domingo, junho 22, 2008

A questão no CTI

(Tradução minha)
O que será mais nobre para a alma: aguentar os ataques do destino ou lançar-se sobre seu tempestuoso mar dando-lhe fim, ao tentar resistir? Morrer é apenas dormir, dormir um sono que acaba com as dores do coração e os golpes que vêm da própria carne, esta é a solução que se deseja: morrer, dormir. Dormir e, quem sabe, sonhar. Eis aí todo o problema: que sonhos virão tão logo nos livrarmos das amarras que aqui nos prende? Pois é isto que nos faz parar, é este respeito que torna uma calamidade uma vida assim tão longa.
Quem afinal aguentaria os golpes e o desprezos do mundo, como se a paciência fosse um mérito que simplesmente não valesse a pena quando tudo poderia ser resolvido com uma faca desembainhada. Quem aguentaria tudo isto? Doando seu suor e sangue para suportar uma vida tão cansativa se não fosse pelo medo do que poderia haver depois dela, um país de onde ainda nenhum viajante voltou, terra que desafia a vontade de viajar dos males que conhecemos para aqueles que sequer imaginamos. Esta é a consciência que nos transforma nos covardes, transformando a força selvagem da resolução na pálida máscara dos pensamentos.

Talvez isto explique o que estou fazendo aqui agora.
Ou o que eles estão fazendo em minha frente.
Afinal qual a diferença entre nós?
Ao contrário deles, eu posso tirar minha própria vida, eles dependem de mim para isto.
Mas fora isto, nada do que a superioridade aparentemente tão óbvia, tem afinal, algum valor.
Viver, morrer.
As amarras que nos prendem são as mesmas, a covardia que nos angustia também.
Posso sair daqui andando, fingindo que isto não passou pela minha cabeça, fingindo que nunca estarei aqui, fingindo que quando estiver terei esperança.
Esperança de que?
De voltar tudo como era antes?
E que valor tem isto?
Não seria melhor poupar me de tudo isto, com uma faca de desembainhada?
O que me prende aqui, afinal?

domingo, junho 15, 2008

Herói

Eu o percebi quando ele se levantou, aquele homem enorme iria achatar a pobre mulher, preocupação que ninguém parecia ter, não obstante o trabalho que iria dar caso isto ocorresse. O gigante mal conseguia andar, as pernas, que um dia já devem ter se orgulhado de sua força, não sustentavam mais todo resto, mãos grossas, outrora tão poderosas, já não prestavam nem para apoio ou equilíbrio, de tudo, só lhe restava o amor da esposa.

No caminho do banheiro ele me disse quão ruim era ficar doente, especialmente quando a causa era desconhecida, mais preocupado com meu aprendizado do que com o sofrimento daquele homem, decidi examiná-lo. A história, que de inicio me pareceu fascinante, para ele certamente era dramática e, em segundos, encaixei seu florido quadro de sinais e sintomas em uma elaborada teoria de manifestações para-neoplásicas e como que se descortinassem a meus olhos uma velha história mal-contada logo percebi uma massa paupável no quadrante superior esquerdo do abdome e um linfonodo como o da velha freira, irmã Maria José.

Insisti com a equipe que deveríamos melhor avaliar o paciente, exigi uma ultrassonografia abdominal, bioquímica e hematologia. Ninguém parecia dar tanto valor ao doente como eu e, naquele momento me senti importantíssimo a ele, perigosamente importante, talvez, nunca iria imaginar que o perigo seria para mim, e não para ele, se o câncer o corroía, ele, afinal, estava no melhor lugar onde poderia estar, assim como eu, também estava no melhor lugar onde poderia deixar-me corroer pelo pecado que supostamente seria o preferido do diabo: a vaidade. Sentir-se importante para alguém e julgar ter feito uma descoberta "fundamental" é algo que desafia a nossa humildade e destrói a nossa capacidade de ver o mundo como ele é e nos cega com imagens de como gostaríamos que ele fosse.

Pois que a bioquímica revelou-se surpreendente e a hemato algo bem longe do para-neoplásico. O quadro, embora urgente, não era necessariamente crônico e, desafiado a provar os sinais que eu tinha visto, provei a mim mesmo incapaz de um exame físico confiável, na frente de uma pequena junta e de meus pares, o meu linfonodo era uma hérnia umbilical e não havia massa, mas apenas uma tensão em um paciente que fora examinado sentado. Não há exceções para o certo, disse, sem esconder um ar de reprovação, o professor.

Poucas vezes o caminho de casa me pareceu tão longo. Estava me acostumando a vitórias o que transformou a pesada lição em uma multifacetada conjunção de ensinamentos, quisera eu ter a sabedoria de aproveitá-los e nunca mais esquecer. Uma noite em claro e pesadelos de assassinato: teria eu, se pudesse, enviado aquele homem a quimioterapia?

Tudo bem... Não serei tão dramático, afinal nenhuma atitude seria tomada sem que antes eu solicitasse um parecer de um oncologística, mas quantas alucinações semióticas e delírios diagnósticos eu ainda sofrerei, o quanto eu preciso para ver somente a luz que entra nos meus olhos, escutar apenas o que é me dito? O que eu ainda preciso fazer para ter este dom, sua falta, certamente é bem pior do que uma incapacidade médica, para compensar isto, basta estudar, mas como compensar a esquizofrenia clínica.

Eu tinha dito a ele que o visitaria no dia seguinte. Não fui. Envergonhado de minha atitude, preferi esquecer, mas a culpa por ter abandonado sem esquecê-lo foi como vinagre sobre sobre a ferida ainda mal curada. No corredor da emergência, encontrei sua esposa, embora tenha tentado ignorar-la, ela me reconheceu e vei me falar.

Assumi minhas fraquezas e confessei minhas vergonhas, disse-lhe que preferia e que muito tinha desejado ver o marido dela com um triste diagnóstico de câncer, pois isto apaziguaria dor de minha alma, não me importando agora o sofrimento que ele mesmo pudesse ter. "Para nós você ainda é nosso herói", disse ela, "não fosse sua insistência em um diagnóstico de câncer, ele não estaria vivo agora".

Herói. Será que todos os heróis são estes covardes e inconseqüentes que eu fui? Será que tudo nos livros de história resume-se em coincidência e hipocrisia? Não quero que o elogia reacenda a chama da vaidade que estou e esforçando para apagar, nem quero nem imaginar o que teria acontecido caso a minha hipótese diagnóstica tivesse sido menos "espetaculosa" e, conseqüentemente, interessante.

Mas o que importa é que eu agora era um herói. Me lembrei do filme homônimo, cuja cena final muito me impressionou: o herói sendo alvejado por milhares de flechas, ele que poderia ter cumprido seu papel e saido ileso, preferiu ser morto, pois esta era a função do Estado que ele decidiu preservar com todas as injustiças inerentes, qualquer outra opção, pensou ele, seria pior, como narrou a voz de fundo: “morto como traidor, enterrado como herói”

Me sentiu igual, posso preferir o orgulho de ser herói, mas prefiro me concentrar nas setas que me apontam à realidade: falhei e falhei feio. Posso me enganar quanto a diagnósticos, posso errar quanto a fisiopatologia, mas jamais deveria ver outra coisa que não a luz que chega a meus olhos, jamais deveria deixar que interpretações modifiquem percepções, fatos deveriam ter mais peso que explicações. Que as flechas matem este louco.

Afinal que vaidade me levaria a importar-me com tão insignificante heroísmo, um paciente, dentre tantos naquele hospital, uma vida dentre tantas que lá já morreram, um hospital dentre tantos nesta cidade. Não quero ser herói, quero ser profissional. Salvar vidas não é mérito, é obrigação. Não quero nenhum agradecimento, nada que infle meu orgulho e rege a semente da soberba, eu quero é ser competente, salvar vidas com uma mão, sem que a outra saiba, e muito menos se orgulhe.

