quinta-feira, outubro 05, 2006

Inconsciência ou morte

Eu saí da sala querendo uma história para contar no blog, mas, desta vez, eu não queria falar mal da medicina. Não de novo. Apesar de eles terem me dado motivo, estes cirurgiões... Mas falar mal da grosseria e arrogância dos cirurgiões é um lugar comum batido demais para eu me expor mais. Eu sei que deveria ter ficado em sala, eles já estavam abrindo o pericárdio: muito a aprender, muito a ver. Mas não paravam de brigar entre eles, com toda a equipe e até comigo, que nada fazia, apenas olhava passivo. E me deu pena da instrumentadora, coitada. Se o paciente pudesse ouvir...

Na realidade eu não tenho certeza que ele não pode ouvir, provavelmente, eu nunca saberei. Isto me lembra que Maria José Limeira, escritora e doce jornalista democrática da, para mim, distante João Pessoa, que sempre me estimulou a escrever tinha me pedido para falar sobre catalepsia, que é a suspensão parcial ou total da sensibilidade e dos movimentos do corpo, e sobre a consciência durante a anestesia. Esta é a minha chance de respondê-la.

O padrão fisiológico que leva as duas situações são semelhantes: por algum motivo, a ligação que existe entre os centros superiores de controle dos músculos no cérebro e os próprios músculos é bloqueada, fazendo com que, mesmo que você tenha a intenção de mover alguma coisa, você não consegue, simplesmente porque esta informação não chega às fibras musculares. No caso da anestesia isto é obtido através de drogas semelhantes ao velho veneno das zarabatanas: o curare.

A questão principal que direciona a sua pergunta é a inarrável angústia de não conseguir controlar o próprio corpo, e estar consciente disto. Acredite, sei porque já passei por isto. Consciente e curarizado na mesa de cirurgia escutando a conversa dos cirurgiões, sem saber se vivo ou morto. Naquele momento fiz uma promessa que não levaria muito a quebrar: daí para frente seria diesel sobre rodas ou combustível de aviação, nunca mais gasolina em (duas) rodas.

Eu me lembro do parachoque crescendo, de outro carro vindo, do vôo sem asas. Agora imagine-se abrindo os olhos - a sensação é exatamente esta: "abrir os olhos" - e eles não abrem. Você sente cada movimento e cada manipulação que fazem no seu corpo, mas não é capaz de reagir. Até a dor faz falta! Você não sente dor. Sente a pele sendo cortada, seus tendões e ossos tracionados, imagina que isto lhe faz mal. Só. Aquela sensação afetiva ao estímulo nocivo, a que chamamos de dor, foi embora com a morfina. Sem dor, sem movimento, sem luz. Onde você está afinal? A decepção não poderia ser maior: até do céu eu esperava mais que isto. Nada de túnel de luz, nada de São Pedro, nada de nada.

Aqui eu me lembro história narrada pelo Dr. Neil R. Carlson que uma vez perguntou ao seus alunos qual seria a função do sistema nervoso central supondo-o como morada de nossas funções cognitivas superiores, a resposta foi unânime: "pensar". Tivesse eu obtido esta resposta, teria perguntado qual seria a vantagem evolutiva do "pensar" e porque seres pensantes teriam sido selecionados sobre os não-pensantes, a resposta no entanto poderia vir como o "pensar" sendo simplesmente uma "calda de pavão" usada para impressionar as menininhas pré-históricas e assim conseguir mais descendentes que pensem. Dr. Carlson, no entanto, fugiu desta discução estéril e então continuou sua aula, conforme descreve em seu livro "Fisiologia do Comportamento", mostrando que a principal função do pensamento é controlar o nosso comportamento, ou seja: as funções motoras de nosso corpo. Para isto ele serve, para isto ele evoluiu.

Sendo o normal a ação funcional de algo sobre aquilo para o qual ele evoluiu e sendo a medicina a arte de sobreviver frente ao anormal, sou levado a indagar: Como reage o pensamento quando exposto a uma incapacidade de cumprir as sua função primordial, ou seja, controlar o corpo?

Na biologia, diz-se que algo que perde sua função com o tempo deixa de existir, isto parece ser, de alguma forma, claro para aqueles que já passaram pela sensação de não saber se vivo ou morto. Pois uma vez que desconheço alguém que se lembre de ter estado morto, nunca ninguém foi capaz de apontar as diferenças entre os dois estados e, por mais, que tentamos fingir que o nosso corpo é apenas um apêndice para uma parte mais elevada chamada "espírito", para todos os fins práticos ele é tudo que temos e, aparentemente, sede de nossa consciência, como bem disse Schopenhauer. A angústia de perder ambos - o corpo e o espírito - embrulhados neste pacote a que chamamos "vida" é o que mantém a nossa espécie neste planeta até hoje e a minha futura profissão (medicina) sempre entre as mais bem pagas.

