domingo, janeiro 13, 2008

O Grande Deus Asklepius Morreu

Peça aos médicos que lhe apresentem indicadores e eles levantarão o segundo quirodactilo, quem poderia supor o absurdo, que os médicos já não sabem nem mais o que fazem. Talvez Foucault diria que a maioria nunca soube, mas tudo bem, antes de eles se aperceberem como sustentação filosófica do Estado, quando os indicadores não faziam mais diferença que o quinto quirodactilo, já não serão mais: os indicadores que sustentam a nova religião.
A ignorância do exército estadunidense ao adotar o caduceu, símbolo de Hermes, deus do comércio, como insígnia de seu quadro médico talvez escondesse uma sinistra profecia: Asklepius perderia seu posto para o mensageiro. Como a águia da parábola de Esopo triste será o fim da medicina, que dá aos inimigos a própria arma com a qual é abatida.
Ao agir como mecanismo de controle social, a medicina precisou se universalizar, atingir a todos, evoluir de "humanitária" para obrigação do Estado e passou a ser exigida pelos controlados: de que vale um Deus se é só para os ricos? A massa precisava do Tanatos para ser controlada e Deus morto, Deus posto: a medicina que surge como nova fonte geradora de medos e pecados, a nova moral, a nova redenção, para ser Eros precisava de uma base que a sustentasse. A base que a sustenta, como o símbolo chinês Tai-Chi é a própria estrutura capitalista e como a cobra engole o próprio rabo a medicina precisou ser eficiente para ser universal.
Nem universal nem eficiente o ciclo quebrou, na melhor visão capitalista, o sistema faliu. Novos conceitos, novos valores, novos controles este agora, bem mais sutil mas avança com avançou a medicina: desmoralizando o antigo regime. Desumaniza a medicina e reclama da desumanização, mercantiliza a ciência, ridiculariza a arte, caricaturiza os médicos: sentem-se os semi-deuses, soberbos e vaidosos, bom tinham motivos para isto antigamente...
Tudo que é novo conspira a favor deste Deus sedento: não podemos fugir a ética e estética da "evolução", ou somos homens de nosso tempo ou simplesmente não somos. É preciso humanizar a medicina, dar humildade aos médicos, fazê-los escutar e usar o próprio paciente no processo de cura. O discurso do professor barbudo e de sandalhas é o mesmo do administrador engravatado: Só assim a medicina ficaria eficiente. A diferença é só a camisa de Che Guevara. Eficiente é o grito dos que acordarão do sonho romântico de revolução mas é também o mantra dos novos sacerdotes.
E nós médicos ainda sofreremos muito para perceber que já não somos tão especiais. A nós só nos resta o mal-do-século, como os românticos a dor de ser incompreendido, a depressão e a angústia, tínhamos a resposta para o mundo, acreditamos que salvaríamos, poderíamos, se deixassem. Por que ninguém nos ouve? Por que sou tão sozinho? Por que estão todos contra mim? Vivíamos em um planeta em que éramos ricos e respeitados? Mudamos de planeta e o poder nos enebriou tanto que nem percebemos...
Não choro a morte de nenhum Deus, mas de Foucault.

Um comentário:

Lenore disse...

Antes de começar a fazer medicina, eu resolvi procurar blogs de estudantes pra saber o que eles pensavem. O seu foi o que mais gostei, pq é o mais sincero eu acho. Você não tinha mais postado, então vim aqui pra reler seus antigos textos e achei novas postagens, como sempre críticas e inteligentes. Agora estou no 3º período e tenho vivido decepções constantes, mas ainda tenho esperanças de que um dia a medicina corresponda ao que eu anseio.