Vícios privados, virtudes públicas

O que afinal eu estava fazendo lá?

Esta é uma pergunta que sempre mereceu de minha parte respostas evasivas, mas afinal, o que me atrai ao feio,sujo, pobre e fedorento? Claro que eu poderia vir com um papo de Madre Tereza de Calcutá e dizer que estou lá apenas para ajudar e aliviar o sofrimento do mundo, mas esta conversa não convenceria nem a mim... Ou talvez eu esconda de mim mesmo uma causa secreta machadiana, um prazer sádico de ver e conhecer o sofrimento, talvez...

Isto me ocorreu em mais uma Visita Domiciliar, algo tão de rotina como simplesmente não poder fazer nada, tínhamos ido lá só para constar e para cumprir um papel burocrático e lá encontramos uma mãe pobre que ama os filhos como eles são, um irmão carinhoso como eu nunca tinha visto antes e uma família que eu não gostaria de marcá-la por simples detalhe, mas por todo um contexto e pela força de uma mulher que aguenta a vida de teimosa suportando com paciência o que não pode mudar, e com o amor a sobrecarga daqueles que só podem contar com ela.

Eu teria muito o que aprender com ela, talvez a VD tenha sido curta demais ou eu não tivesse a humildade de deixar que ela me ensinasse, mas algo me fez pensar muito naquela criança, o irmão mais novo. Sei que não é um fenômeno assim tão raro, e que está envolto em teorias que a esta altura do campeonato eu deveria conhecer de cór, mas o próprio desconhecimento de suas causas foi o que me fez pensar nas minhas.

O pequeno detalhe que me me originou as comparações foi o garoto mais novo insistir em automutilar-se, beliscava de forma repetida o ombro oposto e a coxa do mesmo lado, que já possuíam a pele calejada e diferenciada embora a mãe amarrasse um pano em seu punho para evitar este comportamento. Mas o que levava este menino a isto? Uma resposta, talvez nem tão possível e nem tão provável cujo valor pode estar restrito a este texto apenas, seja a presença da dor em si.

Eis que talvez se não for sádico, me concedo a desculpa de ser masoquista. Eis que a vida é um aprendizado, afirmação que vista de um enfoque mais prático do que filosófico nos leva a pensar na maneira como inseridos em um mundo que em muito independe de nossa vontade precisamos, a fim de justificarmos a nós mesmo a nossa presença e a necessidade de interagir com ele, sentí-lo, cada vez mais e cada vez mais intensamente.

Todo sofrimento deste mundo seria, como querem os budistas (eu não seria tão radical), criação do próprio sofredor, seja a partir de interpretações peculiares de fatos específicos da vida, seja através da busca por emoções cada vez mais intensas, entre elas, a dor. Teoria, exceções a parte, que não parece tão estranha a ninguém, ou não teria durado tanto tempo. Mas o que nos leva, então, a gerar todo este sofrimento?

Por mais contraditório que pareça, é a necessidade de me sentir vivo, seria o que me faz ir em busca do sofrimento, são as emoções que dão um sentido a nossa vida e, acreditem, a dor, por pior que seja, é muito melhor que o vazio. Em mim, talvez, uma incapacidade intrínseca à empatia, uma profunda anestesia emocional me fez aumentar, como um viciado, cada vez mais a minha dose, cada vez mais a minha necessidade de ver e sentir a dor.

Como um viciado. Quem afinal não tem vícios? E o que, afinal, melhor para a estética do nosso eternamente improvisado roteiro que expomos dos nossos personagens do que transformar estes vícios privados em virtudes públicas?

sábado, abril 05, 2008

Violino na parede

Tudo que sabia até então era da glicemia de jejum bem elevada e uma leve obesidade abdominal, ao exame físico sem outros sinais que valessem maiores preocupações, o professor, então, me deu aquele paciente com instruções claras: iniciar o tratamento com metformina e uma sulfoniluréia. E claro, a parte mais importante do meu treinamento e do seu tratamento, prover-lhe educação sobre hábitos e dieta.

Se por um lado, em agitados plantões na madrugada, desejamos que as coisas fossem mais simples e mais óbvias, as surpresas e caminhos inesperados que se descortinam de uma simples pergunta nos lembram de nossa função e nos estimulam a ficar atentos a cada desvio de olhar, cada tremida de lábio, cada pausa na fala. Gestos que revelam, justo por tentar esconder, segredos íntimos e transformam a entrevista em uma seqüência de passo potencialmente perigosos, perigosos porém belos.

E foi justo aí, quando questionei sobre hábitos alimentares, que ele revelou o que tinha conseguido esconder na anamnese. Não sei o que foi, mas certamente não foi a resposta padrão "só socialmente", que me fez fazer a pergunta que mudou radicalmente o seu tratamento: "Isto te incomoda?"

Claro que incomodava. Mas claro também que não era só isto. Como em uma pescaria onde ao morderem nosso anzol, ao invés de puxarmos o peixe para fora somos sugados para dentro de um oceano que nos revela cardumes e recifes, nossa conversa demorou bem mais do que eu havia planejado.

A vida, segundo ele, não nos merece para vivê-la, nos devora sem nos dar a oportunidade de a decifrarmos. Concordamos com o médico alemão que apontou a civilização como fonte de um imenso mal-estar e aqueles que nos moldam para viver nela como símbolo máximo de uma tensão que tornará por toda a nossa vida a forma como vemos uma coisa indissociável da forma como vemos a outra.

Se a beleza dos passos está em descobrir os segredos, o perigo está em não poder omitir-se uma vez descobertos. Ou, o que talvez seja pior, identificar-se com eles, a tal da contra-transferência. Ocorre que processos semelhantes se repetem na vida de todos, médicos ou pacientes, e a transmissão verbal de experiências reflete em nossa escuta, ao nos esforcamos para interpretar como a forma como transmitimos as nossa, e, conseqüentemente como a sentimos.

Outro alemão, muito antes qpue o tal médico, sugeriu que aquilo que chamamos de "vida" quando a contamos aos outros, e que ele chamou de "mundo", seria a interpretação racionalizada das experiências de nossos sentidos bastante influenciada por uma estranha sensação de necessidade que nunca é suprida, pois ela é parte inerente do "ser" humano e constantemente mal-interpretada como a necessidade "de alguma coisa", necessidade que mesmo que satisfeita com a tal "coisa" não deixa de existir, simplesmente porque não corresponde à interpretação feita. Eis a candidata n. 1 ao posto de motor fundamental do mal-estar. O mundo, então, segundo ele, não passaria de "vontade e representação".

O processo de representação e a sua racionalização simbólica é, então, a nossa ferramenta essencial de relação com o mundo e a origem psicológica a interpretação de nossas emoções e vontades. Daí a importância fundamental dos símbolos em nossa vida e a necessidade do médico, preocupado com o paciente como um todo, de lidar com eles.

Foi para lidar com este universo simbólico, e para manter a mente ocupada que sugerimos a arte. E desta sugestão que veio a descoberta que em sua parede havia um violino, lá colocado em resposta a conflitos cuja capacidade de superar, ou mesmo compreender, ia além de todas as forcas do paciente e não surpreende que este assunto tenha vindo a tona na conversa sobre diabetes e álcool, modificando radicalmente a forma como víamos a doença e, conseqüentemente, como iríamos guiar o seu tratamento, inclusive farmacológico.

Eu também tenho vários violinos em minha parede, pregados durante o meu processo de adaptação à vida em comunidade, alguns colocados a partir de experiências com as pessoas que me guiaram nesta adaptação. Hoje percebo que alguns devo jogar fora, outros sou obrigado a pegar e ensaiar algumas notas, talvez a maioria eu jamais consiga retirá-los. Embora saiba que parede não é lugar para se guardar violino, eu hoje já evito buscar culpados, pois percebi que a responsabilidade e as conseqüências são minhas e intransferíveis.