Tal angustia, acredite, é horrível. Ficamos face a face com todos os maiores dilemas da filosofia enquanto a mente gira descontrolada. Leva um tempo para se superar da sensação cartesiana de não saber se é ilusão tudo que percebemos em nossos sentidos agora ou se eram ilusões os delírios do corpo aprisionado em grades de curare. A única certeza, bem disse Descartes, é que se eu sou capaz de imaginar que estou escrevendo algo, logo eu, de alguma forma, existo.

Sid

3 comentários:

Otavio Silva disse...

Caro amigo,
Com este texto, você entra por um terreno que eu tenho tido muito interesse e debato com um colega professor de anestesiologia da UFF Dr. Alberto Gemal. Temos sempre discutido a questão da consciência na anestesia: como medí-la e a importância que este fenômeno tem antes e depois da anestesia. O complicador central que encontramos neste campo é que “consciência” é um termo que considera-se hoje que deve ser superada as tentativas de definição absoluta, restando aos que querem trabalhar com o fenômeno a utilização de modelos "instrumentais" quando isto for de alguma utilidade prática.
As utilidades práticas de se obter modelos instrumentais de consciência na medicina são: a determinação de "vida" nos estados vegetativos persistentes (EVP), como no caso da famosa briga judicial ocorrida nos EUA, a monitorização da consciência durante uma anestesia para que se evite profundos traumas nos doentes e a compreensão do sofrimento de quem sobreviveu à catalepsia para o auxílio (psico)terapêutico.
Como medir algo que não conseguimos definir?
A partir de "pontos de corte" definidos no modelo escolhido.
A atividade cerebral medida por modernas técnicas de neuroimagem é um ponto de corte mais discutível do que possa aparentemente parecer, é, no entanto, provavelmente a única forma de se medir a consciência nos EVP, mas como isto não foi discutido em seu texto, vou fugir desta discussão pois existe uma diferença fundamental entre as situações expostas por você e o EVP: o paciente volta depois para nos dizer o que houve e pode, portanto, carregar marcas profundas durante toda a sua vida.
Cabe então aqui uma questão interessante: se não podemos saber se ele está consciente ou não enquanto o paciente não é capaz de nos afirmar isto, mas podemos saber isto depois, poderemos desenvolver mecanismos indiretos para estimar a consciência deste paciente baseado no aprendizado e na comparação entre as reações e sinais obtidos de ambos os grupos: os que não conseguem afirmar que estavam conscientes e os que conseguem.
Existem hoje no mercado alguns aparelhos que afirmam conseguir fazer isto, mas, a grande maioria dos pesquisadores sérios discorda da validade dos métodos utilizados pelos fabricantes, portanto parto do princípio que a determinação da consciência durante a anestesia ainda é impossível.
Na realidade provavelmente nunca seremos capazes de detectar a consciência em absoluto, mas sim apenas quando esta "faz alguma diferença", ou seja definimos, a priori, dois pontos de corte: primeiro o paciente tem que ser capaz de se lembrar. Ora, diria você, ele pode ter consciência e se esquecer, como ocorre diversas vezes em nossa vida. Respondo eu, no entanto, se ele se esqueceu, ou seja, se ele não conseguiu formar memória, isto é, para todos os fins práticos, indistinguível da situação em que ele não estaria consciente. O que é indistinguível é, portanto, igual ou deve ser assim assumido.
Outro ponto é: ele deve ser capaz de expressar verbalmente que esteve consciente. Ora, se você assume que ele só estava consciente se ele for capaz de verbalizar isto, então você "define" a consciência como dependente da linguagem. De certa forma sim. Isto porque para podermos pesquisá-la precisamos "amarrá-la" a uma definição própria, instrumental, que não precisa ter, necessariamente, uma correspondência absoluta com a definição "global" de consciência. Voltamos então a pergunta do parágrafo anterior: que diferença existiria para um observador externo entre uma pessoa que não esteve consciente e outra que esteve mas, apesar de conseguir verbalizar uma série de coisas, não é capaz de verbalizar isto?
A questão da linguagem e da memória assume a correspondência direta com a consciência de forma menos óbvia quando consideramos doenças neurológicas em que o paciente não é capaz de ter "consciência" de determinados fatos ou coisas, mas é capaz de ter de outras, a partir de lesões em áreas do cérebro supostamente relacionadas ao raciocínio simbólico e à memória. Pois eu só consigo perceber-me se eu conseguir construir um contexto em que o que percebe é inserido, vide os argumentos propostos no aforismo 16 de "Para Além do Bem e do Mal", assim como Nietzsche não consigo imaginar isto sem que eu consiga usar a capacidade simbólica de representação.

Anônimo disse...

Só um conselho: largue o curso de medicina, largue o curso de medicina, largue o curso de medicina, largue o curso de medicina, largue o curso de medicina, largue o curso de medicina, largue o curso de medicina... e vá ser feliz. Cara, seu futuro é o da mediocridade...

Beto

Anônimo disse...

Eeii, amigo, olha eu aqui de novo. E com mais este conselho: não largue o curso de Medicina. Essa profissão casa bem com a vocação de escritor. Temos, na Literatura Universal, vários médicos grandes escritores. Não dê ouvidos às pessoas medíocres. Viu? Saludos, e obrigada pela homenagem que me fez. Maria José Limeira.