse...

Li uns 2-3 textos por recomendação de um professor de psicopatologia. Sinceramente, não vi aqui nada além de mediocridade e absoluta imaturidade nos textos. Não diria que aqui houve sequer tentativas. Não foi nem um início. Já apresentastes natimorto e imbecil. Combinação muito estranha. A "sinceridade" exposta em alguns dos comentários deste blog (não, não posso chamar de textos) é digna dos melhores leitores de auto-ajuda. Só mesmo leitores assíduos de cabalas, Paulo Coelho e anoréxicos poderiam elogiar a doença verminal daquilo ou daquele que se diz autor de alguma coisa.
Alguns disseram aqui: "morra!". Juro que não é difícil compreendê-los. Que o mundo cante em uníssono, meu caro, e que você MORRA!

SIDEREUS NUNCIUS disse...

Estava sentindo a sua falta...
Fiquei preocupado com você, pois você sumiu. De qualquer forma me deixa muito orgulhoso que meus tetxos sejam comentados em aulas de psicopatologia... Mamãe sempre disse que eu iria longe...
Sid