Sid

segunda-feira, março 10, 2008

Difícil

O professor me mandou ir chamar a próxima paciente, foi quando a vi pela primeira vez. Os olhos angustiados sobre mim me chamaram a atenção, o que me fez pensar que seria ela a próxima paciente. Tinha o nome nas mãos e perguntei a ela, não, não era ela, mas aproveitou para reclamar do atraso. Tentei confortá-la dizendo que não nos limitávamos ao tempo que o gestor disponibilizava para nós, íamos além, mesmo que perdendo dinheiro, era o nosso dever. Por isto alguns pacientes eram atendidos com atraso. A voz doce respondeu que não havia problemas, pois estava muito doente. Deste breve contato não pude jamais supor o desfeixo que teria poucos minutos depois.
Finalmente, chegou a vez dela.
Entrou nervosa no consultório e foi logo expondo a hipótese diagnóstica, mesmo antes da queixa principal. Percebi pela atitude raramente cordial do professor que ele estava farejando problemas. Tentávamos fazer a anamnese da paciente, mas ela queria ir logo aos finalmentes: a doença dela era tão grave que não poderia esperar nem mais um segundo, seja ela qual fosse. Afinal ela tinha lido tudo sobre os sintomas na internet e agora queria uma dosagem de todos os hormônios. TODOS? Perguntou o professor. Sim, todos. Foi o que ela leu na internet.
Olha, tentamos explicar, vamos antes excluir as causas mais simples? Deixa eu fazer um exame físico, colher a sua história e avaliar se precisamos algo mais simples. Mas ela queria que jurássemos que iriamos pedir TODOS os hormônios, não importa o quanto isto onerasse desnecessariamente o sistema. Desconversamos e conseguimos fazer alguma coisa, não sem antes perceber o seu sintoma mais marcante: estresse e ansiedade.
Algumas respostas eram evasivas, outras marcadas pelo uso de termos desnecessariamente técnicos, se queria nos impressionar, conseguiu fazer que duvidássemos do que dizia. O exame não revelou grandes coisas, a anamnese era pobre e ficou claro que precisávamos excluir outras causas. No final da consulta pedimos um Rx simples, uma US e um hemograma. O que se viu depois foi uma rápida explosão de nervosismo, angústia e raiva. Afinal ela sabia o que tinha e o que precisava, nós não. Tínhamos perdido um precioso tempo de nossa vida estudando e o professor, há muito sem paciência, sugeriu que a internet a tratasse, já que não confiava em sua experiência. Disse que iria arrumar um médico "decente", mas antes disso iria à ouvidoria do hospital.
Ela saiu, eu ainda pensei se não devíamos ter feito o jogo dela. Talvez não tivéssemos perdido a paciente, talvez tivéssemos criado um vínculo que depois poderíamos ter evoluído para a medicina verdadeira antes de nos perdermos em elocubrações internéticas, afinal, no caso de um tumor secretante todo aquele nervosismo, aquela raiva, poderiam se sintomas importantes. O professor respondeu que talvez, mas também todos aqueles sintomas poderiam ser causados pelo estresse. Paradigma do qual acho que jamais sairemos. Certamente seria melhor nos concentrarmos naqueles que queriam ser tratados, ou que aceitassem o nosso tratamento, ou, no mínimo que quisessem negociar.
O médico muitas vezes é exposto ao paciente que quer um determinado tratamento, uma determinada droga ou exame. Cirurgia bariátrica: quantas vezes na primeira consulta o paciente não chega logo pedindo a cirurgia, como se isto fosse resolver alguma coisa em sua vida. Às vezes pedem drogas tóxicas como a prednisona, inibidores de apetite ou mesmo psicotrópicos. Pior ainda quando saem dizendo à comunidade que você é um péssimo médico que nào aprendeu que estas drogas existem como os seus colegas. É difícil manter um mínimo de ética em um ambiente assim.
Logo depois de nossa paciente sair o professor foi chamado à direção, pediu que eu atendesse sozinho o próximo paciente. Entrou um homem de meia idade e dizendo que estava muito bem e que havia apenas uma suspeita de diabetes. Pedi para ver os exames: Hbglicada, 17%, Glicose, 564mg/dl, todos os outros exames compatíveis, inclusive uma hemoconcentração gigante. Na anamnese toda pergunta era respondida com um sonoro "não" e o nervosismo era intenso mas ele negava até o fim qualquer problema. Algumas coisas eram absurdas, como negar o emagrecimento súbito quando eu via marcas de estrias em seu braço e, quando confrontado com o fato disse que era "de nascença". Poderia acreditar na clínica, sempre soberana ao exame, mas o nervosismo e a insistente negação me incomodava. Havia algo nitidamente errado e eu não conseguia descobrir o que.
Insistiu que não queria nenhuma medicação, não prestou atenção ao aconselhamento de dieta e exercícios, nitidamente deixou claro que queria apenas fugir de lá o mais rápido possível e foi o que fez quando o professor voltou, bastante estressado, e sugeriu que apenas fosse repetido o exame. Ele foi e eu me senti sozinho no consultório. O paciente tem o direito de ser tratado ou não, não tem o direito de onerar desnecessáriamente o sistema como queria a nossa amiga, mas tem o direito de acreditar ou não no que dizemos. Mas é duro para nós não conseguirmos conquistar o paciente, fazer com que ele entenda que é para o seu bem, afinal, estudamos tanto e um dia acreditamos que isto bastaria para sermos idolatrados como deuses. Não basta, e precisamos nos acostumar com isto.
Ouvi dizer que São Pedro, o São Paulo, sei lá, o tal fundador da Igreja Católica, teria ido fundá-la na Grécia, então capital do conhecimento. Lá resolveu explicar aos gregos a doutrina pregada por Jesus. E começou a discursar apontando os aspectos racionais da doutrina e homem inteligente que era conseguia rebater críticas e, por fim, conseguiu com base em argumentos racionais convencer um grande número de gregos sobre a verdade da doutrina que apresentava. O resultado prático disto, no entanto foi quase nulo: acostumados com um grande número de Deuses, Jesus era apenas mais um, um bem interessante, admitiam, mas apenas mais um.
Paulo percebeu isto e, reza a lenda, e foi para Roma. Iluminado, iria agora conquistar o mundo: não pela mente, mas pelo coração. Os homens, ele tinha percebido, raramente fazem o que é lógico ou racional, em geral seguem seu coração e não o seu cérebro. Mil e novecentos anos depois Freud concorda e leva quase mais cem anos para Damasio estruturar uma elegante teoria neurocientífica para "provar".
Faz sentido. Mas tudo que eu disse até agora pode não ser verdade.
A função deste blog era então me desculpar, me auto-elogiar ou me expor e ser sincero?
Pensando bem, pela mente ou pelo coração eu tenha errado.
A primeira paciente, o estresse sendo sintoma ou sendo causa, mereceria uma atenção maior? Mereceria "entrar no jogo" dela para garantir sua colaboração? Talvez merecesse mais escuta, mais carinho, mais atenção do que os poucos minutos que reservamos. Talvez mais explicação sobre o que é a internet e menos orgulho ferido por ser substituído por um computador amorfo. Se uma vírgula ou uma palavra a menos fizesse diferença. Eu queria que ela tivesse ficado.
Ele também. Fui grosso. Estava estressado. (Não é desculpa) Assustei-o. Às vezes vemos nossos mestres agindo e atribuímos certas vitórias a certos comportamentos, mas talvez elas devessem ser atribuídas a outros. Até ser grosso, até assustar, é uma arte que não é fácil aprender e não está em livro nenhum, e é perigosa demais para se aprender por observação.
Melhor nunca mais tentar.
Errei.
Errei feio.
Logo na arte que me julgava bom.
Justo quando nos achamos bons demais, justo quando pensamos que sabemos, vem o real e nos dá uma bela lição de humildade.
Agradeço ao mundo por ser tão desafiante.

sábado, março 08, 2008

A causa secreta

Estávamos em visita domiciliar, a mãe, bem idosa, na cama o coração de tão fraco debatia-se agonizante para manter o pouco de útil que ainda lhe corria pelas veias ativo, e como que murmurando em desesperada agonia o sopro hipercinético conseguia ser mais audível do que as vagas reclamações, coisa da idade segundo Dr. Fortunato que a escutava com um gentil sorriso. Sim era ele mesmo, só que agora era médico, o enfermeiro de Machado de Assis reencarnado 147 anos depois, isto foi a um ano. Causas secretas nos levam a atitudes surpreendentes, causas estas que se expostas revelariam a lógica por trás da contradição e o absurdo.
Não havia dúvida que era ele, Dr. Fortunato, quem mais aguentaria tanta tristeza de modo de forma tão inabalável, não bastava o que era dito espontaneamente, ele ainda tinha que perguntar e insistir. Mas um problema lhe chamou a atenção: havia algo de errado com o filho da tal senhora, irmão da dona da casa. É claro que ele tinha que saber, precisava, agora mais que tudo, saber. Para tanto usou o argumento indiscutível: "Sou seu médico, eu TENHO que saber". E conseguiu o que queria. Eu não soube deste segredo, mas sei que este é apenas um dos muitos segredos que jamais saberei dos meus pacientes, agora o que saber deste segredo mudou na conduta médica do Dr. Fortunato é algo que eu também jamais saberei.
Esta história vai e volta em minha mente, e a cada sofrimento que vejo um paciente desnecessariamente submetido me vêem o enfermeiro de Machado de Assis e seu clone mais moderno. Algumas vezes a coisa não é tão óbvia, outras é mesmo discutível. O velho benzetacil na profilaxia da febre reumática, a discussão dos psicanalistas que falta aos médicos remoer as entranhas do sofrimento de seus pacientes, meramente questões profissionais, nada mais que isto. Talvez eles tenham razão só se aprende a andar andando e só se aprende a sofrer ressofrendo várias vezes.
Mas às vezes nem tudo é tão óbvio.
Entramos no quarto da paciente com uma missão explícita: fazer uma anamnese e voltar com um diagnóstico. Quer era infecto-parasitária era óbvio, afinal no alto da porta de entrada havia a sigla "DIP". E a pergunta clássica teve uma resposta trivial: "dor de cabeça", enquanto todos anotavam a resposta, poucos perceberam a ameaça da acompanhante: "Fale a verdade, não adianta mentir, depois eles vão ver em seu prontuário."
Porque a paciente mentiria? Talvez pelo mesmo motivo que desviava o olhar e buscava uma fuga, de sua acompanhante-irmã e dos desagradáveis internos. Um olhar atento à irmã poderia já dar bastante ajuda: o olhar de reprovação, a camisa da igreja evangélica, as ações de pena explícitas. E quanto mais vinham perguntas, mais a paciente se escondia, mais a irmã dava respostas evasivas até que veio o auge da tortura explícita: "a quanto tempo ela vem apresentando este comportamento?".
A irmã não conseguiu segurar mais o choro, apenas repetia: "Ela era tão forte... Porque ELA teve que agir assim?", eu também não consegui mais segurar a cena, em voz bem alta para que todos escutassem, pedi licença e fui. Quando eu saía, ainda escutei uma voz: "mas nós ainda não descobrimos a doença", "CID B23", respondi.
Muitas vezes não é culpa nossa, algumas é sim, realmente necessário. Mas será que para o paciente faz alguma diferença? Tortura é tortura seja qual for a face que damos a ela, seja qual for seus fins. E é claro que nenhuma tortura seria pior para a evangélica do que ter uma irmã que carrega em seu sangue a cólera divina aos males da modernidade e também não há tortura pior para tal pecadora ser lembrada o tempo todo que tudo que lhe acontece agora é uma punição por seu comportamento promíscuo.
De que adianta teorias científicas uma hora destas?

domingo, março 02, 2008

Assim a tranquilidade alimenta a minha escuridão

Lenore, não enfrente teus monstros sob pena de tornar-se um deles: aquele que contempla o abismo, pelo abismo é contemplado.
Sempre soube que não deixaria o filósofo romântico tão cedo, especialmente agora que todo este romantismo me enoja.
Os médicos estão irritantemente se polarizando entre os poderosos heróis, pedantes e arrogantes, mal sabem o triste fim que lhes aguarda enquanto os plantões, e às vezes as drogas da simples cafeína à irresistível dolantina, lhes drena o pouco que sobra de vida e humanidade, e os românticos derrotados, depressivos e solitários que foram atropelados pelo mundo antes mesmo de juntarem as forças necessárias para salvá-lo. 20mg de fluoxetina não vai te tirar desta. Você ainda não viu nada.
O sofrimento te consome e te obriga a escolher um caminho: ou se anestesia ou se destrói. A morte será sua companheira, a dor uma amiga inseparável, daquelas que adora detestar. O mal-estar da civilização a partir de agora é culpa sua, você foi incapaz de curá-la porque não estudou o suficiente. A resposta, o diagnóstico, o tratamento: tudo isto está depois daquela esquina, mas você é o imbecil, burro e incompetente que não conseguiu chegar lá.
Burnout: Será queimado vivo.
Escreva. Mantenha a sua sanidade. Você não criou o mundo, não pode salvá-lo. Síndromes, doenças, patologias só existem em livros e fora deles há o mundo cuja alegria e beleza é sua escolha ver, ou não. A morte não é culpa sua e o mundo depois de você será igual ao que era antes, mas o que acontece no meio é que é escolha sua.
Escute: cada paciente é uma vida, cada vida uma enorme oportunidade de aprender. Toque: sinta o humano, assuma o controle. Cure: ninguém disse que estudar não era importante, mas a cura é muito mais que conhecer, é saber, é crer, é viver. Sorria: muitas vezes só isto basta. Não espere o que não vem, não deseje o que não tem. Lute: mas não espere vencer e não se cansará nunca.
Escreva, não contemple o sofrimento, escrevendo você aprende, apreende, torna-o seu para o que você quiser. Refaz, revive, reconstrói a realidade, constrói a sua realidade, uma que corresponda ao seu anseio. Escreva, escreva muito e, um dia, esta realidade será a única que conhecerá.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Personagens

Eu ali não era eu, era um personagem. Contava a minha vida de personagem, de reunião do grupo de teatro, virou aula de teatro. Ridículo, simplesmente ridículo. Não passava pela cabeça dele que eu tivesse mais o que fazer do que ficar escutando um monte de pré-adolecentes em uma brincadeira imbecil? Mas a explicação dele chocou-me pela lógica e ficou a lição, do que disse e de que eu não sou sempre o único que "vê além" e que a minha existência como pessoa - e como aluno como outro qualquer - é parte de minha função na sociedade e, principalmente, nesta comunidade.
Somos todos personages: este que acabamos de inventar, aqueles que achamos que somos ou aqueles que os outros acham. Somos teatros, atores que encenam no palco do teatro cartesiano de cada um. Fácil de entender e fácil de aceitar, o difícil é lembrar disto sempre e agir de acordo. Mas não há como fugir.
A médica antes tinha reclamado: eles pensam que somos ricos. Não pensam, somos. Chorar miséria não criará um novo personagem, apenas tornará o antigo mais ridículo. E não importa de onde você veio, a cena da primeira reunião do grupo de teatro e a cena da médica dizendo que também vinha de uma comunidade carente misturaram-se em minha mente ao ver a primeira peça montada. Talvez não fosse a intenção de ninguém, mas eu me vi na peça. Claro que era eu, éramos nós, a diretora que queria doutrinar os alunos favelados, assim como ela na peça, nós também vínhamos nos aproveitar da miséria alheia para ganhar dinheiro do Estado com o sofrimento deles, e doutriná-los.
A quem queremos enganar? Sentimos orgulho de tornarmos santos e a raiva frente a ignomínia, tudo isto torna hipócrita qualquer tentativa de aproximação por igual. Isto não é possível e talvez só sirva para o nosso ego. Não somos superiores, mas ganhamos mais. Se o valor de um homem é medido pelo seu contra-cheque, é porque não foi-lhe mostrado outro valor e contra o fato por demais óbvio argumentos são inúteis. Aceite isto e cale-se.
Simplesmente não dá. O nosso personagem em nós mesmo também é julgado esteticamente como em qualquer peça, só talvez sejamos aqui mais cruéis. Aqui a estética traveste-se de ética e condena à uma vida de ódio e sofrimento aqueles que representam aos outros personagens que não condizentes com o mundo que construímos e nos satisfazemos em ter domínio sobre ele. Saber que somos sempre um personagem e que os padrões estéticos não foram criados por nós e, portanto, não precisamos aceitá-los cegamente ajuda a enfrentar a vida que independe de nossa vontade e compreender que nosso "imenso" salário não é para tentar impor uma forma de sermos visto, nem qualquer padrão seja ético ou estético, mas para cumprirmos o nosso dever como profissionais técnicos. Não estou lá para que o meu personagem tenha um roteiro bonito, mas para que os outros personagens tenham vida e saúde por toda a peça.
Bonito ou feio, rico ou pobre, eu quero ser um bom médico.

domingo, janeiro 13, 2008

O Grande Deus Asklepius Morreu

Peça aos médicos que lhe apresentem indicadores e eles levantarão o segundo quirodactilo, quem poderia supor o absurdo, que os médicos já não sabem nem mais o que fazem. Talvez Foucault diria que a maioria nunca soube, mas tudo bem, antes de eles se aperceberem como sustentação filosófica do Estado, quando os indicadores não faziam mais diferença que o quinto quirodactilo, já não serão mais: os indicadores que sustentam a nova religião.
A ignorância do exército estadunidense ao adotar o caduceu, símbolo de Hermes, deus do comércio, como insígnia de seu quadro médico talvez escondesse uma sinistra profecia: Asklepius perderia seu posto para o mensageiro. Como a águia da parábola de Esopo triste será o fim da medicina, que dá aos inimigos a própria arma com a qual é abatida.
Ao agir como mecanismo de controle social, a medicina precisou se universalizar, atingir a todos, evoluir de "humanitária" para obrigação do Estado e passou a ser exigida pelos controlados: de que vale um Deus se é só para os ricos? A massa precisava do Tanatos para ser controlada e Deus morto, Deus posto: a medicina que surge como nova fonte geradora de medos e pecados, a nova moral, a nova redenção, para ser Eros precisava de uma base que a sustentasse. A base que a sustenta, como o símbolo chinês Tai-Chi é a própria estrutura capitalista e como a cobra engole o próprio rabo a medicina precisou ser eficiente para ser universal.
Nem universal nem eficiente o ciclo quebrou, na melhor visão capitalista, o sistema faliu. Novos conceitos, novos valores, novos controles este agora, bem mais sutil mas avança com avançou a medicina: desmoralizando o antigo regime. Desumaniza a medicina e reclama da desumanização, mercantiliza a ciência, ridiculariza a arte, caricaturiza os médicos: sentem-se os semi-deuses, soberbos e vaidosos, bom tinham motivos para isto antigamente...
Tudo que é novo conspira a favor deste Deus sedento: não podemos fugir a ética e estética da "evolução", ou somos homens de nosso tempo ou simplesmente não somos. É preciso humanizar a medicina, dar humildade aos médicos, fazê-los escutar e usar o próprio paciente no processo de cura. O discurso do professor barbudo e de sandalhas é o mesmo do administrador engravatado: Só assim a medicina ficaria eficiente. A diferença é só a camisa de Che Guevara. Eficiente é o grito dos que acordarão do sonho romântico de revolução mas é também o mantra dos novos sacerdotes.
E nós médicos ainda sofreremos muito para perceber que já não somos tão especiais. A nós só nos resta o mal-do-século, como os românticos a dor de ser incompreendido, a depressão e a angústia, tínhamos a resposta para o mundo, acreditamos que salvaríamos, poderíamos, se deixassem. Por que ninguém nos ouve? Por que sou tão sozinho? Por que estão todos contra mim? Vivíamos em um planeta em que éramos ricos e respeitados? Mudamos de planeta e o poder nos enebriou tanto que nem percebemos...
Não choro a morte de nenhum Deus, mas de Foucault.

sábado, janeiro 20, 2007

Nem toda nudez será castigada

Um sujeitinho irritante. Esta é a melhor definição que eu poderia dar para ele. Chato, desagradável e arrogante. Do tipo que você imagina sendo criado pela avó e duas tias solteiras: jogando bolinha de gude no carpete e soltando pipa no ventilador. Mas me ensinou muito, devo admitir: uma ou outra manobra, cliques e estalidos e muita coisa sobre relação médico-paciente, esta última sempre pelo exemplo do que não fazer.

Especialmente na enfermaria feminina, um sujeito ridículo, expondo desnecessariamente o corpo daquelas senhoras e eu cobrindo por trás. Já nem sentiam mais vergonha, afinal somos médicos (assim elas pensam), mas eu ainda sinto. A nós o poder do jaleco branco e o estetoscópio nos confere a superioridade que esmaga a empatia, a elas desaparece o direito de ser sequer uma parte do que já foram, agora transformadas em meras pacientes-objeto.

E nós entramos como caçadores, exorcistas de um ser mais físico que qualquer um de nós: a doença. Sua eternidade – na nossa cultura médica – compensa de longe a falta de um corpo palpável, pois, afinal, possui um endereço: dona fulana, leito tal. Ah, sim! Humanizou-se a medicina e os hospitais! Chamamos agora pelo nome, de acordo com a boa prática da medicina: “Como é mesmo o nome da senhora? Ah, sei... Uhum...” E no fim das contas, são meras portadoras das doenças, sempre as mesmas... Foi para isto que você estudou tanto? Olha que eu nem me lembro de ter estudado tanto assim... E se afunde em vícios: médico, cura-te a ti mesmo!

Vejo estas senhoras me lembram um pasto ou me lembrariam o selvagem cão de guerra Jet Li? Me lembram meu cachorro. Eu não sei o que o meu cão pensa nem o que um boi pensa. Também não sei o que elas pensam, mas nós nos iludimos em saber. No filme Jet Li é criado como um cão, ninguém pode dizer que isto nunca aconteceu ou quais seriam os sentimentos dele, fingimos, simplesmente, que os animais não têm sentimentos e nós, seres humanos, temos, portanto não merecemos ser tratados assim. Haja dissonância cognitiva para sobreviver (e tentar ter um mínimo de empatia) a um Hospital!

Imagine enfurnado em uma cama, preso em uma jaula de fios e tubos, acorrentado a um soro e torturado por seres de jaleco. Você está preso por você mesmo, você não pode fugir porque não pode admitir: é loucura. É loucura mesmo. Você não quer ser louco, quer?

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Não morrerás

Subíamos a escada após um breve lanche na madrugada, o hospital em relativo silêncio nos permitia escutar nosso cansaço quando a paz relativa do saguão vazia foi interrompida por ele: “toda vez que passo por esta porta, eu desejo que ele morra.” Concordei em um gesto automático, eu sabia de quem ele estava falando.

A vida no hospital nos leva a emoções difíceis de relatar, algumas tão fortes que somos propositalmente esquecemos outras que levamos tempo demais para compreender o seu significado. A que me tomou conta naquele momento foi uma destas. Quem passasse no momento, talvez pensasse que estávamos falando de um estuprador, um assassino ou, quem sabe, até de nosso chefe ou um professor carrasco. Não, nada disto: era de um pai de família que, até onde sabíamos, era tão merecedor de viver quanto qualquer um de nós, uma pessoa boa e querida por seus familiares.

Uma doença pré-existente e um acidente automobilístico o deixaram imóvel, em Estado Vegetativo Persistente (EVP), respostas pífias ao eletroencefalograma porém com reflexos básicos preservados. A face da morte ainda viva.

Talvez alguns estejam esperando mais uma condenação sobre a crueldade médica, talvez estejam pensando que queríamos que ele morresse por preguiça, para puní-lo por ocupar um leito. Em defesa eu posso dizer que o leito não ficaria vazio e se quiséssemos paz e descanso, nada melhor do que um doente em EVP que não perturba, não enche o saco e nem é necessária nova anamnese ou exame – basta mantê-lo com a medicação já prescrita, não dá trabalho nenhum. Se ele morresse em nosso plantão teríamos sim, muitíssimo trabalho extra.

O que pouca gente entende é que somos jogados quase crus às formas mais explícitas de sofrimento humano e, em situações como esta, somos confrontados com a finitude de nossa própria vida. Ficar ao leito de um moribundo é sentir sua essência vital escapando aos poucos, não sei como descrever. Somos humanos e estamos lá, racionalizando a vida como uma máquina ou um tubo de ensaio, como se nossos sentimentos não existissem. De tanto fingir – dizem – eles somem mesmo.

Talvez fosse mais bonito se ele dissesse que queria um milagre, que o doente acordasse do EVP como que tocado por Deus, “levante e ande”. Mas a experiência nos lembra constantemente o quão pouco provável isto é. É melhor que ele morra, saia de nossas vistas e possamos ainda trabalhar na esperança.

Mas sentimentos, esperança, não servem só para atrapalhar o raciocínio?

Mas o raciocínio também incomoda. Pensar e ver esta situação nos mostra que mais do que mortais, somos também incompetentes frente às forças da natureza, nos retira assim o poder que fingimos ter, nós médicos. O que estamos fazendo ali, a não ser atrapalhando que a vida siga o seu curso? Somos como sacerdotes frustrados (e frustrantes) de uma nova moral, onde não só matar é pecado, como morrer também é.

Sid

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Faça amor, não faça merda


Não tive coragem.
Medroso assumido.
Gostaria de ser um herói, quem sabe eu ainda tento.
Pelo menos eu divulgo, pode não parecer nada, mas...
http://www.malvados .com.br/normalpr oject/

sábado, dezembro 02, 2006

Seis dedos

Sentada na mesa, a espera da cesariana, ela dava sua última entrevista como gestante, à pergunta sobre o nome do pai, a resposta em si já valeria a pena pensar e escrever, “assim de cabeça, eu não lembro não”. Isto nos coloca de frente a nossos preconceitos, como evitar julgamentos morais se fomos criados na mesma cultura que ela e ouvimos a vida toda, assim como ela, que as mulheres deveriam ser castas e as mães santas. E as crianças criadas sob a influência de um pai e de uma mãe.

Neste caso o que nos incomoda é o choque entre o que aprendemos, que o sofrimento humano é causado, na maioria das vezes, pela interpretação que damos dos fatos, e não pelos fatos em si. É pertubador, portanto, a nós juízes morais, a simples falta de sentimento ao anunciar isto, a pobre coitada, não dá a mesma importância que nós. Ignora os nossos valores, isto é imperdoável.
Mas isto, diria ela, é problema nosso.

E os nossos valores indicam que o nascimento tem que ser com hora marcada, anestesia e bisturi, sem gritos, sem choro, sem vida. A cesariana nunca foi a coisa mais emocionante do mundo, o ambiente asséptico, o silêncio da mãe, o automatismo do cirurgião, o sono do anestesista e a criança saindo, meio que com vontade de ficar, pelo lugar errado. E pensar que é assim, sujo e assustado que se começa uma vida, os braços desconjuntados crescerão e tentarão atingir o inalcançável, o coração que se debate desesperado ainda se espancará por emoções que ainda nem foram sonhadas e os olhos arregalados ainda chorarão muito mais. E que tudo isto, um dia, parará. Alegria e sofrimento, emoções a que aquela semente está condenada.

Curioso acadêmico, fiquei observando o bebê, segurado pela neonatologista que o examinava. Um susto me chamou a atenção, tão absurdo que tive que olhar para a minha própria mão: polidactia. Nas quatro extremidades ele tinha seis dedos perfeitos. Perguntei consternado à médica que respondeu gritando, entusiasmada, talvez pela oportunidade de eu ver algo tão raro em uma das minhas primeiras oportunidades de assistir uma cesária, talvez por quebrar a monotonia do plantão, sabe-se lá os motivos que levam a comportamentos absurdos...

Mas a felicidade dela não me contagiou. Talvez a tarde inteira assistindo a pacientes crônicos tenha me deixado soturno, talvez não só isto, mas imaginei aquela vida, começando em uma idade tão próxima a de sua mãe, com todas as dificuldades de se nascer em um hospital público em meio a miséria de um país virtual e uma comunidade perdida. E ainda por cima com seis dedos.

Sid

domingo, novembro 26, 2006

No Ceará não tem disto não.

Acho que nunca vai sair da minha memória, pelo menos assim espero, a imagem dela cantando Luiz Gonsaga. “Este tal de câncer...”, disse ela, “... vou me embora para a minha terra... lá não tem disto não...”

Na faculdade nos ensinam que os pacientes criam uma relação de dependência que às vezes torna difícil livrarmo-nos deles, o tal “desmame”. Não tenho visto isto. É duro admitir que é bem mais difícil para mim, vou sentir falta dela, de nossas conversas, do choro que nunca vi.

O choro que nunca vi. Um dia sua filha veio me dizer que estava preocupada com a depressão dela. Depressão? Sua mãe acabou de descobrir que tem câncer e você queria que ela estivesse sorrindo e cantando? Nunca vi uma mulher tão forte.

Foi pensando nisto que fui me despedir dela, como sempre agradeci com um sorriso o fato dela ter me ensinado a ouvir os tais dos “estertores crepitantes”, minha primeira paciente de pneumo. Ele estava linda, toda maquiada exibindo a foto do último neto à toda enfermaria, falava sem parar e repetia com orgulho a notícia da alta.

Consegui, com dificuldade, um segundo de exclusividade em sua atenção para perguntar o que ela iria fazer depois da alta. A resposta não poderia ser mais óbvia: “Vou voltar para a minha terra”. Mas como? E o resto do tratamento?

“Meu filho, a primeira coisa que aprendi nesta vida é que vou morrer. Vocês médicos querem nos enganar, fingindo que vamos viver para sempre... Ah! Mas a mim vocês não enrolam não! Eu vou é voltar para o meu Ceará! Vou morrer lá! Já fiz o que tinha que fazer, já criei minhas filhas e já vi os meus netos, já não sirvo mais para nada, só para morrer mesmo.”

Eu fiquei pasmo. Não esperava esta resposta. Cadê o medo da morte? Como alguém consegue dizer que “não serve mais para nada” com um sorriso no rosto? Tenho ainda muito que aprender por aqui, quando ela completou: “esta vida não tem significado nenhum, a não ser o que a gente dá para ela. Tudo acaba, tudo não é nada não. A gente pode ficar chorando pelo canto ou arrumar um jeitinho de ser feliz. Eu vou é voltar para minha terra e ir feliz...”

Quanto a mim, eu vou ficar aqui, pensei. Sempre andando pela enfermaria por entre sofrimentos, o coração apertado como uma criança perdida, sem entender, sem agir. Queria ser como ela. Mas ela me ensinou mais do que estertores crepitantes, me deixou com a impressão que a maioria dos problemas de nossa vida não valem a preocupação e que existe apenas um fio tênue de verdade que liga o que eles aparentam ser daquilo que realmente são, no final das contas, a pior coisa que poderia nos acontecer, a morte, é natural e inadiável.Vou sentir a sua falta.

Sid

domingo, novembro 19, 2006

Em paz

“Eu fecho os olhos e ela está sobre mim. Às vezes fica ali, me olhando, de pé, sozinha. Ou como uma sombra tenta me abraçar. Eu já a vi flutuando na janela sempre fechada, me aguardando. Eu posso correr, me esconder, mas não consigo fugir. Ela está sempre lá, me esperando.” Um paciente me disse isto uma vez, de vez em quando eu me lembro, como agora.

Esta paciente sim, tinha conseguido se esconder da morte. Há, pelo menos, dez anos. Agora estava quase completando cem. Ali, quieta, imóvel, na cama de sua casa. Os parentes, em busca da boa morte, haviam tirado ela do hospital, a desumanização e, por que não admitir, o custo do sistema de saúde tinha tornado impraticável. Uma decisão difícil, mas definitiva foi tomada: ela morreria onde sempre viveu, com dignidade e sem levar os que ficam à falência.

Não morreu, mantêm-se teimosamente viva em sua cama. Sem cuidados intensivos, sem equipamento. Não fala, não se mexe, não faz barulho. Acho que a morte simplesmente esqueceu dela. A família, que a trata com um carinho que raramente eu vejo dedicado aos idosos, é simpática com o médico, mas, talvez devido a minha presença, não poupou comentários incomodativamente irônicos em relação à medicina tecnológica, científica, asséptica e, em última análise, inútil.

E pensar que foram acusados de desrespeito, assassinato, eutanásia e sei lá mais o que... A medicina é mesmo como andar em pedras enlameadas: qualquer argumento pode voltar-se contra você. Qualquer palavra, qualquer certeza, qualquer atitude... É como que a vida insistisse em ensinar aos médicos humildade, pena que poucos deixam-se aprender.

Quando saímos, o médico me disse que a família o chamava sempre, preocupada com o conforto da paciente, queriam vê-la ir em paz. Agora ele sentia mais confortável pois ortotanásia, passou a ser a palavra da moda, com a chancela do Conselho. Mas buscar o conforto de um paciente que não fala, não expressa nada (nem dor) e talvez nem retenha memória, pode ser mais desafiante do que parece a primeira vista.

Decidiu retirar algumas medicações, argumentou aos familiares que não estavam mais fazendo efeito. Eu disse a ele que isto era eutanásia e não ortotanásia. Ele me explicou que não, a medicação nunca tinha feito efeito, receitara apenas porque não se sentia confortável em ser chamado e não tomar nenhuma “atitude”. Na hora concordei, aprendi. Mas agora eu penso que a atitude poderia ter sido explicar, conversar e, cuidar da família tanto quanto do doente. Por mais saudáveis que eles tenham me parecido, não deve ser fácil.

Sid

sexta-feira, novembro 03, 2006

Erros e Acertos

Logo quando eu o vi sentado, suando, tremendo e balbociando palavras inteligíveis percebi que seria um tema de meu blog. Não imaginei de pronto que este seria o título, de tão acostumado que estou por apontar somente os erros, como se os acertos não existissem, esta palavra ainda me causa estranheza... Mas talvez seja o início da construção da maturidade clínica, o início da percepção de que a vida, e a medicina, não é tão simples quanto parece à primeira vista, ao começarmos a compreender os processos que levam a formação da decisão clínica começamos a entender – e a aceitar – os erros que eventualmente podem aparecer no caminho.

Erros, no entanto, não foram feitos para serem aceitos, especialmente se nascem da falta de respeito e de comprometimento com aqueles que justificam a nossa própria presença no hospital, com isto em mente, ao perceber o sofrimento do doente fui perguntar ao residente se não haveria algo para fazer para amenizar, "todos aqui sofrem, ou não estariam aqui". Ainda tentei iluminar aquela pobre alma, tentando ser mais direto: "Será que não dá, ao menos, para liberá-lo?".

Não, o paciente tinha uma febre nitidamente infecciosa, era precisa que ficasse pronto o hemograma para que se determinasse se a origem era um vírus ou uma bactéria, excluir as mais comuns e guiar o tratamento. Paguei com a língua, o residente estava certo, fazia sentido então mantê-lo lá. "Se você quer ajudar ao mundo, vá ao laboratório e pegue o exame dele, é um bom começo." Fui.

Quando cheguei ao laboratório os exames estavam prontos: um teste rápido para HIV e um hemograma. Bom, eu espera mais, algumas sorologias, mas o hemograma nitidamente representava uma infecção de origem bacteriana, o que então justificava a clarividência do residente em não pedir mais nada. O cara é bom mesmo. Infecção bacteriana, cujo foco ele já havia me dito que não havia encontrado, supondo eu uma anamnese e um exame clínico bem feito, fiquei curioso para saber quais seriam os próximos passos...

Nestes momentos as realidades vão se formando em nossa mente para construir uma representação realmente funcional do mundo. A verdade em si, jamais saberemos, uma vez que o que guardamos é sempre uma interpretação dela: o que é era absolutamente certo agora, pode ser o erro mais absurdo daqui a pouco, para pouco depois tornar-se obviamente correto. Ao retornar, entreguei-lhe o resultado do exame e, após mais alguns minutos de espera, chamou o paciente e disse-lhe: "O resultado do senhor mostrou uma infecção bacteriana, mas ela é oportunista, o mal do senhor é uma infecção viral escondida, a qual não podemos fazer nada, o senhor volte para casa, Tylenol de 6/6h e espere melhorar".

Quase caí para trás, não era possível aquele médico que eu estava começando a admirar tivesse feito o paciente esperar tanto tempo por um exame que ele simplesmente não iria dar o menor valor. Eu tive perguntar, afinal me parecia um absurdo. "Esperei o exame de sangue para ter uma noção do estado paciente. Embora eu não tenha medido a temperatura dele, os resultados, você pode ver, indicam uma pessoa saudável submetida uma infecção que ainda nem é tão grave ainda. Como eu não encontrei o foco da infecção bacteriana eu não posso tratar algo que eu desconheço, portanto, não nos resta outra chance além de dizer para o paciente voltar para casa e , ou esperar que o foco apareça para podermos tratá-lo, ou esperar que a infecção se resolva sozinha, graças ao sistema imune do paciente que é plenamente competente." Esta é uma explicação plausível. Certo, minha admiração voltou.

No almoço, fui gabar-me aos colegas do que eu tinha aprendido. Que alguns absurdos não eram tão absurdos quando analisados e que não devíamos sair criticando tudo que os médicos fazem, antes de no mínimo permitirmo-nos a experiência. Eu estaríamos comportando-nos igual aos "leigos", aquela racinha desprezível...

"Bela visão. Mas alguns absurdos ainda assim são absurdos". Disse ele, cuja opinião certamente não era só para ser levada em conta e sim, na maioria das vezes, seguidas à risca. Voltamos à velha questão do que é certo e o que é errado. Um paciente que vai e nunca mais volta, não sabemos o que houve com ele, se ele morreu atropelado ou se ainda vive, curado. Ou se foi a farmácia, comprou AMOXIL e curou-se no dia seguinte. Jamais saberemos. Mas existem algumas coisas que podemos saber, disse ele, entre elas que o foco da infecção não precisa ser visível, mas pode ser subentendido pela clínica ou pela anamnese, será que um exame físico de um paciente febril em que sequer a temperatura foi medida foi realmente completo?

Devemos imaginar também que nem sempre a febre resolve-se por si só, pode lesionar as valvas cardíacas antes disto. E ainda completou em tom trágico: "Ele quer um foco? Ele pode ter um foco daqui a três dias: o sangue todo de um paciente em sepse"
Mais uma vez vemos que o certo é certo e o errado é errado, dependendo de quem vê, analisa e do que esta pessoa quer acreditar. Qual atitude eu tomaria? O que eu faria? Uma coisa é certa: exame clínico completo e boa anamnese, assim como canja de galinha, nunca fez mal a ninguém. Muito menos bom senso.

Sid

sexta-feira, outubro 27, 2006

Tire a mão de mim

Quando vamos solicitar a algum paciente que nos deixe treinar o exame físico algo de estranho ocorre: o que era para ser um favor dele para nós, é encarado por eles como uma obrigação difícil de ser negada e com bastante sofrimento agregado.

Em um leito existe um sofrimento em forma de ser humano que se estivesse bem estaria em casa e não na enfermaria de um hospital público, agora vem um chato te cutucar, te bater com a ponta do dedo e haja "trinta e três"! Um paciente uma vez me disse, quando lhe perguntei se doía: "Até hoje de manhã não doía, mas tanto futucaram estes meninos que está doendo" Meu colega reclamou, como que aquilo fosse uma afronta e não uma justa reclamação. Não cabe aqui ter pena, e sim seriedade, empatia e respeito.

Este é o dia-a-dia de nós, estudantes, ocorre tanto que já nem mais me dou o trabalho de escrever, estarei em perdendo a empatia, anestesiando-me do sofrimento alheio? “Como todo médico”?

Mas esta noite, na sala de parto natural houve uma cena marcante demais para passar desapercebida, cuja raiz eu vejo no mesmo problema. Especialmente porque eu notei que alguns colegas sentiram orgulho, quando eu senti vergonha daquela mulher.

Grávida a termo, moça humilde, porém digna. Pai conhecido e amado, humilde também, esperava lá fora, preocupado e ansioso: era o primeiro filho do casal. A moça estava na sala de parto com a mãe segurando em sua mão.

Jamais saberei como dói a dor do parto, mas se a intenção de Deus era mesmo punir Eva pela tal maçã, aquele Deus do primeiro testamento não era mole: deve doer mesmo. Ela já não tinha mais lágrima, desnuda exposta como nunca estivera a tantos homens, a tanta gente. A dor a impedia de qualquer vergonha.

Será que alguém teria o direito de cobrar desta menina um vocabulário condizente com aquele que os professores doutores acham que seria apropriado?

"Mãe, pede para esta mulher tirar a mão de dentro de mim, porque está doendo muito", disse entre gemidos e soluços.

"Mulher não. Para você é 'Professora Doutora'"

Imediatamente me veio a dúvida: se para a paciente ela era "Professora Doutora" quem ela era para ela mesma? Não tenho dúvida que, ao tirar o jaleco branco, ela deveria ser alguém que não merecesse qualquer crédito, pois quem não aceita-se como ser humano ("mulher") e precisa de uma fantasia para "ser", não deve ter nada por dentro.

Deus me livre que a fantasia me marque suficiente para que não consiga tirá-la, que eu não seja nada além dela, por dentro e por fora. Vou precisar ser forte, mas não deixarei esta vaidade por as mãos em mim.

Sid

quinta-feira, outubro 19, 2006

Saco

"Que saco!" Ele disse. "Será que não dá para alguém mandar ela calar a boca?" Referiu-se para a equipe de enfermagem. Eu ao seu lado, deveria ter ido lá e falado com ela. Eu sabia o que dizer, estava fantasiado de Deus envolvido em símbolos de poder: o estetoscópio pendurado e a toca verde. Mas não fui. Fiquei vendo a monitorização da outra paciente, fiquei puxando o saco do professor.
Agora eu sei exatamente o que deveria ter dito: "eu sei exatamente o que senhora está sentido, já passei por uma cirurgia bem semelhante a esta. Foi feita uma medicação analgésica e em breve a senhora não vai mais sentir dor. Por favor, tente relaxar, existem outros pacientes na aqui na sala de recuperação pós anestesia geral que também precisam descançar..."
Será que ela teria calado a boca? Será que eu teria ganhado uns pontos com o professor?
Eu, com certeza, agora não estaria aqui relatando mais este erro. Poderia ter sido pior, poderia ter criado uma dependência que faria ela gritar ainda mais quando eu fosse embora, mas tudo poderia quando nada foi feito. Menos um sofrimento que tentei aliviar, escrevo para que da próxima vez eu não hesite.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Onde menos se espera

Propor-se a trabalhar com pessoas é expor-se ao inesperado, ao incômodo, ao desconsertante e ao amedrontador. É estar preparado para enfrentar seus temores e desejos. É saber separar aquilo que você gostaria que fosse (ou que não fosse) daquilo que realmente é. É saber superar imposições e barreiras éticas, morais e religiosas. É saber ser e deixar que sejam.

É também um exercício diário. Aprender a se reconhecer e a aos seus sentimentos, pode não parecer tão simples, mas é fundamental para o exercício da profissão e só é possível quando se sabe exatamente quem é você e porque você está ali. O que você pode fazer e quais as implicações que seus atos podem ter.

Com estas coisas em mente vamos aprendendo a nos comportar. Primeiro o paciente que fede, o paciente que é sujo. O homossexual apaixonado, o hipocondríaco carente: erros nossos que vêem à tona. O doente teimoso, o que é arrogante, o que devia ser médico: estes nos ensinam que é mais difícil lidar conosco mesmo. Já o agressivo e o criminoso nos ensinam a ter firmeza e segurança no que dizemos. Tem também aquela cuja beleza é evidente demais para ignorarmos. Esta, talvez, seja a mais difícil.

Mas existem coisas que transcendem qualquer compreensão, que vão muito além do que podemos supor ou explicar. Um professor negro já é raro, outra lição anti-preconceito. Conversávamos no corredor, me falava sobre a sua religião: dizia que o unia com o seu ethos, assumia assim a sua cultura e uma dívida com seus ancestrais, como que se a fé necessitasse explicações. Narrava o que ocorria nos cultos e como isto levava a compreensão do comportamento humano fundamentais para a sua experiência como psiquiatra.

Foi quando eu perguntei a ele se ele já havia visto nos cultos algo que não conseguisse explicar à luz da ciência. Alguns poucos minutes de silêncio, os olhos nitidamente buscavam uma lembrança a que se apoiar, a mente buscava uma explicação racional para tudo enquanto pensava uma resposta. Disse o cientista: “não”. “No terreiro não, mas no consultório sim”, completou o médico.

sábado, outubro 07, 2006

Nada

Foi. Cansada ela olhava, simplesmente olhava: o rosto sem expressão era tudo que poderia significar no momento. Nem a residência, nem o mestrado, sequer o doutorado, nada disto ajudou a ele. Para que, afinal, tudo isto?
Olhando para ele eu me via. O que estou fazendo aqui? Para que ser doutor? Para que tentar, me esforçar, sentir, sofrer, perder, vencer? Por que não simplesmente ir? Por que insistir? Para tentar atravessar este caminho de forma mais agradável possível? O que é tudo isto se não o significado que damos as coisas? O que é o significado se não ilusões que criamos para esquecermos o nada?
Enquanto fechavam os olhos deles, eu fechei o meu, empatia ou reflexo, não sei. Eu vi o fio que nos liga, o antes igual a depois: o mesmo nada, exatamente igual. Por que então tememos o nada, se antes de sermos houve toda uma eternidade? E ainda haverá eternidade quando não formos mais.
Acabou, todos se foram. Senti um tapa no ombro, mas depois me vi sozinho. Afinal, é assim que se morre.